O daguerreótipo

O daguerreótipo foi um processo fotográfico que teve importância enorme e vida curta. Muitos pesquisadores, uns mais e outros menos preparados, andavam se perguntando e experimentando, desde o início do século XIX, como seria possível registrar a imagem da Camara Obscura em algum suporte plano. O francês Joseph Nicéphore Niépce (1765 – 1833) obteve o que se considera o primeiro sucesso nessa direção com uma vista da janela de sua casa, em 1827, conhecida como Point de vue du Gras.

Joseph Nicéphore Niépce – 1827 – vista de sua janela, Point de vue du Gras

Nos últimos anos de sua vida, de 1829 até sua morte em 1833, ele colaborou com outro francês Louis-Jacques-Mandé Daguerre em busca de um método melhor pois o seu demandava um tempo de exposição de muitas horas.

Daguerre continuou nas pesquisas e no final dos anos 1830 obteve êxito com o processo que ficou conhecido como daguerreótipo. Em essência, o processo é muito diferente do que havia discutido com Niépce. Mas há uma polêmica sobre o quando lhe cabe a autoria exclusiva da invenção ou o quanto que foi uma usurpação chamar o processo apenas pelo seu nome. A história em si é muito interessante e daria uma boa novela ou filme de cinema. Veja o artigo Niépce, Daguerre e a invenção da fotografia, no Studiolo.

Niépce, desde o início de suas investigações tinha em mente que a fotografia iria se assemelhar à gravura em metal. Por esse motivo orientou-se mais a usar metais como suporte para suas fotos. A Point de vue du Gras foi feita com betume da Judéia aplicado sobre uma placa de estanho.

Daguerre continuou nessa linha de usar metais. Diferente, por exemplo, de outros que pesquisavam meios de sensibilizar o papel, como foi o caso do inglês William Henry Fox Talbot, que também obteve sucesso em 1841.

O que todos já sabiam é que a prata forma sais que escurecem quando expostos à luz. Então a prata era uma espécie de denominador comum a muitas tentativas de se inventar a fotografia.

Daguerre experimentou com placas de cobre recobertas de prata e o processo em que finalmente obteve sucesso foi apresentado oficialmente ao mundo em 1839 com o seguinte procedimento.

O daguerreótipo de 1839

1- Uma placa de cobre é recoberta de prata. Na época de Daguerre isso era feito mecanicamente. Primeiro aquecia-se um bloco de cobre com um bloco menor de prata sobre ele até que ficassem grudados por fusão. A seguir os dois eram sucessivamente passados entre rolos de aço até que uma lâmina fina fosse obtida com um metal em cada face. Só no final dos anos 1840 é que processos de galvanoplastia, usando eletricidade, foram introduzidos e facilitaram muito esta etapa.

2- A seguir a face prateada era polida até que ficasse como um espelho. Toda literatura da época é muito insistente na qualidade desse polimento como sendo fator essencial para o sucesso do daguerreótipo. Muita ênfase é dada de que o polimento deve ser feito com uma progressão de abrasivos até uma etapa final com o “rouge”, pó finíssimo feito de óxido de ferro com partículas entre 0,5 e 3 microns. Se fosse lixa, seria uma lixa com grana 4 a 8 mil. O rouge é utilizado por joalheiros.

3- Logo a seguir a placa assim polida é colocada em uma caixa com iodo sólido, que sublima facilmente em um vapor violeta. Este vapor começa a se depositar na placa prateada e forma o iodeto de prata que é um sal sensível à luz que se altera sob sua ação. O fotógrafo vai observando as mudanças na coloração da placa, durante esse banho de vapor, e este é o indicativo do momento de interromper o processo. Há um ponto ótimo que precisa ser atingido mas não deve ser ultrapassado.

Caixa para o iodo. Os grânulos são colocados no fundo D
e a placa a ser sensibilizada no teto da caixa junto à sua tampa.
Esta ilustração e seguintes são do livro “Historique et description des
procédés du daguerréotype […]”, de 1839, escrito por Lerebours, opticien.

As cores aproximadas pelas quais a superfície de prata irá passar ao longo de alguns minutos são representadas abaixo. O fotógrafo deveria inspecionar a evolução com uma luz muito fraca, normalmente de uma vela, pois é a esse ponto justamente que a placa passava para uma fase em que já estava sensível à luz.

As cores na realidade não eram assim tão definidas como se vê na tela. Eram fugidias pois tratava-se de um reflexo metálico e uma iridescência como se vê nas manchas de óleo ou bolas de sabão. Mas podem ser representadas aproximadamente pela sequência abaixo.

1. Straw Yellow
2. Golden Yellow
3. Rose-Violet
4. Blue
5. Green

Daguerre retirava a placa logo no primeiro estágio quando apresentava um amarelo pálido. Mais tarde, quando bromo foi acrescentado como acelerador, fotógrafos deixavam chegar até o estágio violeta. Se passasse disso, no azul ou verde, o efeito era revertido e a placa não teria mais sensibilidade.

4- Próximo passo era a exposição que Daguerre fazia com uma lente de paisagens fabricada por Charles Chevalier e oferecia f/15 ou f/16 como maior abertura. O tempo de exposição variava de 3 a 15 minutos em dias claros e dependendo do assunto.

Típica câmera para daguerreótipos, chambre a tiroir ou
sliding box. Sem fole, são duas caixas deslizantes.

5- A seguir a placa era levada para um outro banho de vapor, mas desta vez de mercurio que é um metal líquido à temperatura ambiente. Uma caixa cônica, invertida, ficava com a placa no topo e uma lamparina aquecia o mercúrio na extremidade pontiaguda embaixo.

