Calótipo | Henry Fox Talbot

Willian Henry Fox Talbot – Daguerreótipo de Antoine Claudet, c. 1844

Paralelamente e sem conhecimento um do outro, o inglês Willian Henry Fox Talbot estava, assim como o francês Louis-Jacques-Mandé Daguerre, desenvolvendo um processo fotográfico. Muitas pessoas em vários lugares do mundo estavam procurando uma maneira de fixar as imagens da camera obscura, mas estes dois processos, o daguerreótipo e o calótipo, foram os dois que realmente se consolidaram como pontos de partida da fotografia.

Já era conhecido, desde o tempo dos alquimistas, que alguns compostos com prata são sensíveis à luz, isto é, que mudam suas características quando expostos à luz. Que a camara obscura forma imagens daquilo que está à sua frente, isso também não era novidade para ninguém no início do século XIX.

Os dois elos que faltavam a Talbot e todos que investigavam alguma forma de gravar as imagens da Camara Obscura eram:

1- Como impregnar, qual suporte, com quais sais de prata ao abrigo da luz, para depois expor este suporte a uma imagem projetada por uma lente e obter variações que acompanhem a maior ou menor luminosidade recebida em cada ponto da imagem.

2- Depois de retirar o suporte exposto, como impedir que as partes que dentro da camera obscura foram poupadas pela não incidência de luz, isto é, as sombras da imagem, não sofressem as transformações agora pela luz ambiente.

O suporte que Talbot escolheu foi o papel. Um bom papel para escrita, livre de impurezas.

A prata entrou no processo não na forma metálica pura, como no daguerreótipo, mas no sal de prata chamado Nitrato de Prata. Este sal, convenientemente para o processo, não é sensível à luz e então pode ser manuseado em condições normais de iluminação

Para fazer a prata “trocar de sal” e ir formar um outro que fosse sensível à luz, Talbot molhava seu papel em uma solução de cloreto de sódio, o sal de cozinha.

Depois de seco esse papel era então banhado em uma forte solução de nitrato de prata. Essa operação já precisava ser feita em um ambiente fracamente iluminado. O que acontecia nesse segundo banho é que uma parte da prata “soltava” o nitrato e se “unia” ao cloro, formando o cloreto de prata, este sim sensível à luz e sujeito a escurecer quando exposto a ela.

Espécies botânicas – Photogenic drawing – Fox Talbot – 1839

Antes de ir para a camara obscura, Talbot experimentou muitas impressões por contato no processo que ficou conhecido como papel salgado. Principalmente plantas ou rendas eram colocadas como um sanduíche, entre um vidro e o papel sensível, e expostos ao sol. Isso produzia silhuetas muito nítidas, contrastadas e vibrantes. Animado com o resultado Talbot foi para o grande teste que seria a Camara Obscura.

Mas a sensibilidade que ele conseguia alcançar na preparação do papel era insuficiente para essa nova situação . Para expor por contato pode-se utilizar a luz direta do sol. Mas para expor por projeção é preciso que o material sensível compense pouca luz que a lente proporciona mesmo de um assunto muito luminoso. Até nas áreas de maior brilho na imagem, a luz da camera obscura era muito fraca e demandava tempo demais para expor o suficiente para se obter um bom registro.

Talbot remediou um pouco esse problema usando câmeras muito pequenas com formato de pouco mais de uma polegada e que por isso produzem imagens mais luminosas. Esse é o caso da fotografia abaixo realizada em 1835.

Janela em Lacock Abbey, residência de Fox Talbot – 1835.

Um outro problema, talvez ainda mais grave, é que ao ser retirado o papel da Camara Obscura, ou mesmo da prensa de contato, as partes que não receberam luz da imagem ou da silhueta, começavam a receber a luz ambiente e sofriam as mesmas transformações inutilizando a imagem. O papel escurecia por inteiro.

Era preciso, ainda no escuro ou com luz muito fraca, “lavar”, remover os sais de prata sensíveis à luz que ainda estavam no papel. Era preciso fazer o papel ficar insensível à luz guardando apenas o que fora registrado dentro da camera obscura. A esse processo foi dado o nome de “fixar” a imagem.

Estes foram os primeiros experimentos, os problemas resolvidos e os não resolvidos. O calotype (calótipo no português) que Talbot logo mudou para talbotype (ou tabótipo), aconselhado por amigos, atingiu sua maturidade e potencial de uso efetivo em fotografia em 1841 quando os seguintes pontos foram endereçados:

1- Revendo o papel do iodo

O iodo forma o iodeto de prata, mas este não escurece com a luz. Talbot que conhecia esta propriedade e chegou a utilizá-lo como um “fixador”, no sentido de que trocando o cloro pelo iodo no cloreto de prata não escurecido, não exposto, as partes claras permaneceriam claras. Ele chamava o iodedo de prata de “dead stuff”, coisa morta. Mas quando ficou sabendo que era justamente o iodo que Daguerre utilizava fumegando-o sobre a prata polida, ele reconsiderou o assunto. Foi aí que ele descobriu que o iodeto de prata era sim sensível à luz, só que precisava de um “empurrãozinho”.

2- A necessidade da revelação

Um papel era preparado impregnando-o com soluções de nitrato de prata e iodeto de potássio (no qual se formava o iodeto de prata) imediatamente antes da exposição, Talbot o pincelava com mais nitrato de prata e ácido gálico. Depois de exposto, mesmo que o papel não mostrasse de imediato a imagem, era possível “desenvolver” as sombras com um novo banho em uma solução de nitrato de prata e ácido gálico. Havia uma imagem latente que precisava ser “revelada”, daí o nome revelação que ficou no português e tem “development” como termo correspondente no inglês. Isso reduziu muito o tempo de exposição a algo como um a dois minutos em dias ensolarados. Foi esse o processo do calótipo que ele patenteou em 1841.

