Contax IIIa | Zeiss Ikon

A empresa Zeiss Ikon AG, em Dresden, foi o resultado de uma série de aquisições e fusões entre muitas outras empresas que atuavam na produção de câmeras, lentes e outros instrumentos ópticos na Alemanha. Entre as mais importantes estavam a Ica e Ernemann, ambas de Dresden, Goerz de Berlin e Contessa-Nettel de Stuttgart. Em 1926 essa fase de consolidação deu lugar ao período de ouro que se estendeu até o final da década de 1950. A partir daí o ininterrupto acúmulo de prejuízos levou a gigante a encerrar a produção de câmeras em 1972.  O problema mais evidente foi o portfólio extremamente longo, que almejava oferecer soluções para todos os tipos de fotógrafo em todos os campos da fotografia. Apenas isso, a um tempo em que especialização e racionalização iam se tornando vitais, já seria uma carga difícil demais para se carregar por maior que fosse o sucesso da marca.

Importante salientar que a Carl Zeiss originária de Jena, fabricante de lentes, fundada em 1846 e existente até hoje, é uma outra empresa, independente da Zeiss Ikon que se formou em 1926 voltada para a fabricação predominantemente de câmeras fotográficas e acessórios. A Carl Zeiss foi desde o início uma referência no desenvolvimento da indústria óptica e forneceu por muitos anos lentes para a Zeiss Ikon equipar suas câmeras. A Zeiss Ikon, igualmente, foi referência em sua área de atuação e muitas tecnologias e conceitos criados em seus laboratórios viriam a fazer história e tornar-se-iam padrão de mercado, adotados pela maioria dos outros fabricantes.

Do livro: Knipse Aber Richtig, von Wolf H.Döring DWB

Uma dessas jóias foi justamente a Contax. Ela foi anunciada em 1932 e tinha o desafio de fazer frente para as Leicas, desenhadas em 1914 e disponíveis comercialmente desde 1925. Algumas características, como o obturador de plano focal, telêmetro e um jogo de objetivas intercambiáveis eram mandatórias para poder competir com aquela que já era um sucesso absoluto no mercado. Porém, simplesmente copiar as soluções da Ernst Leitz, originariamente fabricante de microscópios, para alguém com os ancestrais de peso que formaram a Zeiss Ikon, não deve ter parecido alternativa viável para seus engenheiros.

A Contax foi a adaptação de diversas tecnologias disponíveis entre as empresas que formaram a Zeiss Ikon. O nome Contax veio, provavelmente de Contessa pois desta, veio uma das principais características da nova câmera: seu obturador de plano focal que corre verticalmente. Tal conceito já estava presente na câmera Deckrullo da Contessa-Nettel e também em obturadores da Goerz. Outro ponto importante foi o uso do acoplamento rápido da lente por meio de baioneta, em vez da rosca usada pelas Leicas.

Ainda diferente da Leica, a tampa traseira da Contax sai completamente. Isso era argumento usado a seu favor quanto à rapidez e facilidade na troca do filme. Alegava-se também, não sem razão, que a distância maior entre visor e janela do telêmetro proporcionava maior precisão na focalização da câmera. Além disso, um telêmetro acoplado ao visor (lançado com a Contax II em 1936) era uma clara vantagem que a Leitz levaria quase 20 anos para incorporar na sua série Leica M em 1954.

A focalização da Contax pode ser feita girando-se a objetiva ou acionando-se o disco dentado no topo da câmera. A ideia é que o indicador fique no disparador e com o dedo médio o fotógrafo faz o ajuste fino do foco. Como na Leica, a objetiva trava na posição infinito, há um click, e é preciso liberá-la para focar. Essa é uma condição herdada talvez das câmeras de médio e grande formato e que mais tarde foi abandonada nas 35 mm.

O obturador da Contax é original não só por correr na vertical, ele é todo em metal, em vez do então habitual tecido emborrachado. Sua construção segue um princípio utilizado em marcenaria no qual várias ripas de madeira formam uma cortina que pode ser enrolada (visível na foto acima). Uma vantagem por correr sobre a menor distância do quadro é que logo de início a Contax oferecia a velocidade 1/1000 enquanto que a Leica fazia a metade disso chegando a 1/500. Nos primeiros modelos o botão para ajuste do obturador ficava na frente da câmera e ía de 1/25 a 1/1000. Porém, como as lentes para fotografia em 35mm eram mais luminosas, tornaram possível a fotografia em situações mais escuras, e logo as baixas velocidades, até 1 segundo, foram também incorporadas. A Contax é excelente em termos de estabilidade quando se utilizam velocidades baixas sem tripé. Seu corpo não é uma caixa com mecanismos dentro. Em vez disso, a câmera é um bloco de alumínio usinado com mecanismos à sua volta. Isso lhe dá uma solidez muito grande, que no uso se traduz em estabilidade.

A quantidade de acessórios que foram criados para a Contax é algo realmente espantoso. Além dos regulares filtros e para-sois, também adaptadores para microscópios, macro-fotografia, fotografia estéreo, adaptadores monoreflex, tubos e foles, sincronismos de flash, cartuchos recarregáveis para filmes e, é claro, um rico conjunto de lentes e seus visores. As listas abaixo apresentam o que era oferecido antes e depois da Segunda Grande Guerra.

Do livro Zeiss Ikon Cameras 1926-1939 – D. B. Tubbs

Do livro Zeiss Compendium East and West – 1940-1972 – Charles M. Barringer e Marc James Small

Hoje parece realmente estranho que uma câmera de visor tivesse tantas lentes disponíveis. Para cada distância focal era necessário se adaptar um visor específico. Existiam também visores reguláveis para diversas distâncias focais. Isso nos parece pouco prático se comparado com o uso de uma monoreflex.

