Placas Secas | Richard Maddox

Se em 1850/51 o par negativo de colódio e positivo de papel albuminado desencadeou uma avalanche de fotógrafos profissionais realizando milhões de cartes de visite para um público extasiado com sua própria imagem, foi em 1871 que começou a se desenhar a nova avalanche fotográfica que chegaria na virada para o século XX, porém, desta vez foi uma avalanche de fotógrafos amadores.

Richard Leach Maddox era um médico inglês especializado em fotomicrofotografia. Suas imagens de algas, insetos e bactérias eram mundialmente reconhecidas pela comunidade científica. A técnica envolvia o emprego de microscópios e placa úmida. O problema é que os vapores do éter e álcool empregados na preparação do colódio começaram a deteriorar sua saúde e ele então decidiu investigar substitutos menos agressivos para utilização como meio de suspensão dos haletos de prata.

fonte: microscopist.net
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Em 1871 sua saúde estava tão mal quanto ele estava próximo de encontrar o que procurava. Mas sentindo que teria que reduzir sua carga de trabalho, ele decidiu publicar o que já havia encontrado e deixar para que outros aperfeiçoassem o seu método. Ele não vendeu a ideia, não patenteou sua descoberta, simplesmente publicou um artigo no British Journal of Photography explicando o estágio de suas pesquisas.
Em seu livro Photography Essays & Images, Beaumont Newhall publicou a íntegra do artigo de Maddox. Reproduzo aqui seu último parágrafo: “Como não haverá chance de que eu seja capaz de continuar com estes experimentos, eles são aqui colocados em seu estado bruto para os leitores deste jornal e poderão receber correções e melhorias de mais hábeis mãos. Até onde pode-se julgar o processo parece merecer experimentos mais cuidadosamente conduzidos e se provar-se vantajoso, adicionar outra mão na roda dos fotógrafos.”
Do artesanal ao industrial
Todos os processos anteriores, desde o próprio daguerreótipo, utilizavam o suporte da prata metálica, ou do papel ou da fina camada de colódio sobre o vidro, e este suporte era banhado em uma solução de nitrato de prata, insensível à luz, e mais alguma outra solução contendo algum composto com bromo, cloro ou iodo, para que estes roubassem alguns átomos de prata do nitrato e formassem sobre a superfície os esperados e desejados cristais sensíveis à luz.
Essa configuração física não permitia um controle daquilo que estaria ocorrendo quimicamente. Os compostos eram conhecidos em suas reações e massas atômicas, portanto sabiam quantos gramas de nitrato de prata seriam necessários para reagir com quantos gramas de brometo de potássio, por exemplo, para formar quantos gramas de brometo de prata, o haleto sensível à luz. Mas o método dos banhos não permitia esse controle.
No caso da gelatina, a abordagem é completamente diferente. A precipitação dos cristais sensíveis não é feita na superfície do suporte, metal, vidro ou papel, é feita em um recipiente de laboratório e mais tarde industrial. É um sistema fechado. A emulsão é preparada, calibrada para que algo muito próximo de 100% da prata contida na forma de nitrato de prata seja convertida em haletos de prata potencialmente sensíveis à luz. Sem entrar em muito da química do processo, basta saber que é justamente a concentração final de íons de prata na emulsão que irá determinar a sensibilidade, a velocidade da mesma.
Foi este controle e previsibilidade que permitiu a mudança de um sistema artesanal para o industrial na fotografia. Esta emulsão, pronta, é então aplicada sobre qualquer suporte inerte como o vidro, papel e mais tarde o filme. O processo todo é mensurável e se for repetido igual, dará os mesmos resultados.