Caixa para o banho no vapor de mercúrio



A toxidade do mercúrio era conhecida mas não muito bem compreendida. Fabricantes de chapéus o utilizavam para fazer o feltro. Males como perda dos dentes, tremores, perda de memória e depressão, que eram associados à profissão de chapeleiros, eram comuns também entre os daguerreotipistas.

O mercurio formava um amálgama com a prata sensibilizada e este amálgama tem uma coloração clara, formando assim as altas luzes da fotografia.

6- O passo seguinte era eliminar da placa toda a prata que não se combinou com o mercúrio mas ainda estava lá e potencialmente iria inutilizar a imagem quando exposta à luz. O máximo que Daguerre conseguiu identificar para essa tarefa foi uma solução forte de sal de cozinha, o cloreto de sódio. Mas ele não dissolvia toda prata e a estabilidade da imagem ficava comprometida.

Em fevereiro de 1939, portanto apenas um mês após o comunicado, sem detalhes, do processo de Daguerre na Academia de Ciências da França, um inglês, Sir John Herschel, que já conhecia as propriedades do tiossulfato de sódio em dissolver sais de prata, deu essa preciosíssima informação a Fox Talbot, que também trabalhava em um processo fotográfico mas desta vez em papel, como foi dito acima. Talbot tinha conexões com a academia francesa através de Jean-Baptiste Biot, comentou com ele a sugestão de Herschel e este a passou imediatamente a Daguerre que passou imediatamente a utilizar o tiossulfato de sódio.

7- Depois de desenvolver a imagem latente com o vapor de mercúrio o daguerreótipo, no processo original de Daguerre é lavado e colocado em um estojo protetor com vidro e um espaçador para que nada toque na sua delicada superfície.

Já em 1840 um outro francês, Hippolyte Fizeau, introduziu uma etapa no final do processo que consistia em um banho de cloreto de ouro que melhorava o contraste, a permanência e as tonalidade do daguerreótipo.

O produto final

Boulevard du Temple, Daguerreótipo de 1838, do próprio Daguerre. Foi utilizado para apresentar o processo na Academia de Ciências em janeiro de 1839

O que mais impressiona nos daguerreótipos, até hoje, é a sua riqueza de detalhes. Ela é promovida basicamente por dois fatores. O primeiro é que aquilo que observamos é a própria placa que esteve dentro da câmera. Toda passagem de um suporte a outro, como do negativo ao positivo no processo dos filmes, implica em perdas mais ou menos significativas e no caso do daguerreótipo elas não existem pois ele é o primeiro e único suporte. O segundo fator é a superfície extremamente plana e polida da prata e a finíssima camada sensível que os banhos de vapor nela promovem. Os daguerreótipos dão realmente a impressão de que o limitante é a nossa própria visão e não a definição da imagem em si. Esse aspecto teve um poder de sedução enorme sobre as pessoas que nunca haviam experimentado absolutamente nada igual ou parecido.

Mas é importante notar que as fotos que vemos de daguerreótipos, em livros e online, são feitas para nos mostrar a imagem no seu melhor ângulo. Isso mascara uma característica que é muito marcante quando vemos um daguerreótipo ao vivo. Sendo uma placa de prata polida até tornar-se um espelho e sendo a parte escura, as sombras e negros da imagem a parte que foi levada pelo fixador, ou seja, a parte que não recebeu luz, é importante para a observação do daguerreótipo que ele esteja em um ângulo ou posição que reflita uma superfície escura. As partes escuras não são propriamente dele, do daguerreótipo, são daquilo que ele está refletindo na direção dos nossos olhos.

No daguerreótipo acima pode-se ver o efeito espelho. A parte superior que reflete a tampa escura, nos permite ver bem a imagem. Já na parte mais abaixo à direita, que reflete uma mesa branca, a imagem como que desaparece por falta de tonalidades escuras.

Quando isso não acontece o que vemos são as partes luminosas da imagem claras e as partes escuras às vezes ainda mais claras, pois estão refletindo alguma coisa clara. É preciso então se achar a posição ideal que escureça aquilo que deve ser escuro.

Colocando em termos mais técnicos, as partes claras refletem a luz difusamente, as escuras de modo especular. É preciso se ter isto em conta.

A delicadeza da superfície do daguerreótipo obriga que ele seja protegido. De modo certamente sucessor dos pequenos retratos em miniatura, que eram comuns até então, foram criadas pequenas molduras com tampa, estojos, que podiam ser mais despojados ou ricamente decorados. Eles sem dúvida contribuíam para o lado precioso da imagem retratada, em especial no caso dos retratos.

A vida curta dos daguerreótipos se deu com o surgimento de outros processos mais simples, de menor custo, com mais opções de tamanho e de reprodutibilidade. Foi um pouco o caso do Calótipo de Fox Talbot mas definitivamente com o surgimento da placas de vidro com colódio para os negativos e do papel com albumina para as impressões.

Nos anos 1850, na Europa, a migração para estes novos processos foi bem rápida e nos Estados Unidos até os anos 1860 os estúdios, ainda deram uma sobrevida ao processo inaugural da fotografia, mas depois disso ele sumiu quase que completamente.

Se você está no circuito temático Processos Fotográficos:

Vamos voltar para Talbot. Pouco tempo depois do anúncio do Daguerreótipo ele descobriu como fazer o negativo para seu papel salgado a partir da imagem da camera obscura. Na próxima sala veremos o processo calótipo ou talbótipo.

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