Pacemaker 45 Crown Graphic | Graflex

crown graphic graflex - 3/4

As câmeras Graphic, fabricadas pela Graflex, são as press cameras, ou câmeras de imprensa, por excelência, quase sinônimo da categoria. Sempre que se vê uma fotografia ou filme, realizado entre as décadas de 30 e 50, no qual apareça um grupo de jornalistas alinhados esperando algum evento ou celebridade aparecer, pode notar que uma boa parte deles carrega um Speed ou Crown Graphic com um daqueles refletores enormes utilizando flashbulbs. Para nós, hoje ela parece muito desajeitada para ser usada em situações que requeiram agilidade. Mas temos que considerar, em primeiro lugar, que filmes em formatos grandes eram a escolha padrão dos profissionais e provavelmente eles não ficariam à vontade saindo com câmeras miniatura e amadoras como eram vistas as 35 mm. Outro ponto a se levar em conta é que usando um flashbulb potente, como o Nº 11 na foto acima,  e um filme Super XX, ASA 100, rápido para a época, e que podia ainda ser puxado, o fotógrafo poderia facilmente trabalhar em aberturas como f11 ou f16, ou seja, como uma generosa profundidade de campo. Além disso, as lentes normais das Graphic eram já um pouco angulares, como a 135 mm Optar ou 127 mm Ektar, e isso garantia incluir muita coisa na cena e a possibilidade de se acotovelar com os concorrentes para chegar na linha de frente sem precisar de recuo. Para completar, o negativo 4×5″permitia muita liberdade em cortar e re-enquadrar a cena sem perder qualidade. É por isso que vemos nos filmes e documentos de época, os fotógrafos trabalhando apenas de olho no visor de arame, pensando apenas no momento certo de disparar, sem preocupação com foco e ajustes de velocidade ou abertura. Por todos estes fatores uma Graphic podia ser tão rápida como uma point & shoot, bastava treino e planejamento, pensar de antemão o que se pretendia fazer e aguardar apenas a o momento exato do disparo. Apenas o tamanho é que não tem mesmo remédio.

crown graphic graflex - weegee

Weegee, à esquerda, é provavelmente o mais famoso usuário e entusiasta das Graphics. Seu nome era Arthur (Usher) Fellig (1899–1968). Um imigrante ucraniano que se tornou foto-jornalista trabalhando em Manhattan nos anos 30 e 40. Sua habilidade em chegar na cena do crime, incêndio, ou qualquer evento que pudesse ir para as manchetes, e rapidamente realizar fotos que contavam toda a história, lhe garantiram a lendária fama e o direito de creditar suas fotos como “Weegee, o famoso”.

É interessante pensar que ao mesmo tempo, Henri Cartier Bresson, francês, estava usando sua pequena Leica 35 mm, e pavimentando o caminho para um outro tipo de fotos instantâneas. Enquanto Bresson era quieto e furtivo em seu fotografar, Weegee provavelmente se deliciava com o clarão que certificava seus personagens que sim, eles haviam sido pegos. É como comparar um batedor de carteiras com um assaltante à mão armada.

crown_graphic_godfatherA indiscrição das Graphic da Graflex fica bem ilustrada no filme O poderoso chefão, de Francis Ford Coppola, de 1972. Não é uma boa ideia tentar fotos “roubadas” com essa câmera. Mas no filme, um fotógrafo que por força do hábito tenta alguns registros da alegre vida da máfia, durante o casamento da filha do Godfather, usando uma Graflex 4 x 5 com flashbulbs e tudo o mais, acaba se dando mal. Primeiro seu filme é arrancado e ainda amassado com todo mundo olhando com ares de “quem é esse sujeito?”. Logo depois, ainda tentando alguns clicks, é posto para fora da festa e tem ainda a câmera destruída pelo irmão da noiva. Se segurando para não cair, ele olha para os restos de sua câmera arremessada contra o chão. Nessa hora talvez pense que seria melhor ter vindo com uma Minox.

