Horizont | KMZ

Esta é uma câmera para fotografias panorâmicas. Горизонт significa Horizonte e KMZ: Krasnogorski Mekhanicheskii Zavod. Não há uma definição oficial do que seja uma foto panorâmica mas, se tentarmos dar números ao senso comum, seria uma imagem na qual a largura é pelo menos o dobro da altura e o ângulo de visão na horizontal seria algo próximo de 120º ou até mais.

Traduzindo para a impressão que tal enquadramento dá ao observador, seria uma foto que varre horizontalmente uma boa extensão da cena que o fotógrafo tinha diante de si quando tomou a foto. Com um ângulo de 120º, podemos imaginar que alguém no local da foto teria que girar sua cabeça e não apenas mover suas pupilas para apreciar com conforto a cena toda. É uma câmera com uma vocação nata para paisagens, mas sem se restringir a elas unicamente.

Entre as mais comuns, podemos destacar 3 tipos de técnicas para se obter vistas panorâmicas: justaposição ou fotomontagem, grande angular e lente rotatória.

Panorâmica com fotomontagem

Seria a simples justaposição de imagens tomadas com câmeras digamos “normais”. Esse foi provavelmente o primeiro expediente utilizado e consiste apenas na fotomontagem com imagens já impressas. O inconveniente ou dificuldade é se evitar ao máximo que a emenda fique muito visível. Mas hoje, com os recursos de edição das imagens digitais, é possível com esse princípio, simples e óbvio, se agregar imagens de uma mesma cena com grande facilidade na tomada e qualidade no resultado final.

Vista do alto da montanha Lookout, Tennessee, impressão em Albúmen, Fevereiro de 1864, por George N. Barnard (Wikipedia)

Para a fotomontagem panorâmica algumas câmeras oferecem cabeças para tripés que têm a conveniência de girar em ângulos pré-determinados para fotos em sequência e preparadas para justaposição cobrindo até 360º. É o caso da Rolleiflex ao lado. Para uso deste acessório é fundamental que a câmera esteja perfeitamente nivelada. Por essa razão a cabeça panorâmica tem um nível de bolha incorporado.

 

Se o nivelamento não for perfeito as linha verticais na cena não ficarão paralelas na imagem. Isso acontece com qualquer lente, mas quando as giramos a distorção pode ficar acentuada, como nas colunas do lado direito da foto acima. Esta foto, de uma arena em Verona, foi feita com a Rolleiflex 3.5F da foto acima, usando a cabeça panorâmica. As três imagens foram montadas coladas sobre um cartão.

Panorâmica com grande angular

A outra maneira de se obter panorâmicas seria a utilização de lente com ângulo de visão muito amplo. Essas lentes, como é da natureza das lentes, geram imagens circulares mas, para se obter o máximo na razão largura/altura, apenas uma parte de seu círculo de imagem é recortado na foto final privilegiando-se a horizontalidade. Seria o caso, por exemplo, da foto abaixo. Ela foi realizada com uma Schneider Super Angulon 65mm em um filme no formato 9 x 12 cm. Mas embora ela tenha uma razão 2,46 entre largura e altura, o ângulo de visão é de apenas 87º. Isso é considerado super wide angle mas ainda é pouco para a média das fotos consideradas realmente panorâmicas. Existem lentes para 4 x 5 que chegam até 120º, como por exemplo a Schneider  Super Angulon 47 XL f/5.6, mas esse é como que o limite máximo para uma lente sem que distorções curvilíneas muito fortes sejam introduzidas, como acontece nas lentes chamadas fisheye.

Quando se trata de panorâmicas utilizando uma única tomada com uma lente super angular as câmeras preferidas são as que utilizam filme 120 em formatos como 6 x 17 cm. É o caso da Linhof Technorama 617 que utiliza uma  Super-Angulon XL 5,6 / 90 com ângulo de visão de 86,7°.

