Elizabeth Eastlake, Photography

Lady Elizabeth Eastlake – Hill and Adamson – 1843–47

Em 1857, a inglesa Elizabeth Eastlake, então com 48 anos de idade, publicou um texto extremamente influente com o título simples, mas em sua simplicidade muito ambicioso: Photography. Tão logo a fotografia foi anunciada ao mundo iniciou-se um debate apaixonado sobre a validade ou não de considerá-la como forma de arte. Mais do que um sim ou não, o interessante em se estudar este texto é ver como que ela endereça a questão, como que constrói seus argumentos.

Em uma primeira parte ela dá um resumo até bem detalhado dos principais marcos na conquista das técnicas necessárias para a fotografia. Só isso já tem muito valor histórico se pensarmos que ela foi contemporânea de boa parte destes eventos e que teve uma sólida formação e acesso a figuras chave tanto na ciência como nas artes. Foi, por assim dizer, uma testemunha muito bem informada dos acontecimentos que relata.

Nesta primeira parte Eastlake relativiza, para não dizer destrói, a pretendida posição da fotografia a ser o “espelho da natureza”. Por exemplo, a um certo ponto fala da incapacidade de reproduzir as finas gradações de luz nos extremos da faixa tonal: “Suas sombras fortes engolem todas as luzes tímidas dentro delas, assim como suas luzes flamejantes obliteram todos os meios-tons intrusivos que as atravessam; e assim são produzidos fortes contrastes, que, longe de serem fiéis à Natureza, parecem evitar uma das suas mais belas providências.

Sobre sua relação ou possibilidade de ser uma forma de arte, sua negativa é muito bem fundamentada. Mas temos que ter em mente que o século XIX foi uma espécie de climax de uma visão que, iniciada no Renascimento italiano, vinha colocando a natureza como fonte de todas as artes, a ponto de Leonardo da Vinci ter escrito que a natureza era sua única mestra.

Mas aqui vem um segundo “mas”: mas não devemos nos enganar achando que para ter a natureza como mestra basta fazer igual a natureza, pois é justamente sobre o significado deste “fazer igual” que estava toda a disputa. Havia muita discordância sobre este ponto. Discordância que começou na pintura e continuou sem solução na fotografia. Que o artista deveria ser fiel à natureza, era algo como que um ponto pacífico, mas o que isto significaria na prática? Ser fiel seria reproduzir a imagem retiniana? Seria enfim o tal espelho? Ou seria dar uma visão do todo, de uma essência, uma visão humana, consciente de valores além dos ópticos?

The Fighting Temeraire, J.M.W. Turner – 1839 – London National Gallery.

É neste ponto que Eastlake se pega para dizer que onde a fotografia pode invadir o território da arte, não é na verdade o território da arte. Ela cita Rembrandt, Rubens e Turner como exemplos de onde a arte se manifesta na sua melhor forma. Ela chega a dizer que é quando a fotografia é mais tosca, creio que pensando nos calótipos de Hill and Adamson que a fotografaram várias vezes (imagem acima), que ela mais se aproxima de ser arte.

Eastlake inverte a questão e afirma, de modo até certo ponto premonitório, que a fotografia em vez de substituir iria liberar a pintura: “Em tudo aquilo para o qual a Arte, assim chamada, tem sido até agora o meio, mas não o fim, a fotografia é o agente correto – para tudo aquilo que requer mera correção manual e mera escravidão manual, sem qualquer emprego do sentimento artístico, ela é o meio adequado e, portanto, perfeito.” Ou então: “A fotografia pretende substituir muito do que a arte fez até agora, mas apenas aquilo a arte fez como uma apropriação indevida e uma deterioração da Arte.

O texto é enfim muito espirituoso, deliciosamente escrito e defende bem uma posição algo romântica da arte onde ela estaria ao abrigo de ser invadida pela nova tecnologia. É realmente indispensável para quem estuda história da fotografia e da arte.

O texto é disponível online neste link: Elizabeth Eastlake, Photography

Para encerrar e dar mais vontade de ler, caso você ainda não tenha lido, sobre a fotografia…

“Seu negócio é prover as evidências dos fatos, com a minúcia e imparcialidade que, para nossa vergonha, somente uma máquina irracional seria capaz.”

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