Diferença entre Speed e Crown Graphic

A primeira Graphic foi a Speed Graphic, ela vinha com dois obturadores, um construído na própria lente, leaf-shutter, ou obturador de folha, e um segundo chamado de plano focal, uma cortina que corre descobrindo e cobrindo o filme, colocada na traseira da câmera. As Speed Graphic existem desde 1912, mas em 1947 a Graflex percebeu que a maioria dos fotógrafos não usavam o obturador de plano focal, e então lançaram a Crown Grafic, sem esse obturador, mais leve e mais curta. A diferença pode ser vista na imagem abaixo. A frente das duas câmeras é igual, mas a lateral da Speed tem o mecanismo do obturador e por isso é mais larga.

crown graphic graflex - leaflet

Também uma câmera de vidro despolido

Além da fotografia de câmera na mão, usando o visor de arame ou o visor óptico em tubo, com foco pelo telêmetro, é possível se colocar uma Graphic em um tripé e usar o vidro despolido para qualquer tipo de fotografia com maior precisão, de retratos até pesquisa científica. Para essas situações são possíveis alguns movimentos da lente como translação vertical, horizontal e inclinação. Mas não há chassis rotativo, para se alternar entre retrato e paisagem, é preciso virar toda a câmera, e a placa da lente é um pouco pequena para permitir uma escolha de lentes mais ampla e incluir as mais luminosas. Para trabalho de estúdio em geral ela perde para a Linhof Technika, alemã, que segue a mesma concepção construtiva, mas que por outro lado é também, muito mais pesada e cara que uma Crown Graphic.

crown graphic graflex - back

Porta filmes são intercambiáveis com a maioria das outras marcas como a citada Linhof, por exemplo. O padrão 4×5″ tem a mesma forma externamente que o formato europeu de 9x 12cm. Só é preciso ter cuidado e lembrar que aquilo que se vê no despolido será cortado nas bordas quando se usar filme 9×12 cm.

Acima está uma traseriar spring back (mola traseira). Nela é possível inserir os porta filmes sem precisar remover o vidro despolido. Existe uma opção melhor que se chama graflock back, que permite também remover facilmente o despolido e inserir um adaptador para filme em rolo tipo 120.

crown graphic graflex - grafmatic

Um acessório muito interessante, especialmente para fotos na mão, é o porta filmes grafmatic. É possível com ele carregar 6 chapas de uma só vez. Para avançar de uma chapa exposta para uma nova é quase tão fácil quanto avançar em um filme em uma câmera 35 mm. É um mecanismo como uma gaveta que quando aberta envia o que estava na frente para trás e quando é fechado faz uma nova chapa entrar em posição para fotografar.

crown graphic graflex - grafmatic open

Tudo pode ser convenientemente guardado em uma maleta original que nos dias de hoje não parece de forma alguma feita para acomodar equipamento fotográfico.

crown graphic graflex - case

A escolha de lentes é compatível com uma 4×5″do tipo press camera. A porta levadiça tem um segundo click que a leva além de 90º de modo que pode-se colocar uma grande angular sem que o trilho da lente apareça na fotografia. Isso é necessário, por exemplo, com um 65 mm. Também lentes mais longas são possíveis pois o fole se estende ate 312 mm (12 ½”). Uma lente de 240 mm pode ser usada se foco muito próximo não for necessário. Mas as Graphic são tão ligadas com fotografia na mão e situações mais espontâneas que provavelmente não é uma câmera para quem quer experimentar uma variedade de distâncias focais. Abaixo  está uma W.A. (significa wide angle, grande angular) f6.8 – 90 mm Optar. Sendo W.A. significa que ela cobre mais do que 4×5″ e portanto permite movimentos da lente.

crown graphic graflex - wa

Existe muita literatura e recursos na internet sobre as câmeras Speed Graphie e Crown Graphic da Graflex. Em especial, o site graflex.org é uma ótima fonte de informações. Um livro que não é difícil de encontrar e que realmente tem um conteúdo muito interessante é o Graphic Graflex Photography. Ele cobre toda a parte técnica, incluindo iluminação e laboratório, e ainda dá uma visão do que era a própria fotografia naquele tempo. Foi publicado em 1948 e é o resultado de muitas contribuições. Cobre uma impressionante variedade de gêneros e situações em que, eles dizem, as Graphic são a melhor opção.crown graphic graflex - book

Uma propaganda de página dupla no anuário U.S. Camera, 1947.

crown graphic graflex - advertising 1947

As Graphic permaneceram em produção até 1973 mas já no final dos anos 50 começaram a ser ultrapassadas pela Rolleiflex como preferida como câmera para uso profissional em geral e mesmo foto jornslismo. Não há uma documentação boa que relacione números de série com anos de produção. Esta que aparece neste post foi produzida entre 1947, data de lançamento da Crown Graphic, e 1955, ano em que o telêmetro passou da lateral para o topo da câmera e foi acoplado com o visor óptico. Abaixo, está uma foto que aparece em uma propaganda do flash eletrônico da Sylvania.

crown graphic graflex - ad sylvania

Três fotos feita com a Crown Graphic mostrada neste post. Todas com a Optar 135 mm. Na primeira delas foi com a câmera na mão e um flashbulb nº 5 da GE.

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