Rapid-Rectilinear | John Henry Dallmeyer

Como que o alemão John Henry Dallmeyer foi para Londres e tornou-se um dos nomes mais respeitados da indústria óptica no mundo todo, é algo que eu já contei no artigo sobre a Triplet Achromatic. No caso da Rapid-Rectilinear, o foco será em como que ele chegou no desenho de uma das lentes mais influentes no desenvolvimento das objetivas fotográficas. Depois da famosa lente para retratos de Petzval, a Rapid-Rectilinear foi o próximo grande salto que possibilitou enorme desenvolvimento no setor.
A razão dela ser tão importante é que foi a primeira lente de uso geral. Ela apresentava uma abertura média. Não chegava a ser tão aberta como uma Petzval para retratos, que chegava a f/3.6, mas também não era tão fechada como as lentes para paisagens, que ficavam no máximo em f/11 para focar, mas para fotografar mesmo precisavam ser fechadas bem além disso. A abertura da Rapid-Rectilinear era em torno de f/8.
Outro ponto importante para ser uma lente de uso geral, é que ela tinha um ângulo de visão de 50 a 60º. Nem tanto quando as lentes para paisagens mas bem mais que as lentes para retratos.
Estas duas características, abertura e ângulo de visão médios, somadas ao fato de que a lente não produzia distorções, permitiu que câmeras fossem construídas com uma lente fixa. Com uma lente fixa ela podia dispensar o vidro despolido e enquadrar por um visor externo, com o foco feito por estimativa, ou seja podiam ser usadas sem tripé. Isto abriu espaço para fotos instantâneas. Em especial quando surgiram as placas secas que eram bem mais sensíveis que o colódio. Foi uma lente revolucionária. Licenciada e copiada por todos os fabricantes e dominou o mercado de ópticas mais sofisticadas até que surgissem as lentes anastigmáticas na década de 1890.

O desenho de base consiste em dois dubletos colados e iguais. Entre os dois fica um diafragma que no início era do tipo Waterhouse e mais tarde uma iris.


Esta RR veio com um jogo completo e original e com o simpático estojinho em couro. Isso é raro com essas lentes. Não há margem para dúvidas pois o número de série da lente está gravado também em um dos Waterhouses do jogo. Este número de série, de acordo com arquivos da Dallmeyer, indica que esta lente foi fabricada entre 1884 e 1888.

De acordo com esta tabela no Traité Encyclopedique de Photographie Tomo I, de 1889, de Charles Fabre, a lente da coleção é a 44 mm (diâmetro da lente). Então ela tem 329 mm de distância focal e faz um quadro de 215 x 164 mm. O jogo de Waterhouses vai de f/8 a f/32 (arredondados).

No corpo da lente está gravado o formato 8½ x 6½, em polegadas, isto corrobora a tabela de Fabre. É portanto uma lente para o que se chamava de placa inteira no Imperial System no século XIX. Hoje eu a utilizo no formato 13×18 cm.
Polêmica com Steinheil
No mesmo ano de 1866, em Munique, foi lançada uma lente com o mesmo conceito de dois dubletos acromáticos iguais e simétricos. Desenhada por Hugo Adolph Steinheil ela foi chamada de Aplanat. Ao saber da Rapid Rectilinear, Steinheil imediatamente acusou Dallmeyer de ter pirateado seu desenho e que o lançamento da Rapid Rectilinear como sendo criação de Dallmeyer era uma usurpação.
É até compreensível que Steinheil não pensaria de outra forma pois no seu caso o desenho da Aplanat foi um projeto de anos. Ele esteve em colaboração com seu amigo, o matemático Ludwig von Seidel, da Universidade de Munique. Eles usaram um novo formalismo para tratar de aberrações em sistemas ópticos que havia sido recentemente desenvolvido por Seidel. Quando alguém faz um caminho muito difícil e tortuoso para resolver um problema, começa a acreditar que alguém mais tenha percorrido o mesmo trajeto.
Hoje, admite-se que foi uma coincidência. Além das questões históricas e documentais, há uma alta probabilidade de que tenha sido este o caso, pois os estilos e métodos de Steinheil e Dallmeyer eram completamente opostos e ilustrativos de duas correntes dentro do trabalho científico. Se Steinheil era totalmente analítico e matemático, Dallmeyer, formado por Andrew Ross era muito mais pela abordagem empírica. Steinheil, apenas depois de se convencer de seu desenho nas fórmulas é que deve ter testado sua lente em protótipos. Dallmeyer partiu de sua Triplet e deve ter usado sua experiência e intuição para aperfeiçoar o desenho mais na oficina que na matemática. Pode-se dizer que, cada um por um lado, os dois chegaram ao cume da mesma montanha.