Panorâmica com lente giratória

A terceira maneira é a que utiliza uma lente rotatória, swing lens, e assemelha-se a um scanner que registra a imagem total por varredura. Este sistema é quase tão antigo quando a fotografia. Câmeras desse tipo já aparecem à venda no catálogo de Lerebours et Sécretan em 1846. Na ilustração abaixo vemos que os modelos iam de 12 x 22 até 16 x 52 cm. O inventor, citado na descrição do aparelho como M. Martens, era o alemão Friedrich von Marten, que trabalhava para Lerebours.

Suplemento ao catálogo de 1846 da firma Lerebour et Secretan – Paris

Foi provavelmente com uma câmera dessas que foi tomada a vista de Paris reproduzida abaixo.  Esse daguerreótipo encontra-se no Musée Carnavalet – Histoire de Paris. Foi datado entre 1845 et 1850 e tem 10,7 x 37,9 cm, mas não foi identificado o autor.

O sistema necessita de um suporte que possa ser curvado e então o daguerreótipo, por ser uma chapa metálica, ainda se prestava a tal uso. O problema maior era um custo excessivamente alto para se confeccionar e processar uma chapa tão grande. Já o colódio ou placa úmida, processo que também se expandiu por todo mundo a partir de 1850, por utilizar placas de vidro não permitia a curvatura e este tipo de câmera ficou um pouco esquecida por algum tempo. O calótipo, com suporte negativo em papel encerado, ainda poderia ser uma solução. Mas aparentemente, talvez até por ser flexível demais, não foi utilizado. As vistas panorâmicas feitas por esse processo são do tipo fotomontagem como a que é reproduzida abaixo e datada de 1845. Pode-se notar que são duas fotos justapostas.

Mas tão logo outros processos, tendo filmes como suporte, foram inventados, a ideia da swinging lens foi retomado. No seu Ausführliches Handbuch der Photographie, de 1892, que é uma compilação de tipos e características de aparelhos fotográficos naquela época, Joseph Maria Eder apresenta o modelo abaixo que recebia o sugestivo nome de Cylindrographe.

Em suas palavras: “Em 1998, o coronel Moessard retomou o princípio dado por Martens (1854), para o filme cilindricamente curvo. A recente invenção de filmes flexíveis (isto é, de emulsões de gelatina em celulóides de colódio ou outras bases flexíveis) permitiu curvar essa camada delicada. O ponto no qual, há 35 anos atrás, Martens falhou, hoje não é mais problema”. E desde então muitas câmera usando este princípio vêm sendo fabricadas.

A panorâmica Horizont da KMZ

Esta Horizont da KMZ, fabricada entre 1967 e 1973, é um exemplar desta linhagem. A KMZ é mais famosa por nomes como Zorki ou Zenit e é ativa até hoje. Fundada em 1942, na cidade Krasnogorsk, próxima a Moscou, fabricou inicialmente artigos ópticos para uso militar, mas logo adicionou uma importante linha de câmeras e lentes para uso doméstico. A princípio eram cópias da Leica e Zeiss Ikon, mas investimentos em pesquisa permitiram que desenhos e soluções próprias fossem desenvolvidas na sequência. Hoje a KMZ está mais voltada para outros instrumentos ópticos como miras de armamentos, por exemplo.

A Horizont, derivada de uma antiga câmera militar, usa um sistema de molas, como a corda de um relógio, que é armada quando se avança o filme, e assim produz um movimento de rotação a velocidade constante que varre a cena por um ângulo de 120º. O tamanho do quadro da Horizont é 24 x 58 mm, uma razão de ~2,4. Ela utiliza filmes 35mm. Obviamente, a imagem não poderia cobrir toda extensão do quadro, em vez disso apenas uma fresta, pela qual a imagem rotatória da lente se projeta no filme, é que produz a exposição. Para variar de 1/30 até 1/250 de segundos, o que muda não é a velocidade do giro, mas a largura da fresta.