Foi essa nova abordagem que permitiu a industrialização das chapas fotográficas. Desde sua invenção a fotografia fora uma atividade na qual a câmera era apenas um dos instrumentos em meio a uma parafernália que envolvia muitos outros aparelhos de laboratório e processos químicos de preparação e revelação/impressão das fotos. O grau de implicação do fotógrafo era muito alto em grande diversidade de habilidades e conhecimentos. Em seus primeiros 50 anos a prática da fotografia ficou restrita a profissionais e amadores que além de muito dedicados precisavam também dispor de muito espaço, tempo e dinheiro.
O processo das placas secas
Em linhas gerais a produção das placas secas como descrita por Maddox em seu artigo de 1871 compreendia os seguintes passos. As unidades foram convertidas para o sistema métrico e arredondadas:
1- Preparação da gelatina
Lava-se a 2g de gelatina em água gelada e deixa-se que ela absorva água por várias horas drenando o excesso em seguida.
2- Gelatina é aquecida para que derreta
Passa-se a gelatina a um recipiente de boca larga, em banho maria aquecido para que a gelatina se dissolva, e adiciona-se 14ml de água e duas gotas de acqua regia (uma mistura de ácido nítrico concentrado e ácido clorídrico concentrado). O ácido tinha o papel de quebrar parcialmente a gelatina para que depois esta pudesse se espalhar mais facilmente. Mas esse procedimento foi abandonado em fórmulas posteriores.
3- Adição do bromo
Meio grama de brometo de cádmio dissolvido em 1,7 ml de água é adicionado à gelatina e gentilmente agitados. Este composto é altamente nocivo à saúde, como seu papel é apenas o de doar o bromo, foi mais tarde substituído pelo brometo de potássio que em condições normais de trabalho não oferece perigo.
4- Solução de nitrato de prata
Um grama de nitrato de prata é dissolvido em 1,7ml de água em um tubo de ensaio.
5- Precipitação
Os dois recipientes são levados para um local escuro e a solução de nitrato de prata é lentamente adicionada à gelatina enquanto a mistura é agitada o tempo todo.
6- Cobrindo as placas
A emulsão produzida tem uma aparência leitosa e é deixada para descansar um pouco. A seguir, placas limpas de vidro são colocadas sobre uma chapa metálica aquecida, o líquido é derramado sobre elas, espalhado com um bastão de vidro para cobrir toda sua extensão e as placas são deixadas para gelificação e secagem.
Resultados
Maddox expôs as placas por contato com vários negativos e reporta em seu artigo que elas, logo após a exposição, não mostravam imagem alguma, mas que banhadas em ácido pirogálico, um agente revelador, mostravam uma imagem “muito delicada em detalhes com cor variando do bege ao oliva, depois de lavadas e secas apresentavam uma superfície brilhante”.
O que ele tinha neste ponto não era algo operacional, nem para contato e menos ainda para a câmera. Mas este artigo animou outros pesquisadores a tentarem este caminho de preparar a emulsão com gelatina em um sistema controlado e independente do suporte a que será aplicada.
O que faltava a Maddox era basicamente livrar-se do sub-produto da precipitação. Não é difícil de se entender. Aqui vai uma versão bem simplificada mas que serve como introdução aos conceitos básicos:
1- Ele começava com dois reagentes adicionados à gelatina sendo que nenhum deles é sensível à luz:
Brometo de Cádmio + Nitrato de Prata.
2- Os primeiros se combinavam e formavam outros dois:
Brometo de Prata + Nitrato de Cádmio
Pode-se perceber que houve uma troca. O Nitrato estava com a Prata e ao final está com o Cádmio. A Prata estava com o Nitrato e ao final está com o Bromo. Agora sim, o Brometo de Prata, esse é sensível à luz e se exposto e revelado irá formar prata metálica, irá escurecer na gelatina.
O nome dessa etapa do preparo é precipitação. Mas precipitar não é cair? Jogar-se de cima para baixo? Justamente, esse nome vem do fato de que o Brometo de Prata é pouquíssimo solúvel ele forma cristais que por serem mais densos que a água: precipitam-se para o fundo do recipiente. É aí que entra a gelatina, ela é inerte, não reage, mas forma um meio espesso o bastante para manter os cristais de brometo de prata em suspensão. Forma-se um meio onde esses pequenos cristais, da ordem de 0,1 micron, na fórmula de Maddox, ficam flutuando em uma massa homogênea. Pronta para depois ser aplicada em um suporte como vidro, papel e mais tarde o filme.
Se não fosse a gelatina, todos os cristais iriam formar uma tênue camada no fundo do recipiente e não seria possível distribuí-los uniformemente sobre uma superfície. Note que no papel salgado ou calótipo, feito com Cloreto e Iodeto de Prata, que são também cristais, esse problema não existe pois o próprio papel se encarrega, com suas fibras de segurar esses cristais espalhados homogeneamente por sua superfície. À sua maneira, o colódio também cumpre esse papel.
Até aí Maddox estava 100% na direção certa. O problema é que o Nitrato de Cádmio, que também se formou na troca, causa dois sérios problemas se for deixado na gelatina. Primeiro ele é higroscópico e absorvendo água compromete a estabilidade da emulsão que nunca irá secar totalmente. Segundo, ele é um restritor para a ação do revelador, reduzindo assim a sensibilidade da emulsão que não poderá se revelar plenamente. Por isso era preciso de encontrar um meio de elimina-lo.
