A boa morte | Marcello Lemos
Exposição individual de 01 a 30/abr/2026
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Paranapiacaba fica no topo da Serra do Mar. Lá começam as escarpas que levam à planície, ao mar, à cidade de Santos e seu porto. Ponto chave na malha ferroviária que foi construída para escoar a produção do café, Paranapiacaba teve seu período áureo na primeira metade do século XX. Depois veio o abandono. Com o país optando pelo transporte rodoviário, Paranapiacaba não era mais passagem de nada, não era mais destino e caiu no esquecimento. Nem mesmo derrubar valia alguma coisa e ela praticamente morreu em pé.
Hoje suas casas de madeira em estilo inglês, suas plataformas, trilhos, pontes, locomotivas abandonadas e a imponente torre do relógio foram redescobertas como algo “cult”. É usada para alguns eventos culturais e tenta-se desenvolver mais o turismo.
Marcello Lemos formou-se arquiteto em 2020 e não poderia ter escolhido outro tema para seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) a não ser Paranapiacaba. Era uma relação antiga pois conhecera a vila ferroviária aos 12 anos em uma excursão escolar. A partir daí começou a procurar livros sobre a história do lugar, sobre a São Paulo Railway e na adolescência fez da vila o lugar preferido de suas caminhadas. O TCC foi portanto uma opção que aliou seu carinho pelo lugar, um desejo de preservá-lo da destruição pelo tempo e as competências de arquiteto em direcionar o uso dos espaços humanos.
Esse início é como o enredo de uma infinidade de projetos de recuperação de lugares que em algum momento perderam a razão de ser e ficaram para trás. Mas esse desejo de salvar o passado traz em si uma contradição que emerge nas fotos desta exposição.
Como passagem obrigatória da contextualização do projeto, Marcello tratou de selecionar fotos que já tinha, de suas incontáveis visitas anteriores, e produziu outras que juntas deveriam dar conta de expor o estado atual da vila ferroviária de Paranapiacaba. Para o trabalho de conclusão de curso seria o “antes”, em fotos, que viria seguido do “depois” com plantas baixas, elevações e renderizações realistas das vistas e detalhes do projeto de revitalização.
São fotos que a princípio deveriam ser didáticas no sentido de que dariam uma visão clínica, informativa, da disposição e situação dos prédios e equipamentos da vila. Mas foi aí que a densa relação afetiva do artista com o lugar desviou o foco para longe da documentação que seria a tarefa do arquiteto. As fotos da exposição são mais sobre o monumental silêncio com que uma vegetação sufocante e a névoa que cai quase todas as tardes vêm devorando tudo, ano após ano. A depender apenas delas, chegará o dia em que não restará mais nada do que já foi Paranapiacaba.
Marcello Lemos fez de seu caminhar pelas ruínas e precariedades da vila uma defesa muda do direito à agonia solitária dos espaços esquecidos. É como que pedir para que nem o seu, e nem qualquer outro projeto de recuperação, seja executado. Carpir o mato, restaurar portas, paredes e janelas e pintá-las com cores vibrantes, pavimentar os pisos, refazer a iluminação, cercar com grades os maquinários espalhados pelo lugar para evitar qualquer acidente com as selfies e finalmente encher a vila com sinalização para orientar o fluxo de turistas, talvez seja o destino da vila. Talvez seja o melhor para a população. Mas para a memória do lugar talvez seja esta uma morte mais cruel do que aquela trazida pelas intempéries que são vorazes ali no alto da serra.
A exposição nos convida a pensar esta contradição. Nas imagens a vila ainda aparece assombrada pelo esquecimento mas justamente por isso: viva a seu modo. Marcello relatou em imagens essa experiência intensa com uma Paranapiacaba ainda lutando com o tempo, mas ainda orgulhosa de seu passado e ainda extremamente bela, mesmo em sua velhice. Revitalizar é preciso, mas será o fim de todos os fantasmas que ainda vivem em meio ao silêncio e a neblina.
Wagner Lungov






