Sonnar |   1:1.5   f=50 mm

Esta câmera, especificamente, possui uma Sonnar 50mm f/1.5 e a Sonnar é uma história à parte. Ela foi um desenvolvimento a partir da Cooke Triplet, uma criação original de H. Dennis Taylor (1862-1943) que em 1893 propôs uma lente simples, com três elementos em três grupos, luminosa e bem corrigida, destinada a retratos por conta de seu pequeno ângulo de visão. Desta ideia primeira, vieram muitas modificações e revisões.

Erich Salomon com uma Ermanox

Em 1919 Ludwig Bertele (1900-1985), opticista autodidata na Ernemann, estudava esse tipo de construção e decidiu usar lentes compostas no lugar de lentes simples mas mantendo a ideia inicial do triplet. Ele veio a desenvolver assim a Ernostar f/2 que equipou a Ermanox, câmera para sempre ligada às fotos indiscretas de Erich Salomon, o qual, graças à grande abertura e velocidade melhorada dos filmes no entre guerras, conseguia obter boas imagens em ambientes fechados e registrou sem chamar a atenção e utilizando apenas luz ambiente, tribunais, festas, jantares e encontros diplomáticos.

Quando a Zeiss Ikon comprou a Ernemann, em 1926, Bertele continuou trabalhando, agora para a nova composição, e levou mais adiante a sua lente. Em 1931 patenteou a Sonnar f/2 e no ano seguinte a Sonnar f/1.5 que viria a equipar as Contax (Kingslake). Uma robusta lente de 7 elementos em 3 grupos que foi produzida em diversas distâncias focais e formatos.

Do livro A History of the Photographic Lens – Rudolf Kingslake

Modelos da Contax

As descrições abaixo abordam as características mais marcantes. Existem exemplares que combinam alguns detalhes de um modelo com detalhes de outro e a própria Zeiss Ikon oferecia serviços de transformação e upgrade entre os modelos.

Contax I – Fabricada do lançamento em 1932 até 1938. É câmera toda preta que aparece na propaganda anunciando seu lançamento em 1932, ao alto. Ela possui o seletor de velocidades na frente da câmera, ao lado da lente, e o telêmetro é do tipo rotativo (como nas Super Ikonta) com janela independente do visor.

Contax II – Lançada em 1936 com grandes modificações. O seletor de velocidades mudou para o topo da câmera e o acabamento mudou para metálico. Muito importante foi o novo tipo de telêmetro (swing wedge) que foi incorporado ao próprio visor da câmera. Velocidades lentas foram também incorporadas.

Contax III – Como a II, porém com a incorporação de um fotômetro no topo da câmera.

Abaixo, duas páginas do catálogo geral da Zeiss Ikon, de 1939, apresentando as duas câmeras que sucederam a Contax I.

Em função da guerra, das fábricas destruídas, da divisão da Alemanha, da penúria dos anos no pós guerra e de todas as condições do negócio internacional, veloz e altamente competitivo de produção de câmeras fotográficas, a simples divisão entre modelos I, II e III não dá conta de todas as particularidades que se encontram nos exemplares que foram de fato produzidos. Sem querer entrar em muitos detalhes, o sufixo ‘a’ como em Contax IIa ou IIIa, significa a adição de sincronismo para flash. Existe também a questão do black ou color dial. Isto se refere, entre outras coisas, às inscrições das velocidades. Quando são marcadas todas em preto, temos a black dial. Quando 1/50 está em amarelo, as mais rápidas em vermelho e as mais lentas em preto, temos o color dial. Isso é interessante pois significa uma indicação de data de produção, as black dial foram fabricadas até 1954 e as color dial desse ano até 1962..

Até onde eu pesquisei parece que não há uma fonte segura de correlação entre números de série e ano de fabricação para as câmeras da Zeiss Ikon.

O exemplar da coleção

A câmera que aparece neste artigo é uma Contax IIIa color dial. Está equipada com uma Sonnar 50mm f/1,5. É portanto uma espécie de top de linha e foi produzida nos últimos anos da história das Contax.

O fotômetro ainda funciona. Para utilizá-lo é preciso levantar uma tampa metálica. Isso é interessante pois os fotômetros de selenium se desgastam com o tempo pela ação da luz. No catálogo mostrado acima, a adição do fotômetro é uma característica que a Zeiss Ikon ligava mais à fotografia colorida, afirmando que nela a fotometria seria mais crítica. Isso trai a desconfiança de que os fotógrafos achariam talvez desperdício pagar 35% a mais só para ter um fotômetro na câmera. De fato, talvez tenhamos ficado um pouco preguiçosos com as câmeras automáticas ou com fotômetros acoplados. Não é tão difícil assim se estimar tempo e abertura em condições normais de luz e se obter resultados aceitáveis.

Para se ajustar o fotômetro, deve-se registrar a sensibilidade do filme e em seguida, gira-se o anel maior até centrar a agulha do fotômetro na janela que aparece também no topo da câmera. Nessa posição, podem ser lidos os pares abertura/velocidade para essa condição de luz.

Nesta posição, no topo da câmera, à esquerda estão o avanço do filme e o seletor de velocidades. Na direita estão o rebobinador e o controle do fotômetro. A janela com agulha é o fotômetro.

Para abrir a câmera e trocar o filme é preciso dar meia volta em cada um dos botões escamoteados e a traseira se desprende totalmente do corpo da câmera. O pequeno botão do lado esquerdo libera o filme para ser rebobinado.

Algumas fotos realizadas com esta Contax IIIa

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