Ambrótipo | James Ambrose Cutting

O ambrótipo é apenas uma aplicação especial do colódio de Frederick Scott Archer. A princípio, Archer o pensou primariamente como um processo para obtenção de negativos sobre vidro. Eles estava ciente da possibilidade de o positivar, mas este não era o seu intento. Pode parecer estranho que o mesmo processo sirva para fazer positivos e negativos, mas há uma explicação lógica para isso.

O processo em si é essencialmente o mesmo que se faz para negativos, a maneira como o colódio salgado é aplicado no vidro, sensibilizado, exposto e revelado. Veja o artigo sobre as placas úmidas. Porém algumas variações melhoram a sua aparência quando o processo é orientado a um positivo.

Podemos dizer que aos nossos olhos um cinza quando colocado contra um fundo branco faz o papel de um tom escuro. Quando colocado contra um fundo preto, faz o papel de um tom claro. Aproveitando esse fato de nossa percepção a ideia do ambrótipo foi a de colocar um fundo preto por trás do que seria um negativo.

Isto funciona pois as altas luzes em um negativo representam os maiores depósitos de prata. Esses depósitos não são absolutos absorvedores de luz, eles refletem uma certa quantidade. Bom lembrar que, quando utilizado como negativo, o ponto em questão não é se refletem ou não mas sim se transmitem ou não, pois no negativo eles deve impedir a passagem da luz. Isso pode ser feito tanto absorvendo como refletindo a luz que incide sobre eles.

Observe o ambrótipo deste casal. Tudo que é branco ou claro está refletindo difusamente a luz que recebe. Nessas regiões temos a camada de prata que foi sensibilizada e revelada. Ela não é preta ela reflete alguma luz.Tudo que é escuro não está refletindo a luz que incide sobre essa áreas, está nos permitindo ver através do vidro. Mas o que é que vemos? Vemos o fundo preto que foi ali colocado pois o vidro era pintado por trás com um verniz preto, ou então um veludo preto era colocado por trás do vidro. Mais raramente, utilizava-se um vidro já muito escuro, em geral na cor rubi.

Para melhorar o efeito, duas técnicas intensificavam o contraste no ambrótipo:


1- Ele era propositadamente sub-exposto se comparado com o que seria para obtenção de um negativo. Isso deixava as sombras mais lavadas, mais vazadas e o preto do fundo aparecia com maior profundidade. Qualquer camada, mesmo tênue, de prata tornaria a região mais propensa a refletir luz e isso era evitado com a sub-exposição.
2- Os reveladores eram menos enérgicos, mais lentos, e isso tendia a produzir um grão menor, um depósito mais fino que refletia melhor a luz.

Com estas pequenas variações podia-se obter imagens muito detalhadas a ainda sem aquele efeito espelho que é inevitável nos daguerreótipos e nos dá a sensação de que estamos olhando em um ângulo errado.

Por essas característica os ambrótipos foram considerados modos mais nobres dentro das possibilidades fotográficas da época e mereceram os mesmos estojos ricamente ornamentados que antes eram utilizados apenas nos daguerreótipos.

O ambrótipo acima, com esse jovem com um olhar muito firme e seguro, veio acondicionado em um estojo de gutta-percha de fino acabamento. A tampa tem um baixo relevo representando a cena de uma conhecida história chamada a “Recompensa do falcoeiro”. Um nobre rapaz perde seu falcão durante uma caçada, mas uma camponesa encontra o precioso animal e o restitui para seu dono. Vemos o rapaz apeado do seu cavalo oferendo uma recompensa em dinheiro pela boa ação da senhora. Haveria alguma conexão do rapaz da foto com falcoaria? Talvez tenha ele escolhido um tema ligado à generosidade? Impossível saber.

A gutta-percha é um termoplástico natural que vem da árvore do mesmo nome. Muitas caixinhas eram estampadas com cenas de gênero como essa, de fundo moral, cenas da bíblia e alegorias representando a fé, a esperança, a caridade e outros valores que talvez se relacionassem com as pessoas fotografadas. Mas, na falta de referências, só podemos especular.

O nome ambrótipo se deve a uma patente de James Ambrose Cutting, depositada em 1854 nos Estados Unidos. Mas sua contribuição não foi tanto no processo em si até a fase de se obter a imagem, isso era, como vimos, praticamente o processo do negativo em colódio. O que ele acrescentou foi a ideia de selar a imagem aplicando Bálsamo do Canadá sobre a imagem e um segundo vidro por cima. Isto protege a imagem física e quimicamente.

Até 1865 o ambrótipo figurou entre os principais processos fotográficos. Rivalizava com o negativo de colódio impresso em papel de albumina, que era bem mais popular e permitiu as Cartes de Visite. Seu rival direto, que também utilizava o colódio, foi o ferrótipo ou tintype, que é muito parecido porém mais simples e mais barato, daí o Abrótipo rapidamente perdeu espaço nas preferências do público.

Se você está no circuito temático Processos Fotográficos:

O processo de positivo direto do ambrótipo tinha um apelo enorme para fotógrafos ambulantes que montavam seus tripés nas ruas, praças, festas populares ou qualquer outra aglomeração de público. Porém era inviável por ser caro. Na próxima sala você irá conhecer seu primo pobre, o ferrótipo, usa o mesmo processo, mas com um truque para poder chegar a um precinho bem camarada.

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