Lampe Pigeon com Cheminée Junius

A fotografia, tornada pública em 1839, existe desde muito antes da energia elétrica. Somente a partir de 1880 que as grandes capitais de Europa e Estados Unidos começaram a receber iluminação, mas apenas nas vias públicas, depois vieram as indústrias e somente em uma terceira fase as residências começaram receber energia. Era um artigo de luxo e por isso utilizado apenas para iluminação e ainda assim não de todos os cômodos da casa. Velas e lamparinas à óleo continuaram itens de imprescindíveis em todos os lares.

Graças ao entusiasmo de D. Pedro II por tecnologias, o Brasil até que foi rápido ao implantar já em 1883, em Campo de Goitacazes (RJ) as primeiras ruas iluminadas com lâmpadas elétricas. Mas apenas por volta de 1930 é que as residências em São Paulo e Rio de Janeiro foram conectadas à rede. Em cidades menores ou áreas rurais a disponibilidade não veio antes dos anos 1960.

A Lampe Pigeon é uma lamparina a óleo, francesa, inventada e patenteada por Charles Pigeon em 1884. Principais características: Foi projetada para ser relativamente segura, portátil, robusta e barata. As principais medidas de segurança incluía um desenho para evitar derramamentos do combustível em caso de tombamento e recursos projetados para reduzir o risco de explosão, que era uma preocupação com as primeiras lâmpadas a óleo e gasolina. Elas eram normalmente feitas de latão niquelado, como esta da coleção, e produziam uma quantidade razoável de luz para seu tamanho.

A Cheminée Junius

A “Cheminée photographique Junius” é o que nos interessa mais. Era uma manga em vidro rubi que pode ser instalada substituindo a manga original da Lampe Pigeon. Com ela o fotógrafo tinha uma luz de segurança para manipular placas, filmes e papeis fotográficos em seu laboratório.

Por muitas décadas este tipo de acessório foi indispensável nas muitas localidades não servidas pela energia elétrica. Esta situação, considerando o que foi visto acima, permaneceu até o meio do século XX para todos que estivessem longe das cidades já com um certo porte.

Sobre o vidro Rubi

Há uma mística sobre o vidro Rubi pois o ingrediente chave para produzir essa coloração é nada mais nada menos que o ouro. Os alquimistas medievais eram obcecados pelo ouro (o metal mais “perfeito”) e sua relação com o vermelho (a cor da vida, do sangue e da “Pedra Filosofal”). Durante séculos, acreditava-se que essa cor vermelha era um sinal de que o ouro estava “dando sua alma” ao material. Eles não compreendiam a física dos colóides; pensavam que estavam testemunhando uma transmutação mística.

O vidro rubi dourado é criado pela dissolução do ouro em água régia (uma mistura de ácido nítrico e clorídrico) para criar cloreto de ouro. Quando adicionado ao vidro fundido e reaquecido, as partículas de ouro não permanecem dissolvidas; elas formam uma suspensão coloidal. Essas nanopartículas são tão pequenas (aproximadamente 40 a 100 nanômetros) que dispersam a luz por meio de um fenômeno chamado efeito Faraday-Tyndall. Elas absorvem a luz azul e verde, deixando passar apenas o vermelho profundo, semelhante ao do sangue.

As mangas vermelhas para lamparinas, como a Cheminée Junius Lampe, foram concebidas para serem seguras contra a radiação actínica. A maioria foi fabricada com vidro rubi dourado ou com vidro rubi selênio, ligeiramente mais barato e com uma coloração mais para o âmbar (desenvolvido mais tarde, na década de 1890). A versão dourada era preferida para salas escuras profissionais, pois seu “corte” da luz azul/UV era muito mais nítido, protegendo as placas de halogeneto de prata de forma mais eficaz.

Portanto o vidro vermelho ou vidro rubi, presente em tantos equipamentos de fotografia, é um descendente direto do forno dos alquimistas do século XVII. Quando Johann Kunckel aperfeiçoou o “vidro rubi dourado” em 1679, ele estava em busca da beleza e do “espírito do ouro”. Dois séculos depois, o fotógrafo pioneiro usou esse mesmo segredo alquímico para criar um refúgio seguro para suas placas de haleto de prata. A lâmpada ‘Junius’ é, literalmente, uma ferramenta alquímica usada para a magia moderna de capturar imagens. A conexão com a alquimia é direta.

cena do filme Heart of Glass

Em 1976 Werner Herzog lançou o filme Heart of Glass, que saiu no Brasil como Coração de Cristal. O filme se passa em uma vila da Bavária, onde o mestre soprador de vidro morre, levando consigo o segredo do “Vidro Rubi”. O dono da fábrica enlouquece, chegando a matar um empregado porque acredita que sangue humano pode ser o ingrediente que faltava. É uma história fantástica que Herzog rendeu com uma atmosfera de sonho, ou talvez pesadelo.

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