Lente para Paisagens | Hermagis

Esta é uma lente que segue um conceito construtivo tão antigo que foi utilizado nas experiências de Nicéphore Niépce e Daguerre. Em seu livro sobre lentes francesas do século XIX, Agostini trás uma publicidade da Hermagis que cita sua fundação em 1845. Foi uma empresa com capacidade técnica considerável pois algumas de suas lentes do tipo Petzval tinham diâmetros realmente grandes, algo como 16 cm. Mas a Hermagis não foi uma casa a trazer novos marcos na história da fotografia, foi mais um fabricante bem sucedido, com boa qualidade e capaz de produzir lentes que aproveitavam os caminhos que outros haviam apontado.

Esta lente especificamente é dita “para paisagens”, pertence a essa categoria que em francês fica como paysage, e também pour vues, landscape lens, em ingles, ou landschaftslinse, no alemão. Pour vues, é certamente na tradição do vocabulário adotado por Nicéphore Niépce e quer dizer “para vistas”. Os outros nomes são todos sinônimos de “lente para paisagem”. Isso se deve ao fato de que por ser uma lente pouco luminosa ela só se prestava, no início da fotografia, para assuntos parados e bem iluminados como são as cenas externas durante o dia. Assinala também o fato de que as imagens eram feitas a partir de uma “vista”, gravadas pela própria luz e não pelas mãos de um artista.

Uma outra forma muito comum de se encontrar referências a este desenho na literatura é “french lens”, lente francesa, pois historicamente seu sucesso comercial veio em primeiro lugar de firmas francesas. O diagrama acima, tirado do livro de Etienne Wallon, apresenta seus antecedentes. O desenho número I mostra lente e diafragma como se compunham na camara obscura, usada para desenhos. A seta indica a direção da luz. Era uma lente plano convexa que foi mais tarde substituída, com grande vantagem, pelo menisco côncavo/convexo, número II, desenvolvimento do inglês William Hyde Wollaston (1766 –1828). Note que o diafragma se distanciou bastante do vidro. A lente número III já é de um tipo que foi  usada como lente fotográfica. Trata-se de uma lente feita com dois vidros colados. Na época, se usava bálsamo do Canadá para esse fim. Os vidros, flint e crown (esquerda e direita) possuem índices de refração diferentes. As curvaturas eram ajustadas para fazer coincidir aproximadamente foco das diversas cores e por isso o par é chamado de “dubleto acromático”. A descoberta desse dubleto recua ao século XVIII, mas o primeiro fabricante a produzir extensivamente essas lentes para fotografia foi Charles Chevalier. Foi ele que forneceu dessas lentes para Niépce e Daguerre. Dada à súbita explosão da demanda, Chevalier foi imediatamente seguido por outros, entre eles Hermagis.

Objectif Simple, representada por Wallon em 1891

Logo vieram desenhos mais complexos e melhores como as do tipo Petzval. Em um primeiro momento as “lentes francesas” perderam muito a preferência dos fotógrafos em favor desses novos avanços. Porém, depois de um rápido abandono, tão logo se desenvolveram emulsões mais sensíveis à luz e a abertura pequena deixou de ser um problema tão grave, os dubletos redesenhados voltaram a equipar muitas câmeras e foram vendidos ainda por muitas décadas. Até mesmo no início do século XX muitas Kodak utilizavam esse conceito. O diagrama ao lado, também apresentado no livro Traité elementaire de l’objectif photographique de 1891, de Étienne Wallon, mostra o desenho de uma objetiva do tipo francesa já com o desenho revisado. Agora o crown e flint trocaram de posição e o que se tem é um menisco que é a soma de dois meniscos.

Em seu livro Ausführliches Handbuch der Photographie, de 1899, Josef Maria Eder comenta lentes desse tipo sendo fabricadas por Suter, Voigtlander, Goerz, Busch, Fritsch e Français. O que mostra que era um item obrigatório no portfolio das principais ópticas.

Inscrição: Hermagis Opt.en Breveté s.g.d.g. à Paris

Bem, então essa Hermagis é um típico exemplar, muito bem conservado, de uma  french lens. Na literatura francesa é referida como objectif simple. Porém, já é da geração IV (acima), na qual o flint passa a ser bicôncavo e o crown biconvexo. Para se diferenciar a III da IV  basta notar que a lente com borda fina está sempre do lado da face convexa e então, observando-se essa característica, se a outra face for plana, trata-se da III e se for côncava trata-se da IV. Não pode ser do tipo citado em 1891, por Wallon, pois nesse caso a borda da lente traseira seria espessa e não fina.

Nessa foto em close-up pode-se ver a inscrição a lápis, prática muito comum na época. Vemos também a emenda onde as duas lentes estão coladas de modo a identificar que é um dubleto. Esse amarelado é a oxidação do bálsamo que felizmente não entrou para dentro da lente em si. Separação e defeitos no bálsamo são problemas muito comuns com lentes antigas. Mas geralmente é possível se desmontar, limpar e colar novamente, ou com o próprio bálsamo ou com cimentos UV.

