Tire fotos com seu coração | Tiago Pedro
As fotos desta exposição foram realizadas na região do Cariri. Localizada no sul do Ceará, estende-se ainda por Paraíba e Pernambuco). No Cariri fica a Chapada do Araripe, um oasis de densas florestas, cercada pela fustigante caatinga. Fica também a cidade de Juazeiro do Norte, terra de Padre Cícero (1844-1934), um bastião da profunda religiosidade que domina toda a região até hoje.
Muito da imagética e identidade cultural brasileira tem suas origens e ainda vive plena no Cariri. Se o sul do país acrescentou novas matizes a essa identidade após os movimentos migratórios do século XX, no Nordeste a história remonta até o descobrimento e tem assim o peso de uma ancestralidade que lhe dá o sabor de um Brasil mais autêntico.
Com todos esses contrastes e importância histórica a região é um convite à fotografia, em especial à fotografia “de viagem”. É um destino perfeito para quem busca “raízes”, ainda que alheias, pois oferece um componente de exotismo, com seus tipos, arquiteturas, coloridos e paisagens “diferentes”.
Mas… e se suas raízes estiverem de fato no Cariri? Como não ser turista de si mesmo? Tiago Pedro, cujo bisavô precisou fugir para Juazeiro pedir proteção ao padre Ciço para não ser morto, dá a pista central a essa questão perturbadora: “Tire fotos com seu coração”.
Desde sua invenção, a ideia de trazer para perto mundos distantes, animou legiões de fotógrafos. Basta lembrar das Excursões Daguerreanas, publicadas por Noël Paymal Lerebours já em 1941/43. Trazia os monumentos da Grécia, Egito, Oriente Médio, entre outros, para as vistas de quem nunca esteve ou poderia estar nesses cantos do mundo. Publicações como National Geographic continuaram na mesma toada pelo século XX. O fotojornalismo com a corrente dita Humanista, também foi na mesma direção de construir uma universalidade permeando todas as culturas globais através de fotos como as que fizeram a exposição “The Family of Man”, curada por Edward Steichen.
Mas como fotografia não é tão objetiva quanto muitas vezes se tenta crer, há um código ou um modo de se fazer essas imagens didáticas que visam dar à experiência de se olhar as imagens algo muito próximo de se olhar a realidade. Fotos típicas da National Geographic são nítidas em todo campo e buscam ângulos que permitam entender os volumes e formas da maneira mais plena possível. É assim que buscam satisfazer a curiosidade dos assinantes, os ditos “viajantes de poltrona”.
Este padrão foi influente e moldou os cânones da fotografia de viagem amadora quando realizada pelo “expert”, aquele amador que viajava com tripés, várias lentes e câmeras top de linha. Especialmente dentro do foto-clubismo, na categoria de foto turística, havia um entendimento do que seria uma foto “perfeita”.
O interessante desse tipo de fotografia é que ao mesmo tempo em que a imagem produzida é próxima da experiência, ela coloca uma distância entre o fotografado e o fotógrafo. Por vezes parece que este último está mais ocupado com seu equipamento do que com seu assunto. Sua relação com o fotografado é estetizante. É fazer da imagem um bom exemplar de imagem sem interpor seu olhar entre o observador e o assunto. O fotógrafo busca sua exclusão, o perfeito clichê, e obtê-lo é a prova de sua expertise
Por outro lado, o amador “vulgar”, ou simples usuário (usager, como o chamou Clément Cheroux em seu Vernaculaires), aquele que George Eastman compreendia tão bem que lhe vendia uma câmera que fotografava tão mal, este não estava nem um pouco preocupado em mostrar suas habilidades e conhecimentos fotográficos. Seu interesse era registrar os momentos em família, os passeios, as férias, os lugares onde estivera, etc. O mero reconhecimento, ajudado talvez por uma legenda, já era o suficiente para sua foto. O importante era poder dizer: este sou eu com meus queridos e estivemos lá.
Passando as fotos desta exposição, feitas por Tiago Pedro, proponho pensarmos que nelas ele cria um espaço que empresta um pouco desses territórios de imagens e cria algo que dá substância à sua máxima “tire fotos com seu coração”.
Há uma negação aberta à “foto perfeita”. Os expedientes para fugir desse risco são, por exemplo, o uso de filmes vencidos e um certo descaso com procedimentos padrão de revelação. Ele chega a expressar isso com uma legenda em uma de suas fotos onde se lê: “Contra a foto perfeita”. Entendo isso como uma maneira de quebrar a distância que a atenção ao equipamento imporia se ele estivesse preocupado com a técnica. É uma maneira de aproximar-se mais daquilo que ele fotografa, bem à maneira do amador fazendo fotos de família, só pelo gosto do ato, por saber que a foto será apenas uma lembrança, um índice de sua experiência, naquele momento especial com aqueles que ele ama.
Ao mesmo tempo, é claro que estamos longe da fotografia amadora. Tiago Pedro usa alguns de seus atributos apenas para situar suas imagens ao abrigo das fotos que poderiam parecer “de turista”. Seu olhar de cineasta consegue facilmente prescindir dos recursos da fotografia estilo reportagem clássica e sem eles criar imagens de uma beleza única. Em uma segunda passada, após o estranhamento das escalas tonais, dos contornos difusos e da poeira lembrando que a superfície da fotografia existe, pode-se perceber um cuidado e uma sensibilidade muito grande com a organização dos elementos da foto. Por exemplo, a Dona Maria com o facão, tem uma palmeira no segundo plano que remete a um cocar ou elmo, como se estivesse sobre sua cabeça. De repente ela se torna mais “guerreira”.
O lado deliciosamente irônico disso tudo é que depois de sentir a força de elementos outros agindo sobre nossa percepção, depois de cairmos na armadilha que o artista nos preparou, passamos a gostar dos desfoques e arranhões pois eles nos contam algo sobre a gênese daquela imagem, sobre a intenção do fotógrafo e sua intensa relação com as pessoas que ele fotografou.
Mas nesse campo das associações, sobre como elementos formais e semânticos se articulam para torcer e ampliar os sentidos, as ferramentas analíticas são muito limitadas. Não vou me arriscar mais por aí. O melhor é deixar que o olhar passeie e que nossa memória faça emergir em sentimentos o que é indizível pelo discurso.
Wagner Lungov
