A história dos Lerebours

Objectif Achromatique – fabricada pela firma Lerebours et Secretan por volta de 1855
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A história da marca Lerebours et Secretan, fabricantes de instrumentos ópticos em Paris quando da invenção da fotografia, é tão interessante que vale a pena nos determos um pouco sobre o percurso de seus fundadores. Poderemos assim melhor compreender as profundas transformações pelas quais passava a Europa no século XIX. São considerações sobre mudanças culturais organicamente ligadas ao advento da fotografia quando a olhamos de uma perspectiva mais geral. A fotografia foi um dos campos onde se manifestou claramente uma mudança de valores muito importante, trazida no bojo da revolução burguesa.
O fundador
Jean-Noel Lerebours chegou a Paris com a família, vindo da Normandia, aos 12 anos de idade no ano de 1773. Jean-Noel tinha quatro irmãos e seu pai era chapelier, confeccionava chapéus. Logo ao chegar na capital ele entrou como aprendiz em uma oficina dedicada à fabricação de óculos. Nessa época, essa indústria crescia muito rapidamente impulsionada pela disseminação da imprensa, dos livros, periódicos e valorização da cultura. Foi, por exemplo, quando os grandes museus de arte abriram para o público em geral.
Rapidamente Jean-Noel muda para um atelier de óptica, de um certo Louvel, onde ficará até os 18 anos de idade. Nessa época morre seu pai e ele, como novo chefe de família e responsável por sua mãe e irmãos mais novos, inicia uma carreira empreendedora. Compra os utensílios para polimento de lentes e começa a aceitar encomendas que chegam, dos melhores opticistas e em quantidades animadoras. O negócio vai bem, Jean-Noel vive austeramente e trabalha muito. Há uma grande procura por telescópios, tanto astronômicos como terrestres e a firma Lerebours vai estabelecendo seu nome e crescendo entre os fabricantes franceses. A competição era forte e a melhor reputação dos instrumentos ingleses forçava um preço muito mais baixo para os fabricantes locais.

O telescópio ao lado dá bem a dimensão do grau de especialidade e capacidade técnica a que chegou a firma de Lerebours em sua maturidade. Fabricado em 1823 ele possuía uma objetiva de 24 cm de diâmetro e distância focal de 323 cm. O diâmetro da lente é uma espécie de atestado da competência para o fabricante de telescópios. Uma objetiva com 24 cm é um marco imponente mesmo nos dias de hoje. Este telescópio foi imediatamente adquirido pelo Observatório de Paris. Jean-Noel conheceu muitas honras com inúmeros prêmios, medalhas e títulos como o de Opticien du Premier Consul, depois imperador, Napoleão Bonaparte. Mais tarde foi Chevalier de la Légion d’Honneur, de Louis XVIII.,
Havia plena consciência dos governos de que a tecnologia seria determinante no poder e na competitividade das nações. Quando Jean-Noel começou com suas primeiras lunetas, utilizava vidros flint ingleses, mas ao longo dos desenvolvimentos, em colaboração com outros membros da indústria local, passou a utilizar vidros franceses e obter paridade em qualidade com os fabricantes britânicos. Para estimular o rápido desenvolvimento e suas implicações positivas para a economia nacional, havia uma rede de troca de informações, colaborações, premiações e divulgação das conquistas tecnológicas. Instituições como a Academia de Ciências, a Sociedade de Encorajamento da Indústria Nacional e as Exposições Universais cumpriam esse papel de fomentar um ambiente ávido para absorver novas tecnologias. Os fabricantes disputavam medalhas para endossar a qualidade de sua produção e prêmios em dinheiro eram oferecidos a quem quer que apresentasse solução para os problemas mais prementes da época, tanto nas questões da ciência básica como da indústria. Isso era novo e totalmente diferente da produção artesanal e da organização feudal em guildas e associações setoriais cujo objetivo era fazer sempre como sempre fora feito. Foi apenas nessa época que nasceu uma colaboração entre universidade e indústria, entre cientistas e empresários, valorizando o fazer diferente, a produtividade, o novo em substituição ao tradicional – no artigo sobre a lente de Petzval, o caso do desenvolvimento dessa óptica para retratos é analisado sob este ângulo de como a ciência finalmente encontrou a técnica – link: A Lente de Petzval.
Jean-Noel Lerebours ficou viúvo e passou a viver maritalmente com uma costureira que era mãe de Noël-Marie Paymal, filho de pai desconhecido. O rapaz logo se interessa pelos negócios e ingressa na firma que já era uma empresa de porte em seu ramo. Em 1836, Jean-Noel casa-se oficialmente e torna Noël-Marie Paymal, agora também Lerebours, seu herdeiro. Com a morte do pai adotivo em 1840, este irá continuar e expandir os negócios da firma a uma escala ainda muito maior, pois com a invenção da fotografia a indústria óptica conheceu um crescimento até então inimaginável.
