Sobre a coleção

IkontaB

Aprendi a gostar de fotografia com um primo meu que me explicou, demonstrando com uma Yashica mono-reflex, como que velocidade e abertura controlavam a entrada de luz para impressionar o filme. Eu tinha uns 8 anos e achei tudo maravilhoso. Eu desenhava, pintava, gostava de arte, ganhei um estojo de tinta a óleo de meu pai quando fiz 6 anos. Ganhei livros de grandes mestres da pintura. Posso dizer que admirar, estudar, fazer imagens foi alguma coisa que sempre me atraiu e ocupou uma boa parte de minha atenção.

OlympusPenEES2

Olympus Pen EES2

Comecei a colecionar câmeras pois ganhei essa Ikonta (acima) que foi do avô de minha esposa. Isso deve ter sido por volta de 1990. Eu já tinha uma Olympus Pen EE2 (ao lado) que foi minha primeira câmera e a utilizava para fazer fotos da família e viagens. Fazendo meio quadro em 35 mm, um filme de 36 poses dobrava para 72 e isso era alguma coisas exorbitante naquela época. O tamanho reduzido do negativo não incomodava muito pois a cópia padrão era de apenas 9 x 12 cm.

OlympusOM1n24mm

Olympus OM1n

Já tinha também, quando ganhei a Ikonta, uma Olympus OM1n, mono-reflex, que fora um grande passo, uma verdadeira conquista para mim, pois ela era uma reflex como a do meu primo que nessa época, infelizmente, já havia falecido em um acidente de automóvel. Comprei essa câmera logo que nasceu meu primeiro filho, de três, e achei que estava resolvido em termos de câmeras fotográficas para o resto da vida. Isso foi em 1982 e eu tinha 23 anos.

Quando ganhei a Ikonta não sei quantas horas passei virando-a de um lado e de outro, analisando cada pecinha, essa combinação de esmalte preto, couro, alumínio polido, ferro anodizado, vidro, gravações, controles, articulações, encaixes e regulagens. Achei uma verdadeira joia de precisão, bom gosto, engenharia e, acima de tudo, fazia imagens. Fui logo comprar um filme, experimentei e fiquei mais encantado ainda com um negativo 6 x 6 cm. Eu era professor de matemática, formado em física, mas havia começado a fazer alguns servicinhos de fotogravia com minha Olympus OM1n. Eram fotos de produtos, para folhetos e pequenos anúncios, ou o que for que me pedissem para fotografar. Montei um laboratório P&B em casa. Comprei uma Mamiya C330 para melhorar a qualidade das fotos e fui ficando cada vez mais enfronhado com fotografia.

Um dia, andando em uma feira de antiguidades, totalmente por acaso pois não frequentava esse tipo de coisa, vi um relojoeiro que estava com uma câmera parecida com a Ikonta. Vim a saber mais tarde que era uma Super Ikonta A fabricada pela Zeiss Ikon. Era uma coisa tão óbvia que a minha Ikonta não seria a única sobrevivente daquela era, mas ao mesmo tempo, foi uma revelação me dar conta de que existiam outras. Até hoje não sei se o vendedor não tinha noção de preço ou se custava mesmo uma bagatela mas o fato é que mesmo sendo professor e ganhando pouco, pude compra-la com o que tinha no bolso.

SuperIkontaA

Super Ikonta A – Zeiss Ikon

Daí para frente fiquei muito atento às câmeras antigas e o pouco que aparecia de informação (tempos sem internet) eu absorvia como uma esponja. Fiquei admiradíssimo com o foco por telemetria, que não suspeitava que existisse. Fiz fotos com a Super Ikonta e mais uma vez fui absorvendo saborosamente cada um de seus detalhes e soluções para seus controles e ajustes bastante sofisticados.

Demorou um pouco para eu começar de fato a comprar outras câmeras pois a vida apertou bastante com três filhos e eu e a Thais, minha esposa, dando aulas. Mas como minha primeira compra foi uma barganha total, não perdia a esperança de que encontraria outra e assim fiquei pesquisando em lojas no centro de São Paulo, nas ruas Sete de Abril e Conselheiro Crispiniano, à espera de encontrar outra chance igual.

PaceMaker23

Pacemaker 23 – Graflex

Mas foi só quando mudei de emprego que de vez em quando eu comprava uma nova câmera velha. Em 1994 lembro que tinha uma dúzia delas. Nesse ano fomos morar em Chicago quando a Thais foi fazer um pos-doc em física. Lá comprei uma Pacemaker 23 da Graflex. Comprei um livro para colecionadores, o Price Guide 1995/96 do McKeown, e assim fui aos poucos ampliando minha coleção que tinha dois freios: o primeiro era o orçamento e o segundo é que nunca comprei uma câmera apenas para te-la, a intenção sempre foi fazer fotografias com ela. Isso limitou minhas escolhas a câmeras funcionando ou possíveis de fazer funcionar e utilizando filmes disponíveis ou possíveis de se obter por adaptações. Mais tarde, quando morei na França e depois na Alemanha foi possível pesquisar, conhecer e também adquirir câmeras, lentes, iluminação e equipamentos de laboratório e literatura.

Nos últimos dez anos parei de comprar pois entre câmeras e lentes devo ter algo como umas 100 peças. O que acho mais interessante nessa coleção é que com ela posso reconhecer e contar uma boa parte da história da fotografia de seu início até a década de 1970. É possível se relacionar muito da cultura, da estética, da sociedade desses 150 anos, com esses objetos que registravam suas transformações. As demandas de formato, de processamento, de qualidade, de cor, de tamanho, de praticidade, de complexidade, nas diversas atividades humanas, profissionais e amadoras, que fizeram uso da fotografia, tudo isso conta a história desse tempo. Poder usar e fazer imagens com elas nos dias de hoje, tem para mim um sabor ritualístico, algo como uma comunhão, não com o passado, mas com alguma coisa perene, contínua, uma tradição de fazer imagens, que atravessa os tempos.