Jiro Asada | Eles
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Quero propor um jogo a você. Não leia este texto antes de olhar longamente para as fotos da exposição. Imagine antes o que elas contam sobre o fotógrafo e as circunstâncias em que foram produzidas. Só depois leia o que eu arrisquei dizer sobre elas e, se quiser, comente que impressão elas lhe causaram. A ideia é testar se o conjunto das imagens carregam algo objetivo, algo capaz de correlacionar os sentimentos de pessoas diferentes. É só rolar a tela para baixo e você poderá ler que sentimentos, impressões e associações elas produziram em mim. Será que foi semelhante com você? O que as imagens contam?
Eu tive acesso ao Instagram de Jiro Asada por indicação de um amigo meu, Jairo Casoy que é fotógrafo e por muitos anos foi professor de fotografia. Mas sobre o fotógrafo, Jairo me disse apenas que é muito jovem e que mora no Japão. Muitas das fotos publicadas têm uma estética realmente muito em voga na geração mais jovem, com o mundo se dissolvendo em exposições prolongadas, tremidas e retratos evanescentes em expressões teatrais. Veja no Instagram Jiro Asada.
Mas no meio destas imagens encontrei também algumas que me deixaram mais intrigado. Em um primeiro momento poderia colocá-las na tradição de “street photography”, pois são de fato fotos de rua. Fotos roubadas sem que os fotografados se dêem conta de que foram capturados. Porém, a tradição mais popular da street photography aponta mais para a garimpagem de bizarrices e/ou a parte insólita do cotidiano que sob suas lentes pode chegar ao ridículo. É o que vemos em Buce Gilden ou, de modo mais fino, em Martin Parr. Eles nos convidam ao sarcasmo com relação a seus personagens e nos incitam a um certo sentimento de superioridade em relação a eles.
Passando as fotos no Instagram fui notando um grupo que embora no ambiente de rua não tinham nada dessa vertente da sátira. São as fotos que selecionei para esta exposição. Elas me dão a impressão de uma enorme curiosidade de Jiro Asada em relação ao mundo. Não há julgamento nem estranhamento, parece mais uma vontade de entender, de conviver com seus personagens comuns através da fotografia. Em muitas delas o enquadramento com alguns elementos em primeiro plano dá a impressão de que Jiro as espiava de longe.
As pessoas não são feias nem bonitas e nem bizarras em nenhum sentido. Muitas aparecem trabalhando, ou se divertindo mas compenetradas naquilo que estão fazendo e alheias à atenção e ato do fotógrafo.
Também não são usadas, como se faz tantas vezes em street photography, como meros elementos da composição, contracenando com grafismos ou arquiteturas, apenas como elemento de ruptura, como elemento humano em meio à fria ordem urbana. Não estão lá apenas para dar a noção de grandeza dos elementos arquitetônicos ou evidenciar o “olho” privilegiado do fotógrafo capaz de achar pérolas onde outros não veriam nada.
Outra questão é o uso do monocromático. Por ser um elemento anti-naturalista, já que o mundo de verdade é colorido, render a cena em apenas claros e escuros introduz um afastamento que informa mas bloqueia uma imersão mais completa. Fica como se o desejo de aproximação tivesse ao mesmo tempo um limite: perto mas nem tanto. O pesado histórico de imagens em preto e branco que foi a tônica na história toda da fotografia até os anos 1950 também ajuda a situar fotos monocromáticas como que em um passado, um outro tempo que não é o nosso. Em mim o resultado é que as imagens remetem a uma leitura atemporal, a uma ideia de essência das coisas.
Depois de algumas tentativas sem resposta consegui finalmente trocar algumas mensagens com Jiro e descobri um quase nada a mais do que já sabia. Ele fez 22 anos neste mês de Junho/2026. Começou a fotografar com 19/20 anos, considera-se fotógrafo amador e não se vê ainda orientando-se a adotar a fotografia de modo profissional ou como sua fonte de renda.
Jiro é de ascendência japonesa e filipina. Viveu nas Filipinas até 2022 quando mudou-se para o Japão. Desde criança brincou com câmeras da família mas foi a partir dessa mudança para o Japão que a fotografia passou a ser uma atividade em si, parte da sua vida. Frequentemente sai de casa para fotografar e é daí que temos essa produção de flâneur deslizando pelas ruas de Nagoya.
É muito tentador ver a fotografia que Jiro Asada começou a fazer depois de sua chegada a um país familiar, e estranho ao mesmo tempo, como instrumento de conciliação. Sem crítica ou elogio, suas imagens buscam uma aproximação. É fácil se imaginar um desejo de absorver e ser absorvido por um novo ambiente que é seu e estrangeiro ao mesmo tempo.
Essas interpretações psicológicas da produção de um determinado artista são sempre arriscadas se cobrarmos delas provas de veracidade. Não há como saber. Mas, na qualidade de “público”, somos autorizados a imaginar o que bem quisermos e podemos fruir qualquer fato ou fantasia que se construa a partir da produção de qualquer artista. Invariavelmente, construímos aquelas que nos são caras.
O que importa, o que me faz dar valor ao trabalho do artista, é que sua obra permita esse tipo de voo livre para territórios que são ricos de associações a visões e sentimentos que o público, em algum momento também experimenta ou experimentou, mas não sabe, como o artista, dar forma e substância. Grato ao Jiro por compartilhar suas fotos.
Wagner Lungov



