A importância e o prestígio da indústria óptica e de fotografia, na figura de duas de suas marcas líderes, pode ser avaliada considerando-se que Lerebours e Chevalier (outro opticista e fabricante de renome) instalaram-se em um dos pontos mais nobres de Paris, na Place du Pont Neuf. No prédio da esquerda , foto acima, funcionava a loja e estúdio de Lerebours e na direita estava a maison Chevalier. Abaixo, a vista atual dos prédios.
Noël-Marie Paymal Lerebours foi uma figura chave no desenvolvimento da fotografia. Não apenas fabricou lentes, câmeras e acessórios de campo, estúdio e laboratório, mas foi ele mesmo um grande daguerreotipista, editor e influenciador em todos os desdobramentos, disseminação e usos da nova invenção.
Logo após o anúncio do daguerreótipo, em 1839, quando o processo foi comprado pelo governo francês e liberado para o domínio público, Daguerre e Isidore Niépce assinaram um contrato com Alphonse Giroux, comerciante e fabricante de marcenaria fina, para que este produzisse as únicas câmeras autorizadas a levar o selo/nome de Daguerre. Mas imediatamente, Noël Paymal Lerebours, a quem não faltava prestígio como opticista e fabricante de instrumentos científicos, também inicia a fabricação de câmeras e todo o aparato necessário para a produção de daguerreótipos.
Assim como o fez Giroux, também publica uma brochura entitulada “Historique et description des procédés du daguerreotipe et du diorama – Rédigés par Daguerre et ornés du portrait de l’auter“. Ao texto oficial de Daguerre, apresentado no processo na Academia de Ciências e que lhe valeu uma boa pensão vitalícia, Lerebours acrescenta suas notas e observações sobre o processo. A publicação é um grande sucesso e teve várias edições posteriores.

Iniciativa que ainda lhe garante um lugar especial nestes primeiros momentos da fotografia foi a publicação das Excursions daguerriennes, com o pomposo subtítulo vues et monuments les plus remarquables du Globe. Foram dois livros (1841 e 1843) com gravuras realizadas a partir de daguerreótipos de colaboradores e do próprio Lerebours. Vistas da França, Egito, Itália, Rússia, Algeria e até as cataratas do Niágara são reproduzidas através de gravuras feitas a partir de daguerreótipos. O processo de transferência de foto a gravura era em parte mecânico, utilizando a própria placa metálica do daguerreótipo, e em parte manual. É certo que, observando-se as imagens, o gravador dava uma boa contribuição a partir do que ele sabia das técnicas de desenho e composição.
Na cena abaixo, tirada do Excursions Daguerriennes, mostra o castelo de Fontainebleau. Podemos ter certeza que um Daguerreótipo não daria conta de reproduzir cavalos em marcha. Mas estes elementos acrescentados à posteriori deram equilíbrio e vida à cena. Também as nuvens, tão difíceis de reproduzir em um processo que é sensível apenas ao azul e ultravioleta, foram provavelmente um acréscimo do artista.

Mas esses detalhes provavelmente não incomodavam quanto ao realismo ou autenticidade das cenas representadas. Em uma época na qual viagens curtas já eram difíceis ou impossíveis para a maioria da população, poder ver “fotografias” de ruínas romanas, igrejas em Moscou e mesquitas no Magreb, já devia ser algo mágico por si só.
Como ninguém tinha visto o que era a fotografia, pois ela não existia, aquilo que estes pioneiros fizeram, assumiu logo a identidade do novo meio. Tornaram-se canônicos e determinaram para as próximas décadas o que seria o fotográfico. Quais assuntos, quais pontos de vista, quais perspectivas, como arranjar o primeiro plano, como organizar a escala das coisas, todas essas questões estéticas foram se estabelecendo e em grande parte não eram novas mas antes emprestadas da pintura e das artes. Uma certa autonomização da fotografia só viria mesmo no século XX.
Lerebours e colaboradores foram muito ativos em estabelecer estes cânones. Em 1841, menos de dois anos após o anúncio da fotografia, Lerebours publica junto com Marc Antoine Gaudin um Tratado de Fotografia onde apresenta novamente o processo do daguerreótipo, já com algumas modificações, e discute também o retrato, a escolha dos fundos, poses e vestimentas, a paisagem, a natureza morta e outras questões que formaram o entendimento do que e como a fotografia deveria ser. Nesse ano de 1841 Lerebours relatou ter feito mais de 1500 daguerreótipos. Sua produção logo chegaria à mesma quantidade de retratos em apenas dois meses. O número 13 na Place du Pont Neuf, torna-se o local onde os fotógrafos parisienses se encontram para discutir, compartilhar e comparar seus resultados em fotografia.
A foto acima mostra, mais à esquerda, Noël-Marie Paymal Lerebours. Em pé está o alemão Friederich von Martens que trabalhava para Lerebours e desenvolveu uma câmera panorâmica de lente giratória – mais informações sobre este tipo de câmera neste link. À direita está Marc Antoine Gaudin. Os outros dois sentados, de chapéu, são desconhecidos e provavelmente trabalhadores da firma Lerebours.
