Block-Notes | Gaumont

O nome Gaumont hoje, remete diretamente ao cinema. Fundada em 1895 tornou-se rapidamente uma gigante do setor e existe até hoje como produtora e distribuidora de filmes e séries para cinema e televisão com muitos block-busters em seu catálogo com mais de 1500 filmes.

Léon Gaumont (1864–1946)

Seu fundador, o engenheiro Léon Gaumont, vindo de uma família pobre, quando jovem foi um aluno brilhante na área de exatas, mais tarde, profissionalmente, mostrou-se um visionário. Apostou na indústria nascente do cinema e rapidamente construiu toda a cadeia que ia da fabricação das filmadoras e projetores, passava pela produção dos filmes e chegava até a distribuição e exibição em extensa rede de salas de cinema próprias. A Gaumont foi a pioneira entre os grandes, à frente de outros estúdios, como Pathé (fundada em 1896), Titanus (1904), Nordisk Film (1906), Universal, Paramount e Nikkatsu (todas fundadas em 1912)

Gaumont Palace

Em 1911 Léon Gaumont compra o hipódromo da Place Clichy, em Paris, e transforma-o
num monumental cinema: o Gaumont-Palace, que será durante algum tempo o maior cinema do mundo, como se vê orgulhosamente exibido na fachada do prédio: “Gaumont Palace, le plus grand cinema du monde”.

A câmera Block-Notes

Com tanto sucesso e continuidade até os dias de hoje na indústria cinematográfica, é até natural que a fotografia seja hoje a face menos conhecida da Gaumont. Mas talvez até por sua atuação extremamente bem sucedida e lucrativa no circuito do cinema, algumas experimentações na área de câmeras fotográficas foram muito inovadoras, com alto nível de engenharia e também de muito sucesso no momento em que a fotografia se expandia pelo mercado amador.

A câmera Block-Notes foi lançada em 1902 e permaneceu em produção até 1920. É uma câmera toda em metal com o fole em couro. Quando fechada ela mede apenas 30 x 90 x 65 mm e produz negativos em placas de vidro no formato, miniatura para a época, de 4,5 x 6,0 cm.

As ópticas

Eram oferecidas várias opções para a lente como se vê no anúncio acima. A mais comum de se encontrar hoje é a Tessar, mas a melhor óptica na lista acima é provavelmente a Anastigmat Goerz que vem a ser uma Dagor. A Zeiss Protar é também excelente e trata-se de uma Protar IIIa segundo o catálogo da Gaumont de 1908. Chega a ser um pouco estranha essa escolha pois essa lente , por ter esta lente um ângulo de visão de 97º, muito maior que o necessário para o formato da câmera.

A Block-Notes da coleção tem uma Dagor. É uma lente que tem dois grupos simétricos com 3 elementos cada e uma abertura grande para a época em f/6.8. Isso justifica seu preço acima das demais: 220 francos. Este valor equivaleria a mais do que o salário mensal de um arquiteto parisiense. Era a «full-frame» da época — uma máquina em que o custo do vidro era quase igual ao do corpo, tudo para garantir que a imagem naquela placa de 4,5 x 6 cm fosse da mais alta qualidade possível.

As aberturas

A lente é tão pequena que não há iris. Ela oferece apenas duas aberturas que são selecionadas por dentro da câmera por uma placa deslizante como se vê na foto abaixo.

Não há ajuste de foco. A lente é montada na distância hiperfocal. Nesse caso, com a abertura máxima de f/6.8, tudo de 6 metros até infinito estará em foco, segundo o manual da câmera . É preciso notar que para isso estavam considerando um círculo de confusão bem generoso, por volta de 0,1 mm. Isto faz sentido pois as fotos não eram muito ampliadas naquela época. Com frequência eram impressas apenas por contato. Além disso era comum que se utilizassem lentes de aproximação para retratos e outros casos de curtas distâncias.

O obturador

Na foto acima a câmera está fechada. Ao deslizar este painel frontal para a esquerda o visor e a abertura para a lente entram em posição e ao mesmo tempo arma-se o obturador cujas lâminas ficam na frente da lente.

Estendendo-se a frente da câmera, ajustando-se a abertura no interior da câmera, inserindo-se um chassis com uma nova placa, ajustando-se velocidade e posicionando-se a ocular do visor, a Block-Notes está pronta para disparar.

Com essa estrutura de quatro braços articulados Léon Gaumont garantia um posicionamento perfeito do eixo da lente ficando bem perpendicular ao plano do filme. A outra alternativa da época, para câmeras tipo vest-pocket, eram as dobraduras como na Kodak Nº1a, mas estas eram mecanicamente muito mais tendenciosas a falhas.

Acima está o desenho da patente inglesa da Block-Notes. O obturador é do tipo guilhotina com duas lâminas tensionadas por mola. Ao acionar o botão disparador p libera-se a primeira cortina que abre a lente. A segunda vem em seguida fechando, mas é retardada por um pistão de ar em r.

A velocidade varia de aproximadamente de 1/2 até 1/100 segundos. Mas é marcada no disco mostrado acima com uma escala própria: 1, 2, 4, 8, 16.

É possível se marcar B, bulb, que deixa a lente aberta enquanto o disparador for pressionado. Isto é feito deslizando-se o controle mostrado acima entre P e I (pose , para B, e instantanée para instantâneos). Era preciso se adquirir um acessório para que ela fosse fixada em um tripé pois ela não dispõe de rosca em sua base.

Uma câmera para o expert amador

É interessante se analisar quem seria o público para esta câmera. Exatamente no início do século XX, quando a Block-Notes foi lançada, a Kodak estava vendendo milhares de Brownie Nº2. Uma box camera com filme em rolo (tipo 120) e que tinha com lente apenas um menisco. Nenhuma delas seria levada a sério por profissionais. Mas o interessante é justamente se perceber o abismo que se criava entre dois grupos bem distintos de fotógrafos amadores.

O que aconteceu foi que ao lado das massas de novos fotógrafos que enviavam seus rolos de filmes para processamento de revelação/impressão fora, que não queriam se envolver com químicas e laboratórios caseiros, surgiu um grupo de amadores que já não queriam as pesadas câmeras dos profissionais mas ainda queriam ter controle e produzir imagens com qualidade.

Para esse também novo grupo é que surgiram câmeras como a Block-Notes. Ela tem praticidade, tem portabilidade, se comparada com as view cameras com tripés e despolidos, mas oferece qualidade óptica e recursos que preservam a qualidade na imagem final. Principalmente elas possibilitavam instantâneos, com a câmera na mão, e permitiam se registrar cenas do cotidiano de forma direta e imediata.

Com câmeras como essa estabeleceu-se o grupo de fotógrafos amadores experts, por oposição ao que eles mesmos chamavam de meros “apertadores de botão”. Os profissionais, em sua maioria, permaneceram aquartelados no antigo ritual fotográfico e demoraram para se deixar seduzir pelas possibilidades de uma fotografia mais prática, mais leve e rápida. Parecia que qualidade e praticidade eram opostos e ainda temiam a vulgarização da fotografia como ameaça à sua profissão.

Mas havia ainda um longo caminho entre uma Block-Notes e a Leica e parece que os mesmos receios ainda voltaram a assombrar muitos fotógrafos entre a fotografia analógica e a digital e ainda entre esta e os smart phones.

Veja a posição da Block-Notes na linha do tempo da fotografia

Abaixo, algumas fotos feitas com a Block-Notes e filme de raio-X.

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