Désiré Lebrun | Chambre à tiroir

Esta câmera, construída entre 1851 e 1853 em Paris, por Désiré Lebrun, segue o modelo das primeiras câmeras comercializadas para fotografia. O que mais a identifica como realmente primeira geração, é a ausência de fole pois ela pertence à categoria das Chambre à tiroir que seria Câmera de gaveta, em uma tradução livre para o português. Em inglês a categoria é conhecida por Sliding box, que seria Caixa deslizante.

É um conceito muito simples que usa uma caixa deslizando dentro da outra para variar a distância da lente à placa e assim realizar o foco, sem permitir a entrada de luz dentro da câmera. Depois de travar a posição da “caixa deslizante”, através de uma rosca na base da câmera, é ainda possível se utilizar um ajuste fino na cremalheira presente na lente. Se você não entende bem como que as lentes focalizam as imagens, visite a página: distancia focal.
Interessante se notar que embora de construção muito simples e até vantajosa sobre o fole, que tende a se deteriorar com o tempo, as chambre à tiroir têm um inconveniente muito sério. Acontece que quando se deseja uma câmera que permita se trocar de lente, de uma com ângulo mais aberto para uma mais fechada, típico caso quando se vai de lente para paisagens para uma de retratos, é preciso se variar muito a distância da lente até a placa ou filme. O fole permite isso. Entre a distância mais curta e a mais longa, com a maior extensão do fole, podemos obter facilmente um fator x4, mas pela própria arquitetura rígida da caixa, no caso da chambre à tiroir, não é possível nem mesmo um fator x2 pois a caixa com placa ou filme sairá para fora da caixa com a lente.
Por este motivo simples e limitante, esse tipo de câmera tende a ser especializado e muitas vezes, como é o caso desta da coleção, já vem com uma lente fixa pois a caixa é desenhada para ela. Não há nem mesmo uma placa de lente (lens board) para permitir a troca á objetiva.

Esta câmera foi desenhada para realizar fotografias no formato 9 x12 cm, também conhecido como 1/4 de placa. É portanto uma câmera pequena e concebida especificamente para retratos, ao ponto em que não é possível se girar o quadro para uma tomada horizontal, que habitualmente chamamos de “paisagem”.
A câmera em si não tem nenhuma inscrição, nenhuma marca. Era muito comum naquela época o fabricante encomendar uma câmera genérica em alguma oficina de marcenaria, esta era vendida junto com a óptica e apenas nesta era gravado o nome do opticista.

Segundo Pont & Princelle (nº24), Lebrun foi ativo de 1847 a 1865. Era fabricante de instrumentos de precisão e com o advento da fotografia passou a projetar e fabricar também objetivas. Foi membro ativo na Société Française de Photographie (SFP)e em especial desenvolveu junto com o fabricante de peças em vidro, Louis-Joseph Maës (1815–1898), estabelecido em Clichy, nos arredores de Paris, objetivas enormes.
No periódico La Lumière há um artigo de 7 de abril de 1855 que relata experiências feitas pelo famoso fotógrafo André Adolphe-Eugène Disdéri em uma sessão da SFP. Ele realizou 4 retratos com uma lente assinada conjuntamente por Lebrun e Maës. Todos os presentes ficaram impressionados com a qualidade da imagem cujo tamanho chegava a 2/3 do tamanho natural. O incrível é que esta lente tinha um diâmetro de 10 pouces, que correspondem a 27 cm! Seria algo como um prato de jantar. Era uma lente do tipo à verres combinés, isto é, uma Petzval para retratos (os franceses não usavam o nome do inventor austríaco, Joseph Petzval). O artigo diz que o diafragma foi de 10 cm e o retratado estava a 3 metros de distância. Isto aponta para uma focal de 800 a 1000 mm.
Os opticistas parisienses fabricaram estas lentes gigantes, com placas de vidro de 10 polegadas, não para venda normal aos fotógrafos comerciais ou artistas, mas para demonstrar que as fábricas de vidro francesas (como a Saint-Gobain, Maës ou os sucessores da Guinand no setor do vidro ótico) eram capazes de moldar discos de vidro flint perfeitos, sem bolhas, com até 27 cm de diâmetro, sem tensão óptica. O que Lebrun e Maës estavam a apresentar em 7 de abril de 1855, era provavelmente uma avant première para a próxima Exposição Universal de Paris de 1855. Estas exposições eram, em plena Revolução Industrial, a grande arena onde as potências mediam forças quando à suas capacidades tecnológicas.
Apenas como curiosidade, abaixo está uma peça em vidro fabricada por Louis-Joseph Maës na década de 1850. É interessante notar como as pesquisas sobre a matéria vidro serviam naquela época tanto para acelerar o boom da indústria óptica fotográfica como para produzir peças artesanais com uma riqueza de detalhes impressionante, como é o caso deste peso para papéis.

Uma câmera para placa úmida

Esta câmera veio com dois chassis originais que são típicos das câmeras de colódio ou placa úmida, processo lançado em 1851 e que viria a dominar quase que totalmente a fotografia por 3 décadas. São chassis para uma única placa que se carrega por trás – como mostra a foto acima que mostra a traseira do mesmo. Pode-se notar também as manchas mais na parte inferior dos chassis. Essas são manchas da solução de nitrato de prata com a qual se banhava o vidro coberto de colódio no último instante precedendo a tomada da foto.

Outra marca inconfundível dos chassis para placa úmida são esses cantos que suspendem a placa para que não toque o chassis ao longo de toda a moldura. Esse foi um remédio para minimizar a contaminação tanto do chassis pela emulsão da placa como desta pelo chassis. Bem no início dos anos 1850, eram pequenos pedaços de madeira colados nos cantos (como na foto acima), depois veio uma fase em que eram entalhados na própria moldura do chassis e finalmente incrustados com materiais mais resistentes como marfim, guta percha ou prata. Essa progressão da forma e materiais empregados permite datar esta câmera com boa segurança entre 1851 e 1853.

No uso ela é muito simples. Basta enquadrar/focar sobre o despolido com o auxílio de um pano preto e possivelmente uma lupa. A seguir o despolido é retirado, insere-se o chassis e puxa-se o dark slide para descobrir a placa ou filme, como mostra a foto acima.
Como obturador utilizava-se simplesmente a tampa da lente e é interessante também se observar que lentes dessa época não tinham iris e nem diafragmas de inserir, conhecidos como Waterhouse stops, pois a sensibilidade dos materiais era tão baixa que invariavelmente utilizava-se a lente na sua abertura máxima.