Em 1845 Noël-Marie se associa com Marc Secrétan, matemático e astrônomo. Mudam o nome da firma para Lerebours et Secrétan. Lerebours dedica-se mais ao setor fotográfico e Secrétan irá desenvolver a vocação de origem da firma na fabricação de telescópios e instrumentos ópticos científicos. A união é muito frutuosa e dá um novo impulso na empresa. Secrétan, suíço e recém chegado a Paris, logo encontra seu espaço e cria reputação entre os principais cientistas da época. A associação vai até a 1855 quando Lerebours se aposenta deixando uma empresa de fama internacional e alto valor de mercado. Secrétan dá então à produção de lentes um caráter mais científico e menos empírico. Introduz mais cálculo e matemática como base dos desenhos e desenvolvimentos. Já nas mãos de outros herdeiros a firma se mantém, mas deixará a Place du Pont Neuf nos anos 70 e não conhecerá mais outros tempos gloriosos como os de Lerebours. A marca será ativa até os anos 1950.
A nova ordem que os Lerebours viram nascer
O que há de interessante nessa história, além de seus aspectos novelísticos, é considerarmos a mudança no modo de vida que foi trazido pela Revolução Burguesa e toda a ideologia do Iluminismo. O ponto chave é o lugar de destaque que estes acordaram ao conhecimento científico. O impacto dessas transformações foi enorme em toda a dinâmica da sociedade. Por séculos e séculos a chance que alguém nascido em família humilde tinha de conseguir uma posição de liderança era basicamente através das armas. Toda a nobreza européia que se formou a partir do final do Império Romano era militarista. Se o indivíduo fosse plebeu, mas muito bom em matar seus semelhantes e liderar guerras e pilhagens, ele eventualmente se tornaria um general, um reizinho ou até mesmo um grande imperador. A via eclesiástica, outra opção rumo ao poder, fora logo ocupada pelas boas famílias e somente um pregador carismático e muito hábil politicamente poderia, vindo de origem humilde, alcançar notoriedade na hierarquia da igreja Romana. Havia ainda o comércio, o berço mesmo da burguesia, mas ser comerciante ou banqueiro, mesmo com muito sucesso, não tornava alguém um sujeito propriamente louvado e honrado. Eram vistos, quando muito, como um mal necessário e não conseguiam, por mais que doassem para a construção de igrejas e financiamento de guerras, ter seu modo de vida elevado à condição modelar como era a vida dos nobres e dos santos.
O que o Iluminismo, como parte do pacote da modernidade, conseguiu, foi dar uma base conceitual positiva à manufatura, ao trabalho, à transformação da natureza em bens e riquezas, que estas atividades jamais tiveram. Pilhar, apoderar-se, cobrar taxas, e todas as formas coercitivas de enriquecer sempre foram consideradas muito mais nobres que trabalhar. O que deu à manufatura esse verniz de atividade honrada e algo distanciada do fazer braçal e repetitivo, foi a inventividade, a criação, o estudo, o conhecimento científico à serviço do domínio da natureza e da produção de bens. À antiga tipologia dos modelos de nossa cultura ocidental, composta basicamente pelo guerreiro, pelo religioso e pelo artista, acrescentou-se a dupla cientista e seu colega empreendedor, os novos criadores de riquezas.
A fotografia é realmente exemplar como parte dessa transformação. Na óptica e na química, são muito evidentes os saltos de cientifização/industrialização de uma atividade que fora antes artesanal. A notoriedade que ganharam os Lerebours, pai e filho, o percurso que fizeram, começando com o simples polir lentes para óculos, para depois transitarem para a nata dos círculos da astronomia de seu tempo e ainda como “cavaleiro da legião de honra do rei”, é um caso clássico dessa transição que acrescentou o cálculo ao braçal. A compreensão dessa transição por Lerebours filho é atestada por sua associação com o matemático Secrétan. O sucesso da lente de Petzval, outro matemático, pôs em cheque o método da intuição com tentativa e erro, que era o modus operandi de grandes opticistas como Charles Chevalier e Jean-Marie Lerebours. Mesmo Niepce, Daguerre, Talbot e Florence, não podem ser considerados muito mais do que diletantes. Seus méritos estão mais em terem sido visionários e muito teimosos. Mas logo os processos fotográficos viraram assunto de nomes como John Herschel, e seus processos passaram a ser vistos como parte de um corpo de conhecimentos que se desenvolvia em pesquisa básica em química para depois serem aplicados em cascata a processos tecnológicos.
Histórias como a dos Lerebours somam-se a milhares de outras nas quais trabalho e estudo conquistaram não só conforto financeiro, como sempre teve a alta burguesia, mas também respeito e admiração da sociedade, como a alta burguesia jamais tivera. Era como que uma nova via de ascensão social que estava aberta a todos através do trabalho e do estudo. O século XIX conheceu muitas desgraças e comoções sociais, mas havia também um clima de euforia e de confiança no futuro. Essa nova ordem social foi um alento para quem se equilibrava nas franjas da prosperidade mas sem participar dela, algo como a salvação eterna o fora durante a Idade Média.