Cálculo da distância focal:

1) 120º corresponde a 1/3 da circunferência que tem 360º no total.
2) 120º corresponde também a 58 mm no quadro da foto, então a circunferência é de 3 x 58 = 174 mm
3) como a circunferência é 2πr,  o seu raio só pode ser 174/2π = 27,69 ~ 28 mm

A notar que dessa forma, perde o sentido qualquer ajuste de foco, ele é fixo, pois a lente está sempre à mesma distância do filme. Então, para um quadro de 24 x 58 mm e um ângulo de 120º o único raio possível é 28 mm e essa é justamente a distância focal da lente. Se tiver curiosidade, veja o cálculo ao lado. No caso desta câmera, a distância focal é 28 mm e a abertura f/2.8.

A ilustração acima mostra graficamente como que o arco descrito pelo filme e o ângulo de visão horizontal da câmera já determinam a distância focal da lente.

 

Velocidade e abertura são reguladas no topo da câmera e o enquadramento é feito por um visor removível. Na foto acima o obturador está armado e a velocidade selecionada é 1/125 com abertura f/16. Ambos são regulados com o obturador armado. Há uma sapata vertical para o visor. Quando ele está na câmera ele cobre o botão para rebobinar o filme. É um visor preciso e tem incorporado um nível de bolha que é visto logo abaixo da cena que se vai enquadrar.

Esta imagem, feita com um celular colado na janela do visor, mostra a imagem espelhada do nível de bolha logo abaixo, pois na verdade ele fica no topo do visor.

Uma lente 28 mm que precisa apenas cobrir uma pequena fresta com 24 mm de altura, altura do filme 35 mm, é uma lente normal, nem mesmo angular precisa ser. Seu ângulo de visão vertical é de apenas 45º. Por isso pode ainda dar-se ao luxo de ser bem luminosa com f/2.8. Esta característica é importante pois uma panorâmica com lente rotatória é limitada em termos de velocidades. A mais baixa da Horizont, como vimos, é apenas 1/30 s.

Dentro do seu compartimento o filme será curvado ao redor do arco cilíndrico que dá o raio de 28 mm. Não é difícil de se carregar a Horizont e ela permite 21 fotos com um filme de 36 poses.

Comparação de panorâmicas com lente grande angular ou giratória

A diferença é bem grande na aparência da foto quando se usa um sistema ou outro. Para se entender os motivos é preciso se analisar o que cada sistema faz em termos de formação de imagem.

Se a Horizont, com o mesmo quadro de 24 x 58 mm, tivesse uma lente fixa, esta precisaria ter um círculo de imagem de pelo menos 63 mm para cobrir o quadro todo, como se vê na ilustração acima. Para ter um ângulo de visão de 120º com círculo de imagem de 63 mm, precisaria de uma distância focal de 55 mm aproximadamente (a conta é tg 60º x 63/2). Uma lente assim seria bem complexa, bem cara, provavelmente impossível de oferecer f/2.8, mas, com uma abertura mais modesta, seria um desenho possível. Pode-se pensar então que uma panorâmica feita assim produziria imagens como a Horizont. Mas o caso não é esse.

Na ilustração acima temos a representação da fresta que corre o quadro da foto. Vimos que a distância focal é de 28 mm. Existe no entanto mais um ponto a se considerar. Na óptica das lentes a razão entre tamanho da imagem/objeto é igual a razão entre a distância da lente até a imagem e da lente até o objeto. Mas é mais fácil entender isso com uma imagem.

Na ilustração acima estamos fotografando três colunas, A,B e C, que têm a mesma altura. Por conveniência, temos uma câmera hipotética com os dois sistemas de grande angular e lente giratória. Assim, o plano das imagens marcado com linhas verdes corresponde à parte da grande angular. As linhas vermelhas mostram a curvatura do filme na parte da lente giratória.

Note então que a coluna B, frontal à câmera, tem sua imagem b com um certo tamanho. A coluna C está mais distante da lente e por isso poderia ter uma imagem menor. Mas veja que c tem o mesmo tamanho de b pois os raios de luz divergentes que saem da lente para a imagem viajam uma distância maior para ir da lente até c, se comparada com a distância para ir da lente até b. Essa distância maior, da lente até c, faz com que haja espaço para a imagem crescer e quando chegar no filme c terá a mesma altura de b.

