Placa Úmida ou Colódio | Frederick Scott Archer

Para fazer placa úmida o fotógrafo tinha que levar, além da câmera, o laboratório

A placa úmida foi desenvolvida pelo inglês Frederick Scott Archer a publicada por ele em 1851. É um processo que, embora bem diferente, combina as melhores características do daguerreótipo e do calótipo de Talbot. Assim como o Daguerreótipo, permite uma riqueza enorme de detalhes remediando assim o ponto fraco do calótipo. Por outro lado, assim como o calótipo, é um processo negativo/positivo que permite se tirar incontáveis impressões a partir de um mesmo negativo, o que é impossível no daguerreótipo, o qual, por ser um positivo direto, é uma peça única.

Tudo isso se resolve, assim como mágica, por ser a placa úmida um processo que utiliza o vidro como base. É claro que, sendo um negativo, é preciso depois se imprimir a foto final. Mas isto era feito sem problemas através do papel com albumina, a clara do ovo, como base para os sais de prata.

Sobre colódio, clara de ovo e mais tarde gelatina, entre outros suportes que foram experimentados, o que se procura neles é que tenham as seguintes características básicas:


1- Que retenham os sais de prata em quantidade e uniformidade suficientes para que a imagem atinja uma boa densidade nas áreas mais iluminadas da cena, isto é, que bloqueiem a passagem da luz nessas áreas de acordo com áreas de luz e sombra.
2- Que permitam à luz penetrar, que tenham transparência para que mesmo os cristais incrustados, suspensos, um pouco mais adentro do suporte possam receber luz e assim se sensibilizarem.
3- Que permitam ao revelador chegar até esses cristais, que sejam permeáveis ao revelador e assim deixem que este revele a maior quantidade possível de cristais que foram sensibilizados pela luz.

O colódio é uma espécie de xarope e forma uma camada relativamente espessa sobre o papel. É um líquido viscoso e muito volátil, obtido pela diluição de nitrocelulose em éter e alcool. Descoberto apenas em 1846 e portanto o seu uso em fotografia foi até uma descoberta bem rápida.

O grande problema com o colódio é que ele precisa receber os sais de prata, ser exposto e revelado ainda úmido. Isso obriga o fotógrafo, quando em trabalhos externos, a levar além de sua câmera, placas, lentes, tripés, etc, que já não eram leves, também um laboratório completo para sensibilizar e processar as placas in loco.

Apesar dessa enorme dificuldade operacional, o colódio foi adotado como processo praticamente hegemônico desde sua invenção até o final dos anos 1870, quando as novas placas, agora secas, usando a gelatina como base, o substituíram.

O grande trunfo do colódio, que fez com que os fotógrafos se curvassem a carregar o laboratório junto com eles, foi que além das vantagens já citadas, ele era mais sensível que os processos conhecidos até então. Por exemplo, em um estúdio bem iluminado, com teto de vidro e grandes janelas, como o da ilustração acima, usando uma lente de Petzval com f/3.6 a f/4, um retrato podia ser feito entre 3 e 15s, um daguerreótipo pediria algo entre 5 e 40 segundos, um calótipo 1 a 3 minutos. Uma cena externa em um dia claro, com f/22, algo entre 1 e 5 segundos eram suficientes. O colódio tinha um ISO equivalente a 0,5 a 3 e isso já era uma maravilha.

Este é o laboratório móvel o qual o fotógrafo inglês Roger Fenton fez a cobertura da guerra da Criméia em 1855 utilizando a última palavra em tecnologia: as placas úmidas.

Etapas do processo

1

Preparar a placa: Uma placa de vidro é meticulosamente limpa (geralmente com álcool e giz/carbonato de cálcio) para ficar quimicamente impecável, pois qualquer poeira ou gordura causará falhas visíveis.

2

Aplicar o colódio: A solução viscosa chamada “colódio salgado” (nitrocelulose dissolvida em éter e álcool, contendo sais de iodeto e brometo) é derramada no centro do vidro. A placa é inclinada habilmente para que o colódio flua uniformemente para todos os cantos, e o excesso é removido.

3

Sensibilizar no banho de prata: Enquanto o colódio ainda está pegajoso (não completamente seco), a placa é submersa em um banho à prova de luz de nitrato de prata. Os sais no colódio reagem com a prata, criando iodeto de prata e brometo de prata fotossensíveis dentro da camada de colódio. Isso leva de 3 a 5 minutos.

4

Carregar e expor: Na câmara escura, a placa agora fotossensível e molhada é carregada em um chassis à prova de luz. O chassis é levado para a câmera, a lâmina de proteção é removida e a exposição é feita.

5

Revelar a imagem: A placa é imediatamente levada ao laboratório. Um revelador (geralmente uma solução ácida de sulfato ferroso) é derramado rápida e uniformemente sobre sua superfície. A imagem latente aparece quase que instantaneamente. Quando a imagem é considerada totalmente revelada (questão de segundos), a reação química é interrompida lavando-se imediatamente a placa com água.

6

Fixar a imagem: A placa é submersa em um fixador, uma solução de tiossulfato de sódio ou “hipo”. Este produto químico dissolve todos os haletos de prata não expostos e não revelados, tornando a imagem permanente e não mais sensível à luz.

7

Lavagem e secagem finais: A placa é lavada completamente em água limpa para remover todo o fixador residual, que de outra forma mancharia e destruiria a imagem com o tempo. A placa é geralmente mantida sobre uma chama suave (como uma lâmpada a álcool) para aquecê-la e permitir que a água evapore, ou é deixada em um suporte livre de poeira para secar ao ar. Neste ponto, trata-se de um negativo de vidro finalizado (embora extremamente frágil e quase sempre envernizado posteriormente para proteção).

Futuro brilhante

Desde a publicação do método em março de 1851 na revista inglesa “The Chemist”, suas vantagens foram logo notadas e o colódio foi ampla e imediatamente adotado pelo mundo todo. Interessante dizer que seu criador, Frederick Scott Archer, não patenteou e não auferiu nenhuma vantagem especial com sua invenção, deixando-a totalmente livre para quem a quisesse usar.

O colódio foi muito importante de um modo geral na fotografia, mas foi fundamental para a verdadeira febre pelos pequenos retratos chamados carte de visite que seguiu até os anos 1880. Estúdios enormes, empregando até 200 pessoas, espalharam-se pelas maiores capitais.

Abaixo, uma Carte de Visite do estúdio do fotógrafo que foi seu inventor André Adolphe Eugène Disdéri. Disdéri patenteou o método para se obter os negativos de colódio usando uma câmera que podia fazer várias imagens em uma única placa e até detalhes de como montar em cartões fazia parte de seu método. Além da patente, ele teve seu próprio estúdio e ficou muito rico e famoso. Ironicamente Archer morreu na pobreza em 1857.

Se você está no circuito temático Processos Fotográficos:

A placa úmida foi fundamental por finalmente produzir negativos ricos e brilhantes. Mas seu potencial só pode ser plenamente desenvolvido graças a um novo método de impressão das cópias em papel: a impressão por contato com papel albuminado.

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