Mas não era muito evidente como se livrar do sub-produto da precipitação. O passo decisivo foi o procedimento sugerido por Richard Kennett em 1874. Como os haletos de prata são praticamente insolúveis, mas os nitratos são solúveis, havia aí uma pista de se lavar a gelatina para que a água arrastasse a parte indesejada, a parte solúvel. A gelatina tem a característica de inchar e deixar a água penetrar em suas estruturas, mas isso tem um limite superficial. O método de Kennett foi o de picar, fatiar ou por outro método qualquer transforma o bloco de gelatina em pedaços pequenos e lavá-la com água fria até que todo o nitrato de x, y ou z seja removido. Esse ainda é o método utilizado até hoje.
Outra e decisiva contribuição veio de Charles Bennett em 1878. Ele descobriu que aquecendo-se a emulsão e mantendo-a aquecida por um certo tempo, os cristais menores (que são mais solúveis) dissolvem-se, e sua massa é redepositada sobre os cristais maiores, fazendo-os crescer. Isso aumenta consideravelmente a sensibilidade da emulsão.
Com estas duas contribuições, a lavagem e a maturação, a emulsão com gelatina de prata tornou-se absolutamente viável e em muitos aspectos bem superior ao colódio que era o processo que dominava naquele momento.
Desenvolvimentos posteriores
Como se diz, a partir deste ponto, o resto é história. As vantagens da placa seca de gelatina de prata foram imediatamente percebidas e muitas firmas começaram a produzir e oferece-las prontas para uso nos mais diferentes formatos. Em processo industrial, ou mesmo um processo artesanal mais sofisticado, empregam-se vários aditivos e detalhes que melhoram a performance e características da emulsão, mas foi esse início com Maddox, Kennett e Bennett que abriu as portas para mais uma revolução no fotografar.
Pode-se imaginar, com todos os processos anteriores, como a fotografia devia parecer algo complicado, trabalhoso e com enorme barreira de entrada, pois os primeiros passos eram fatalmente frustrantes até que se pegasse o jeito da coisa. Com as emulsões de gelatina de prata esse muro alto se desintegrou como que por encanto. A partir da década de 1880, bastava uma câmera, algumas banheiras e poucos banhos, que também já eram vendidos prontos, e qualquer um podia se fazer fotógrafo. Foi o primeira grande onda da fotografia amadora.
Alexander Black, além de ter sido um escritor muito popular nos Estados Unidos, no final do século XIX, era também um entusiasta da fotografia. Em um artigo publicado em 1887 com o título O Fotógrafo Amador, ele deu bem a medida do que estava acontecendo:
Existiam, de fato, amadores fazendo placas-úmidas, e existem hoje alguns que seguem o exemplo de muitos profissionais aderindo ao velho método. Mas fotografia amadora hoje, praticamente significa fotografia de placas-secas. Foi o amador que deu as boas vindas à placa-seca, a um tempo em que o profissional mostrava apenas uma cautelosa tolerância. Por que, o amador lhe deu as boas vindas, é algo que dispensa qualquer explicação.
Este pequeno e contundente parágrafo também dispensa qualquer explicação adicional. Mas é interessante que ele também anuncia uma cisão que estava por acontecer na fotografia. A “cautelosa tolerância” com que profissionais receberam as placas secas já antecipa o conflito de interesses que a nova tecnologia, que, para se usar um termo em moda, podemos chamar de inclusiva, iria promover na fotografia. A dificuldade dos processos fotográficos era também uma proteção do mercado de trabalho profissional. A reação à placa seca guarda nesse ponto alguma semelhança com a recepção que muitos profissionais deram ao telefone celular. O artigo completo de Alexander Black está no livro Photography Essays & Images de Beaumont Newhall.
Que fim levou Maddox?
Esta é uma das muitas ironias na história da fotografia. Maddox, que não podia mais trabalhar por sua condição de saúde, foi esquecido e levado a uma condição de penúria financeira muito acentuada. Enquanto isso, já nos anos 1880, algo entre 20 a 30 firmas passaram a produzir e comercializar placas secas apenas em UK, nos Estados Unidos, nasceram pelo menos uma dúzia de empreendimentos já com algum porte. Nas França e Alemanha também surgiram várias marcas locais. Fortunas se formavam, graças a algo que ele iniciou, enquanto que ele próprio vivia à beira da miséria.
Felizmente, um fotógrafo famoso chamado Andrew Pringle, em 1890, compadecido com um fim tão triste para alguém que ajudou tanto na fotografia, lançou uma campanha de salvamento, foi o Maddox Testemonial Fund. Com isso conseguiu prover uma modesta pensão e uma condição de vida decente para os últimos anos de Maddox que morreu em 1902.

Curiosidade: Entre os muitos possíveis processos fotográficos artesanais que se pode fazer hoje em dia, a placa seca é uma opção muito interessante e talvez não muito difundida. Esta placa acima eu fiz para fotografar com uma pequena câmera 6,5 x 9 cm chamada Patent-Etui.


Se você está no circuito temático Processos Fotográficos:
Chegamos ao fim do circuito temático dos processos fotográficos com foco na utilização da prata. As emulsões de gelatina, que começaram com as placas secas, foram uma espécie de auge da fotografia analógica. Iriam logo migrar para os filmes flexíveis e também papéis. Seriam sinônimo de “fotografia” por todo o século XX.