Já na parte do filme curvo, como a distância da lente até a imagem b ou até a imagem a é a mesma, os raios divergentes são interrompidos quando a imagem a “ainda não cresceu” o bastante para ficar igual a b.

Algebricamente, podemos notar na fórmula que a distância lente/imagem sendo fixa na lente giratória, pois é sempre o raio de curvatura do filme, objetos de mesmo tamanho ficarão com imagem menor à medida que se afastem da lente. Isso acontece para manter a igualdade: se a distância do objeto/lente cresce a imagem diminui  pois os outros dois parâmetros são fixos.

Fotos panorâmicas com a Horizont KMZ

A Horizont tem essa distorção bem característica das panorâmicas com lente giratória. Se você fotografar uma linha de casas em uma rua perpendicularmente à direção da rua, irá quase parecer que não é uma rua reta mas uma curva ou esquina. O efeito pode ser útil para dar ênfase em algum motivo central. Acho que é o caso da foto abaixo que tem uma composição toda simétrica em torno do segurança da loja. Se a mesma foto fosse feita com uma lente grande angular como as Super Angulon da Schneider, a frente da loja apareceria retangular na imagem, como o é na realidade.

Esta outra foto, tirada em um domingo quando fechavam a pista expressa que margeia o Sena em Paris, também mostra o efeito de modo acentuado. A parede do outro lado da pista tem a mesma altura em toda a sua extensão, mas acaba oferecendo a distorção exatamente como no exemplo das colunas logo acima. A impressão é de que eu estava em uma curva. Mas não foi esse o caso, este pois este trecho é reto.

Outro efeito que pode ficar interessante com panorâmicas de lente giratória e que aparece um pouco discreto mas ainda observável na foto acima é a compressão ou expansão de objetos que se movem. Note que as rodas das bicicletas estão um pouco ovaladas. Isso é consequência do fato de que elas se moviam na direção contrária ao giro da lente. A ampliação foi feita pelo processo lithprint e esta é a razão do aspecto pouco comum da escala tonal e granulação.

A seguir mais algumas fotos feitas com a Horizont da KMZ. Creio que essa distorção não pode ser ignorada pois a impressão que a cena nos dá pode ser muito diferente daquilo que ficará registrado no negativo. De um modo geral, para panorâmicas de paisagens naturais e principalmente urbanas, prefiro usar uma lente grande angular. Com exceção apenas dos casos em que o efeito de aumento exagerado de tamanho dos objetos próximos seja parte da intenção estética da foto. Penso que as lentes giratórias são muito interessantes para panorâmicas em ambientes fechados, apertados e com muita proximidade, fotos em que o fotógrafo se coloca dentro da cena e esta o envolve como que por todos os lados. Acho que um exemplo dessa situação é essa partida de xadrez na rua São Bento, em São Paulo.

Largo São Bento, em São Paulo

 

Teatro Municipal em São Paulo

 

Rua São Bento, São Paulo

 

Lago Alster em Hamburgo

 

Hamburgo

 

Hamburgo

 

 

 

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1 CommentLeave a comment

  • Muito informativo e bem escrito. Gosto de câmeras panorâmicas tipo “swing lens”. Tenho três, sendo duas p/ filmes 35mm e uma para 120. Esta última é uma Widepan que tb aceita filme 220 e pega até 35 mm mediante um adaptador, que não tenho e tampouco me interessa.
    As 35 mm são:
    A) uma Horizon, porém com corpo de plástico, produzida bem depois dessa de metal. Já foi muito usada, com resultados bem satisfatórios. Foi deixada meio de lado depois que comprei essa:
    B) uma Noblex modelo 135U, que informa fornecer 140• de ângulo. Possui tb uma gama ampla de obturador, indo desde 1 segundo até 1/500, mas depende de 4 pilhas para funcionar, o que não é o caso da Horizon.

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