3- Enfim um fixador de verdade

As formas que no início Talbot tentou empregar para fixar a imagem eram pouco efetivas. Hoje sabemos que os banhos de cloreto de sódio, iodeto de potássio ou amônia, que ele experimentou, não removiam de fato a parte dos sais de prata que não foram revelados, não fixavam a imagem. Eles mais a de-sensibilizavam, mas em pouco tempo ela se deteriorava. A solução veio de Sir John Herschel que já em fevereiro de 1839, por curiosidade depois do anúncio do Daguerreótipo, fez seu próprio processo fotográfico, em uma semana segundo Helmut Gernsheim, no qual empregou o Tiossulfato de Sódio como fixador. Esse sim, de fato dissolve os haletos de prata e fixa a imagem. É o fixador clássico, usado até hoje.

O proceso final e completo do calótipo apresentado em 1841

Depois de tantas experimentações finalmente Talbot chegou a algo que era plenamente utilizável. O processo envolvia:

1- Papel puro, sem aditivos, nitrato de prata e iodeto de potássio para formar Iodeto de Prata, que é sensível à luz mas não escurece imediatamente sob ação desta. Este papel pode ser guardado por algum tempo

2- Antes da exposição esse papel é “ativado” com uma mistura de nitrato de prata, ácido gálico e ácido acético.

3- Depois da exposição a imagem não é ainda visível mas precisa ser revelada em uma solução de nitrato de prata e ácido gálico. A imagem obtida é “negativa” (termo cunhado por Herschel), isto é, o claro na cena vem escuro na imagem e vice versa.

4- Lavagem em água limpa. Após a revelação o papel estará impregnado de nitrato de prata e ácido gálico que precisam ser removidos para que não interfiram com o fixador.

5- O negativo é fixado, isto é, lavado em uma solução de Tiossulfato de Sódio, que dissolve e remove todos o Iodeto de prata que não foi revelado e encontra-se portanto nas áreas claras do negativo. Nesse ponto o papel contém apenas a prata revelada, metálica, que forma as partes escuras da imagem.

6- Finalmente, o papel precisa apenas ser bem lavado e seco.

Obtenção do positivo

Para a impressão final, Talbot utilizou o processo que já funcionava bem por contato, aquele com o qual ele imprimia silhuetas de espécies botânicas e rendas de tecido desde 1835 e que chamava de photogenic drawing. Este processo ficou conhecido como “papel salgado” que é apenas papel banhado em uma solução de cloreto de sódio e depois nitrato de prata. Este é um processo que não demanda a revelação, a imagem escurece sob luz do sol, através de um vidro que prensa o negativo contra o positivo. Depois de exposto precisa apenas de lavar/fixar/lavar/secar.

Importante notar que o papel salgado, embora irmão gêmeo do negativo no calótipo, ganhou independência e foi largamente utilizado com negativos de outros processos, como a placa úmida ou colódio, por exemplo.

Depois da descoberta

A porta aberta – calótipo de Fox Talbot – 1844

Talbot estava muito aborrecido ao ver que além de fama internacional, da noite para o dia, Daguerre recebera do governo francês uma pensão vitalícia considerável, enquanto que para ele as autoridades inglesas nem deram muita atenção. Dizem que esse foi o motivo que o levou a patentear o calótipo e por algum tempo fiscalizou atentamente os infratores de seus direitos. Seus conterrâneos, por esse motivo, o acusavam de ter atrasado o desenvolvimento da fotografia na Inglaterra.

O uso do papel como suporte dava às fotografias realizadas por este processo uma textura e uma perda de detalhes inevitáveis. O papel era tratado com cêra de abelhas para ganhar transparência mas nada o deixava realmente translúcido. Os defensores do Daguerreótipos sempre colocavam este ponto como prova irrefutável da superioridade do processo francês que, pelo contrário, parecia ter uma perfeição microscópica.

As vantagens de se poder tirar várias cópias a partir de um mesmo negativo não foram imediatamente percebidas. O custo muito mais baixo do calótipo que permitia facilmente impressões muito maiores também não pareceu tão importante naquele momento. Na década de 1840, se fazer retratar pela invenção do século foi vendido como artigo de luxo e acessível apenas para uma clientela que não olharia muito para o preço.

David Octavius Hill e Robert Adamson – fonte Wikipedia

Nos primeiros anos da fotografia, o daguerreótipo seguiu como uma jóia, peça única em seus pequenos estojos cheios de veludos e dourados e foi de longe o processo preferido para retratos O calótipo logo encontrou seu espaço na arquitetura e paisagens, por sua facilidade em tamanhos maiores, portabilidade e reprodutibilidade. Teve ainda, nas mão de alguns fotógrafos, um emprego criativo na realização de retratos considerados artísticos e cenas de gênero. O caso mais famoso é o dos escoceses David Octavius Hill e Robert Adamson que funcionavam em dupla. Mas o cenário mudaria radicalmente logo na década de 1850 com a descoberta do colódio como suporte em negativos de vidro e o papel de albumina para impressão das fotos.

Se você está no circuito temático Processos Fotográficos:

Na próxima sala você irá conhecer colódio, ou placa úmida. Trata-se de um processo que utiliza placas de vidro na câmera fotográfica para produzir negativos com detalhes tão finos quando o daguerreótipo mas com a reprodutibilidade de um processo negativo/positivo.

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