Bergheil | Voigtlander

A Voigtlander Bergheil é frequentemente considerada o auge da era das “câmeras dobráveis de placa”, folding plate cameras. Eram câmeras com essa frente que parece uma ponte levadiça que se abre para que a objetiva avance extendendo o fole. Existiram dúzias, talvez centenas, de câmeras com essa configuração, mas a Bergheil foi algo especial.
Produzida aproximadamente entre 1912 e 1940, era o modelo carro-chefe da Voigtländer. Seu conceito referia-se ao imaginário dos fotógrafos de montanha, daí o nome “Bergheil”, uma saudação tradicional dos alpinistas que significa “Saudações à montanha”, pois berg é montanha no alemão.
Nos anos 20 e 30, o “alpinismo” era o símbolo máximo de saúde, coragem e domínio técnico na cultura de língua alemã. Mas apesar do nome, ao batizá-la de Bergheil, a Voigtländer não visava apenas as poucas pessoas que escalavam montanhas; ela vendia uma “confiabilidade robusta” e “precisão”. A referência era um modo inteligente de ressaltar seu tamanho reduzido e os muitos recursos que oferecia.

Era uma câmera concebida primariamente para utilização com placas de vidro. Existiam adaptadores para filme 120 ou pelo menos para filme flexível em chapas, mas o uso principal era com chapas de vidro. Considerando-se a praticidade do filme flexível, é um espanto que até o final da década de 1930 ainda fosse tão forte a presença do vidro como suporte para a fotografia.

Mas mesmo depois de quase 40 anos de existência dos filmes em rolo em diversos formatos, as câmeras que os utilizavam ficaram marcadas como câmeras para o fotógrafo amador e sem qualquer ambição técnica ou estética. A Bergheil era uma “mini” grande câmera com a qual o profissional, ou amador dedicado, diferenciavam-se e posicionavam-se nas trincheiras da grande arte, longe dos simples “apertadores de botão”.
Foi produzida nos formatos 9 x 12 cm e 6,5 x 9 cm. Este último é mais interessante pois o mercado de 9 x 12 cm oferecia opções com especificações semelhantes — como a ICA Ideal e a Zeiss Juwel oferecendo perfeição industrial —, mas a Bergheil de 6,5 x 9 cm conquistou um espaço único. Ela oferecia a experiência completa de movimentos profissionais em um formato que parecia pessoal, ágil e discreto.
Bergheil versão Luxo
Muito procurada hoje por colecionadores a versão Luxo é revestida com couro marroquino verde fino e fole também verde. Era um símbolo de status na década de 1920. Em termos práticos, toda a mecânica e óptica são as mesmas na versão com couro preto que era a versão standard. A versão preta acabou sendo a preferida por profissionais por ter um custo mais acessível e ser mais durável e fácil de manter. Muitas Bergheil de Luxo hoje apresentam um verde até difícil de se notar, pois com o tempo perderam a cor. Mas ainda é a desejável versão Bergheil de Luxo.
Características
1- Lentes intercambiáveis

A montagem de lente com baioneta é a sua característica técnica mais distintiva. Ao contrário da maioria das câmaras de placa, em que a lente é fixa, a Bergheil utilizava um sistema baioneta proprietário. Isso permitia aos fotógrafos escolher entre diferentes ópticas (como uma grande angular ou uma Heliar mais longa) conforme o assunto a fotografar. Hoje não chega a ser uma grande vantagem pois essas lentes extras são muito difíceis de se encontrar.
2- Fole extensão dupla

Como consequência lógica das lentes intercambiáveis o fole da Bergheil permite uma variação extra. Ele pode se estender o suficiente para permitir fotografia macro 1:1, uma capacidade rara para uma câmera portátil da época e interessante mesmo para quem não iria utilizar uma lente mais longa. Eu evito fazer esse alongamento pois a câmera já está perto dos cem anos e o fole, que vive encolhido, pode estranhar. Mas ele pode avançar mais do que o dobro do que se vê na foto acima.
3- Movimentos

A Bergueil permite elevação e descida da placa da lente para corrigir a perspectiva (perfeito para fotografar montanhas, arvores ou edifícios altos sem “inclinar” a câmera). Isso é até comum em câmeras do tipo folding plate, mas o que é mais raro é o deslocamento transversal: mover a lente para a esquerda ou para a direita. Pode parecer um movimento raro de se usar mas o movimento lateral, no caso de uma fotografia no formato paisagem, acaba se comportando como um sobe/desce front raise/fall e as linhas verticais permanecem verticais mesmo nesse formato horizontal.
Na Bergheil, os dois movimentos são obtidos de forma precisa e elegante atuando-se sobre os botões que, na foto acima, aparecem embaixo à esquerda do obturador. O mais saliente atua no deslocamento horizontal e o mais interno no vertical.
Para garantir a precisão nos dois casos, a Bergheil dispõe de dois níveis de bolha muito precisos pois são fixos. Um deles fica no botão que faz o deslocamento horizontal da lente e o outro no botão que faz o foco no lado esquerdo. Pode-se notar a coloração vermelha nos dois casos na foto acima.
A maioria dos modelos da categoria vinham com um nível de bolha giratório e isso quase sempre implicava em alguma perda de precisão. Com dois níveis de bolha fixos, qualquer que seja o enquadramento, paisagem ou retrato, pode-se garantir que o horizonte estará perfeitamente plano — vital para uma a precisão “renascentista” na fotografia.
4- A Heliar

A Bergheil é inseparável da lente Voigtländer Heliar. Criada por Hans Harting em 1900, a Heliar tem um design de 5 elementos (ao contrário da Tessar de 4 elementos). A renderização é mundialmente conhecida pela sua transição “cremosa” entre áreas nítidas e desfocadas. Enquanto uma Zeiss Tessar é “criticamente nítida”, a Heliar é “artisticamente nítida”. Era a lente preferida para retratos e paisagens porque não tinha o contraste duro e clínico das lentes industriais posteriores.
5- Obturador

A Bergheil da coleção foi fabricada em 1928 e já possui um obturador Compur tipo rim set, relativo ao anel no qual as velocidades são marcadas. Os anteriores eram do tipo dial set e apresentavam um pequeno disco no topo da lente. A transição aconteceu mais para o final dos anos 1920. As velocidades são T, B e de 1 s até 1/200 s.
6- Foco e enquadramento

Foco e enquadramento podem ser feitos, como em uma view camera, através do vidro despolido em sua traseira. O suporte deste vidro, com as habituais abas protetoras da luz, precisa ser removido e o chassis, plate holder, precisa ser inserido no local deslizando-os pelas trilhos como mostra a foto acima.
Além disso a câmera dispõe também de um visor espelhado giratório, que é prático mas oferece uma imagem bem pequena, e ainda o visor esportivo de arame. Nesses dois casos o foco deve ser feito por estimativa da distância e ajuste pela escala na base da câmera.
Fotos feitas com a Bergheil







Prezado Wagner,
Aqui e o Eduardo Marques. Moro nos EUA e sou seu leitor e admirador fotografico. Sou tambem fotografo e colecionador e curto muito seus artigos.
Um grande abraco e parabens pelo site e artigos riquissimos que voce publica.
Eduardo
Obrigado Eduardo, agora já vou dar uma prioridade para escrever o artigo sobre a Bergheil. Essa câmera é uma delícia de se usar e a Heliar manda muito bem!!