A montagem dessas lentes é também muito típica. Algumas têm cremalheiras e outras não. Porém, o mais característico é o diafragma que é montado à frente da lente dentro de um pequeno tubo que funciona como parasol. As exposições eram em geral tão longas que o obturador se fazia simplesmente tampando e destampando a lente. 

Diferentes aberturas eram escolhidas trocando-se um diafragma tipo arruela. Esse parece que é original e veio com a lente que foi comprada em Bièvres em 2017.  Ele tem 15 mm de diâmetro interno e isso dá uma abertura f/9,3. Como o diafragma está à frente da lente, a entrance pupil é o próprio diâmetro da arruela e para se calcular a abertura basta dividir esse diâmetro pela distância focal. Na literatura fala-se muito em aberturas da ordem de f/30 que, somada à lentidão dos processos da época, demandava exposições realmente longas, na casa dos minutos mesmo durante o dia.

A distância focal nunca vinha marcada nesse tipo de lente. De fato, distância focal demorou um pouco para ser usada como referência a uma objetiva. Os catálogos dos fabricantes mencionavam em geral o formato que ela cobria. Um placa inteira era 18 x 24 cm, meia placa 13 x 18 cm e  o quarto 9 x 12 cm. A distância focal deste exemplar foi então calculada através de sucessivas medidas de  magnificação. Para ver como foi feito, visite esta página pois nela há uma calculadora, com instruções, que facilita enormemente a tarefa e apresenta um gráfico como este ao lado. O resultado foi 139 mm que pode ser arredondado para 140 mm, que é um número mais simpático, e não estaremos errando por muito. As medidas mostram boa coerência e então esse resultado é bastante confiável.

O círculo de imagem, medido no vidro despolido, sendo bem condescendente, foi de 125 mm. Insuficiente mesmo para um formato 9×12 cm sem vinhetar os cantos. Jogando-se esse dado e a distância focal nessa outra calculadora, temos um ângulo de visão de 48º. Isso é razoável para se chamar a lente de normal, mas parece pouco para fotografia de paisagens onde normalmente se exigem ângulos maiores. Para se fotografar monumentos, igrejas por exemplo, é preciso se tomar uma distância enorme. Em um caso bem crítico como a catedral de Colônia, por exemplo, que tem 145 metros de altura, sobre um filme 6 x 9 cm, é preciso recuar quase 250 metros. Você pode fazer simulações desse tipo neste link. Com esse formato, 6 x 9 cm, só é possível se elevar a lente em 10 mm sem vinhetar e a correção de perspectiva ficará bem comprometida a não ser que você consiga um ponto de vista bem alto. Esse  outro cálculo pode ser feito neste link.

O estado geral do vidro nesse exemplar  é excelente. O diâmetro da lente é de 40 mm e o comprimento total é de 77 mm. Não há gravação de um número de série no corpo da lente e nem está escrito na borda do vidro como é muito comum para Hermagis. Talvez um usuário inadvertido tenha “limpado” sem querer essa informação. A sua data de fabricação só pode ser estimada pelo desenho e provavelmente remonta às décadas de 1850 ou 1860. Infelizmente não encontrei nenhuma documentação mais específica da Hermagis para poder precisar melhor.

A rosca da flange tem 57 mm de diâmetro e a flange tem 3 furos. Aparentemente é uma flange original pois o estado do latão tem uma aparência muito similar ao corpo da lente. A tampa, por outro lado, apresenta o verniz, que normalmente era laca, em melhor estado de conservação. Isso pode indicar que não seja original, o que significaria uma enorme coincidência pelo encaixe perfeito, mas pode também indicar que por alguns anos ou décadas alguém usou uma sobre-tampa de couro como já notei que se costumava fazer na época.

No interior da tampa há uma inscrição que não consegui relacionar com nada. Parece um F BOT 19 S.

 

Para poder usar a lente com emulsões de hoje eu adaptei um obturador Ilex que encaixou bem no lugar da tampa. Felizmente a adição deste obturador não aumentou a vinheta.

Sendo uma lente para paisagens, eu quis experimenta-la em uma cena externa. A foto abaixo é um scan, sem retoques, de um negativo 9 x 12 cm. Foi realizado com Ilford FP4 com ASA 125. Exposição foi f/9.3 com velocidade 1/100 s. Usei um filtro amarelo para reduzir a entrada de luz pois 1/100 era a velocidade máxima do obturador mas ainda um pouco lenta para a cena. O revelador foi um Parodinal caseiro e a revelação feita em banheira aberta por 7 minutos a 20ºC.

Túnel da Av Nove de Julho e parque Alexandre de Gusmão (Trianon)

Esse resultado me agradou bastante. Inspecionando-se uma cópia real, pode-se notar que não é uma lente muito nítida, mas mesmo em uma ampliação 18 x 24 cm a imagem funciona bem. Nitidez, afinal, não é tudo e como hoje em dia, fotos externas com f/22 ou f/32, com filmes contemporâneos, são bastante praticáveis, tenho certeza que com esses diafragmas essa Hermagis, não denunciaria a sua idade.

Comente com um clique:
Este artigo lhe foi útil? no/nãoyes/sim     Loading...

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *