Carte de Visite |André Adolphe Eugène Disdéri

A Carte de Visite, CDV, era basicamente um formato definido de fotografia colada em um suporte em cartão. As dimensões usuais eram: 54 × 89 mm, 2.125 x 3.5″ para a foto e 64 × 100 mm, 2.5 x 4″ para o cartão. Pode parecer estranho que este tipo de fotografia tenha sido uma “invenção”, mas seu criador, o francês André-Adolphe-Eugène Disdéri, foi muito além do formato em si. Ele desenvolveu e patenteou, em 1854, todo o processo desde a tomada da foto até como fazer sua colagem no cartão.

Mas seria muito difícil fazer valer seus direitos pois o resultado final podia ser obtido por métodos suficientemente diferentes para que não configurasse infração da sua patente. Embora tenha até processado alguns fotógrafos, logo seus direitos foram ignorados e as CDV espalharam-se pelo mundo todo sem proveito para seu criador. Por outro lado, apenas com seu trabalho como fotógrafo, Disdéri ficou extremamente rico e por alguns anos esteve entre os mais disputados da Europa. Porém, ele era mais um inventor do que um bom administrador. Por exemplo, além da CDV criou uma câmera tipo TLR (Twin Lens Reflex), conceito que viria a consagrar a famosíssima Rolleiflex, no século XX. Mas como gastava mais do que recebia, terminou sua vida na pobreza. Precisou vender tudo e foi trabalhar como simples fotógrafo em estúdios de terceiros.
O processo CDV
A câmera tinha algo especial para dar produtividade. Ela possuia 4 lentes que podiam ser acionadas independentemente. Na traseira um chassis deslizante permitia se tomar duas séries de 4 fotos. Assim, em uma única placa do tipo colódio úmido, com um único processamento, obtinham-se as 8 fotos e o cliente poderia escolher quantas cópias quisesse de cada uma delas individualmente.


Câmera para 4 fotos em formato CDV. Ao alto o painel frontal com as quatro objetivas e abaixo a traseira da câmera com as divisórias para que a luz de uma foto não incidisse sobre as vizinhas.
–
A impressão era feita por contato em um papel bem fino usando o processo da albumina. Ela produzia o marrom bem característico das CDVs. De 1880 em diante a impressão a carbono ganhou importância. É um processo muito mais permanente, até mais bonito por produzir detalhes tanto nas sombras, com pretos muito densos, como nas altas luzes. Porém é também mais trabalhoso, por isso mais caro e não expulsou de vez a albumina. A impressão de carbono ficou como a versão luxuosa da fotografia, perdendo apenas para a platinotipia. Mas esta última raramente era utilizada em Cartes de Visite.

Nos grandes estúdios uma sala com janelas altas era reservada para as prensas de contato que utilizavam a luz do dia que é rica em ultra-violeta e por isso a melhor adaptada para processos como albumina ou carbono.

Uma vez impressa, em uma vou várias tiragens, cada foto era cortada e colada no cartão que normalmente trazia os dados do fotógrafo impressos. Ficava a cargo do cliente colocar ou não o seu nome ou alguma dedicatória. Alguns fotógrafos eram bem discretos colocando apenas seu nome. Invariavelmente, com excessão dos fotógrafos viajantes, colocavam também o endereço do estúdio. O espaço no verso era também utilizado para dar algum tipo de endosso ao fotógrafo. Muitas Carte de Visite apresentam as medalhas. Estas referem-se a exposições nas quais o estúdio tomou parte e foi premiado. Por exemplo, lemos no detalhe acima: exposição universal Paris 1878, medalha de prata. Outro recurso promocional muito utilizado era a referência a clientes importantes: fotógrafo do rei da Bélgica ou ex-assistente do fotógrafo xyz.

Os estúdios transformaram-se em verdadeiras indústrias e eram posicionados nos endereços mais sofisticados e movimentados das grandes cidades. Empregavam muitos operadores para cada etapa do processo. O fotógrafo em si era mais um diretor de cena e a parte manual ficava a cargo de seus funcionários e assistentes. É claro que isso variava de acordo com a demanda de cada estúdio. Como o processo em si não era tão complicado existiam também fotógrafos que trabalhavam sozinhos e até em um sistema itinerante, viajando pelas cidade menores.

Disdéri – Prova de uma placa com Cartes de Visite – Coleção Eastman Museum
A cartomania
No início da fotografia falava-se em daguerreotipomania, as Cartes de Visite foram isso e muito, muito mais. O preço relativamente baixo e a reprodutibilidade infinita fizeram das CDV uma espécie de pandemia, algo que o daguerreótipo jamais poderia ter alcançado.
Vou reproduzir em uma longa citação uma matéria no jornal francês Le Monde Illustré, de 3 de novembro de 1860. O texto é assinado por Jules Lecomte e o assunto é o que faziam as parisienses retornando das férias de verão. É um texto de humor, uma sátira de sociedade, e é uma ótima fonte para compreendermos a dimensão e o uso que se fazia das CDV.
Do que se ocupam as parisienses que já retornaram e o mundo ainda não sabe?
A questão é um tanto confusa, difusa, múltipla, vaga e complicada. Para respondê-la, tomarei uma parte pelo todo e olharei ao meu redor o que se passa em minhas relações. As mulheres que chegam das termas, dos castelos, das vindimas ou das caçadas maritais, aproveitam o sol e flanam. Vão ver o que foi demolido e reconstruído em Paris nos últimos seis meses; — vão inspecionar as novas lojas, mandam desdobrar os tecidos dizendo que decidirão mais tarde… […]
Depois, à noite, jantam com alguns íntimos, a quem interrogam sobre isso ou aquilo, sobre tudo… Finalmente se põem a par e em dia; fala-se dos casamentos e das rupturas, — das fortunas feitas ou perdidas; — evita-se sobretudo falar de política para permanecerem amáveis e cordiais. Enfim, à noite, vão ver o que está passando nos teatros, — ou dedicam-se à nova moda, já quase um furor: a dos álbuns de Cartes de Visite.
A senhora conhece essa invenção Disderiana, minha senhora, é encantadora e absorvente! Ela substituiu os álbuns de autógrafos, a potichomania e essa sucessão de manias mais ou menos absurdas que atingem Paris a cada inverno. Desta vez, a coisa é inteligente e divertida, — e muito cara também, pois o sol trabalha a preço fixo e cobra tão caro pela face de uma Majestade quanto pela de uma atriz dos Bouffes-Parisiens: ou seja, trinta soldos a peça. Vi vinte mulheres ocupadas em formar coleções que serão, neste inverno, um dos divertimentos das pequenas reuniões noturnas. As pródigas vão comprar seus álbuns na rue de la Paix, e pagam assim o dobro do preço de fábrica. Vêmo-las sentadas na Maquet, na Giroud ou na passagem da Ópera, escolhendo seus cartões, — e olhando muito especialmente aqueles… que não ousam comprar. À noite, divertem-se deslizando tudo isso nas ranhuras do álbum, e discute-se os dois sistemas em presença, que consistem: um em escrever os nomes sob os retratos, — o outro em não colocar nada. […]
Outra ansiedade dos primeiros colecionadores destinados a dar o tom geral do inverno: deve-se proceder por categorias, classificações, especialidades, — ou então fazer da coleção uma salada, um carnaval, uma confusão! […]
É, portanto, minha senhora, um dos furores nascentes do momento, a voga assegurada do inverno que vem, e desta vez uma distração inteligente, picante e fecunda.
Alguns esclarecimentos, álbuns de autógrafos eram cadernos nos quais se pedia aos amigos que escrevessem algum pensamento, alguma dedicatória e assinassem. Potichomania era um tipo de artesanato que se fazia com garrafas com colagens e pintura pelo lado de dentro. Foram duas modas que passaram.
O que é interessante é a maneira como ele coloca as Cartes de Visite como uma mania, um furor, algo de que todo mundo está falando. A coleções que se formavam não se restringiam aos amigos e familiares, eram muito procuradas as CDV de celebridades. Estas, normalmente eram até disputadas pelos fotógrafos pois estes poderiam depois vender as cópias no vigoroso mercado que se formou. Em alguns casos funcionava como publicidade para o retratado e este já ficava satisfeito de ter suas cópias grátis, por exemplo. Mas em outros casos havia um contrato definindo os direitos e obrigações de cada um conforme cada parte se sentisse inclinada a ceder ou exigir. Isso acontecia quando se antevia uma boa movimentação financeira.
Sobre os dois sistemas que Jules Lacomte menciona, de colocar ou não os nomes sob os retratos, e agrupar ou não por categorias de personagens, ele é favorável a que não se coloque os nomes pois isso deixa a discussão entre amigos mais animada com as pessoas tentando adivinhar ou querendo se exibir sua familiaridade com as celebridades em questão. Sobre as categorias ele é também contra pois acha divertida a possibilidade de alguns encontros fortuitos, Ele dá uma lista enorme mas eu cortei para não alongar demais. Ele cita por exemplo como seria divertido ter juntinhos o Papa Pio IX e Giuseppe Garibaldi, dois inimigos mortais, já que Garibaldi lutava pela unificação da Itália o que implicava em tomar terras da Igreja.
Essa ruptura com uma ideia de classes e hierarquias, quando Jules Lacomte aconselha álbuns misturando personagens de forma aleatória, vai além de seu gosto pessoal, é mais uma manifestação, consciente ou inconsciente, de ideais iluministas às quais a fotografia colava tão bem. Como ele cita mais acima, as CDV tinham o mesmo preço, o sol cobra igual para uma rainha ou uma pessoa qualquer, as CDV têm o mesmo formato e aparência para todos, elas mostram as pessoas como elas realmente são, ou seja, havia um sentido igualitário nisso tudo. A fotografia era democrática por excelência.
É preciso se considerar, para termos a dimensão da importância que a fotografia ganhou com as Cartes de Visite, que as pessoas eram conhecidas, mesmo as famosas, apenas pelos nomes. Essa imprensa de eventos de sociedade e política, começou por volta de 1600 na Europa. Mas eram só texto. Falava-se muito dos grandes de cada época mas ninguém os via. Até os anos 1840, os únicos rostos que se conheciam eram o do monarca, nas moedas, alguns posters de cunho político, geralmente sátiras, que só circulavam nas grandes cidades e um comércio de gravuras que apenas os mais ricos é que tinham acesso.

Exemplar de 16/dezembro/1848
–
Em 1842 é lançado o Illustrated London News, em 1843 L’Illustration, em Paris, estes puxaram uma longa fila de periódicos, em geral semanários, com gravuras em madeira e estas foram um primeiro olhar do povo em geral para os rostos daqueles que eram por algum motivo “importantes”. Políticos, artistas, militares, religiosos, bandidos, todo tipo de celebridade, pelo bem ou pelo mal.
Quando surgiu a fotografia em 1839, a imprensa ainda não era capaz de reproduzi-la diretamente em suas páginas, as imagens ainda eram copiadas manualmente por um artista para os blocos de madeira das gravuras. Então as Cartes de Visite foram o primeiro processo que efetivamente fez com que as aparências das pessoas, “impressas pelo sol”, sem a intervenção de um artista, circulassem a uma escala que podemos considerar massiva.

Processos fotomecânicos para a imprensa só surgiram em 1880, o pioneiro foi o jornal New York Daily Graphic com a foto acima. Na lengenda temos: A scene in Shantytown, New Youk – Reproduction direct from nature (reprodução direta da natureza). Até então, fotos só podiam ser vistas em um suporte fotográfico original.
Por que as pessoas queriam tanto se ver, uns aos outros e a si mesmas, em um processo fotomecânico? Essa é uma questão fascinante, mas para este artigo vamos ficar apenas com o fato de que foram as Cartes de Visite que tornaram isso possível. A cartomania, que se instalou nos anos 1860 usando a invenção de Disdéri, foi um fenômeno que sacudiu o mundo inteiro.

Mas não devemos pensar que foi algo restrito às coleções de CDV de celebridades. O mais notável nesse fenômeno social é justamente que com as CDV o sujeito podia ver a si próprio e seu círculo mais íntimo, no mesmo suporte, formato e até na mesma pose da mais alta nobreza. Na caricatura acima, da série Les bons Bourgeois de 1865 (os bons burgueses) , Honoré Daumier ridiculariza a moda de se fazer essas poses cheias de pompa. Em total contradição com a expressão altiva do retratado, a legenda diz “posando como membro da feira de agricultura de sua região”. Um dos exemplos que Jules Lacomte dá de justaposição engraçada para se ter em um álbum é de um lado o Xá da Pérsia e do outro um “rato da ópera”, que seria um jovem estudante de ballet da Ópera de Paris. Somente no espaço de um álbum de Cartes de Visite estes dois personagens poderiam se encontrar em situação de relativa igualdade. Com a fotografia as pessoas estavam experimentando pela primeira vez essas aproximações.
Cartes de Visite da coleção
A seguir uma seleção de Cartes de Visite com comentários. São mostrados lado a lado frente e verso da mesma peça.

Para abrir, uma do próprio Disdéri, criador da Carte de Visite. A notar que ele coloca sua marca de maneira bem discreta mas apresenta-se como: ‘Fotógrafo de Sua Magestade o Imperador’. Isso é por conta dele ter feito a que deve ser a sua CDV mais famosa na qual figura Napoleão III.


Outras duas do Disdéri. O interessante aqui, é que ele fez CDV a partir de pinturas. Provavelmente foi para aproveitar a moda das coleções de celebridades. Os dois são militares, em tempos de tantas guerras, com certeza esse era um tema altamente colecionável.
O primeiro é o Amiral Guy-Victor Duperré que foi Ministro da Marinha e morreu em 1846.
O segundo é Jean-de-Dieu Soult, um dos marechais mais famosos de Napoleão e depois Primeiro Ministro da França, morreu em 1851.




Este era um típico estúdio para CDV em uma cidade do interior, Liége. Os irmãos Joseph-Arnold Servais e Jean-Théodore Mathieu Servais atuaram apenas de 1864 a 1866 e então é fácil datar estes cartões nesse período.

Joseph Dupont teve um dos mais prestigiados estúdios da Antuérpia. A partir de 1866 ele passou a assinar ‘Fotógrafo do Rei”, assim como Disdéri. Compare as roupas e atitude desta senhora com as dos retratatos dos irmãos Servais e pode-se notar que são clientelas bem diferentes. Joseph Dupont foi colaborador do famoso pintor Lawrence Alma-Tadema.Henri Louis Aimé Dupont

Henri Louis Aimé Dupont era o Disdéri de Bruxelas. Veja a lista de clientes: fotógrafo do corpo diplomático, dos altos funcionários do Estado, da magistratura, dos ministros das forças armadas, da administração pública, do mundo das letras, das ciências, da artes, etc, etc.

François Athanase Sturm apresenta-se como pintor e fotógrafo. Isso era muito comum nessas primeiras décadas da fotografia. Muitos pintores migraram ou mais frequentemente combinaram as duas coisas. Sturm atuou na fotografia de 1865 a 1895, uma longa carreira. Mas esta CDV deve ser posterior a 1880 pois o método de impressão é o carbono, superior à albumina por ser mais permantente.



Boa parte dos fotógrafos de estúdios para retratos eram artistas em empreitadas solo. Mas Henri Becker, atuante em uma fase tardia das CDV, por volta de 1900, era mais um empresário que abriu uma das primeira cadeias de lojas/estúdio na Bélgica. Eram administradas por seus parentes e já empregavam, em vez de colódio/albumina, a gelatina de prata tanto para negativos como cópias finais.

E. Appert pode ser Eugène ou Ernest Appert, dois irmãos, sendo que Eugène era o mais ativo. Ele apresenta-se como Fotógrafo da Magistratura e Fotógrafo do Corpo Legislativo. É considerado um pioneiro em fotografia judicial. É curioso que fotografava tanto os criminosos como a elite política de seu tempo. É famoso por ter, durante a Comuna de Paris, quando ele era contra os communards, publicado fotomontagens com falsas execuções de ativistas das comunas.

Théodore Dispa era um enteado de Henri Becker, como foi visto, a família gerenciava uma bem sucedida rede de estúdios fotográficos na Bélgica. Atendiam uma clientela classe média em um período já tardio para Cartes de Visite. Neste exemplar temos uma típica foto de primeira comunhão já impressa com papel de gelatina de prata.

Esta é uma CDV datada de 1868-1875. O processo de impressão é o tradicional de albumina. Pode-se notar isso pela coloração e pelo esmaecimento. Reutlinger era um dos principais estúdios de Paris por esta época, rivalizando com Nadar. O retratado, pode-se ler no alto do verso do cartão, era o Visconde Alphonse Fleuriot de Langle. É interessante se notar que na frente lemos “garanti d’après nature”, isto é, garantia de que o próprio Visconde posou para a foto e não se trata de foto a partir de uma pintura ou desenho. Isso só pode ser devido ao fato de que se trata de uma tiragem para venda a colecionadores de celebridades pois o próprio Visconde não precisaria dessa observação. Reutlinger era fotógrafo a alta sociedade, atores e cantores de ópera.

Outro importantíssimo estúdio parisiense e por vários motivos. Pierson, realizou cerca de 400 disputadíssimos retratos da Condessa de Castiglione, uma beldade da época. Ele foi (como Disdéri) fotógrafo do imperador Napoleão III. Ele ganhou uma causa que estabeleceu jurisprudência para direitos autorais sobre fotografias. A data deste CDV pode ser situada entre 1878 e 1880 e nele temos o Rei Oscar II, da Suécia e Noruega

E. Flamant, de Paris, utiliza como credencial: Ex Opérateur de Mr LE COMTE AGUADO, o conde de Aguado é uma figura importante pois embora não fosse fotógrafo comercial, até porque ele era riquíssimo, foi um dos fundadores da Société Française de Photographie e contribuiu em vários desenvolvimentos da técnica fotográfica. A data deste CDV deve ser por volta de 1870 pois nele figura Léon Martin Fourichon, Vice-Admiral na Marinha. Certamente um cartão colecionável já em sua época.


Edward Schultze foi um fotógrafo de primeira grandeza em Heildelberg. Ele usa como credencial ser o fotógrafo da rainha da Suécia e Noruega, que era na época era Sophia de Nassau. Sophia era alemã e provavelmente em alguma visita a Heidelberg fez-se fotografar e autorizou Schultze a utilizar a referência. A data deste CDV deve estar entre 1872 e 1875.
Curioso nesta imagem é que a menina parece estar com um coelho vivo posando para a foto. Pode-se ver que as orelhas do bichinho se moveram durante a exposição que deve ter levado alguns segundos.

Este foi um dos estúdios de maior prestígio na Bélgica, os irmãos Geruzet, Alfred e Jules Geruzet apresentavam-se como fotógrafos de Sua Majestade a Rainha dos Belgas, que na época era Marie-Henriette, esposa do rei Leopold II. No livro Studios of Europe , consta que eles utilizavam apenas o carvão como processo de impressão por conta de sua permanência e qualidade geral bem superior à albumina. No alto do cartão lemos: Photographie inalterable au charbon, sendo que charbon é justamente o pigmento carbono. Em português dizemos impressão de carbono. Considerando que este é uma CDV de 1888, vemos que de fato ele conserva ainda um escala tonal muito ampla, indo de negros profundos no vestido até tons bem claros no rosto da retratada.

Aqui uma solução econômica do “Grande Photographe J. Levaque” de Bruxelas. Trata-se de um ferrótipo, processo de impressão direta sobre metal usando colódio. Ele oferecia 9 retratos “bijou” por 1 franco. Utilizava uma câmera que produzia os nove retratos em uma placa única pois ela possuía 9 pequenas objetivas no painel frontal. A exposição girava em torno de 10 segundos. Os ferrótipos eram muito utilizados para a confeção de medalhões, broches e similares. Neste caso ficou emoldurado por um cartão no formato Cartes de Visite. Mas é um outro produto. Vemos que a dúzia de CDVs tradicional, em albumina, saia por 4 francos.

Esta é uma típica Carte de Visite do início dos anos 1860. O vestido da retratada, que era moda entre 1860 e 1866, já denuncia a data. Mas se nos atermos mais à fotografia, podemos dizer que o fio vermelha na borda, os cantos mais vivos e principalmente o fato de Joseph Van Oudenhoven apresentar-se como “artista pintor e fotógrafo”. Era muito comum que pessoas com formação em artes escolhessem a fotografia como profissão pois a demanda era muito grande e o talento de um artista pintor podia ser muito útil não apenas para diretamente retocar ou colorir fotografias mas também por um refinamento na iluminação e composição da foto.

Este é um exemplo interessante, a começar pela expressão das crianças, talvez entre medo e curiosidade, mas o fato é que Louis Ambroise Perron era um tipo especial de fotógrafo viajante. Note que não há endereço no cartão. Ele era de Charleville, mas circulava pela França levando as sua “Photographie Parisienne”, um título atraente para quem vivia no interior e não poderia se fazer retratar por algum dos famosos estúdios parisienses. Sua atuação é tardia, entre 1894 e 1897 foi seu período itinerante ao qual provavalmente pertence esta CDV, de 1898 a 1906 instalou-se em sua cidade natal. Não ficou famoso mas foi um fotógrafo de sucesso. Seu filho Lucien Perron continuou com o estúdio em Charleville ainda por muitos anos.

Esta Carte de Visite ilustra a atração que a fotografia exercia sobre as pessoas das mais diversas procedências. Antes de tornar-se fotógrafo por profissão, Nicolas Zacharie Millot era um acadêmico, professor de matemática, física e desenho. Por sua fina educação contribuía ainda em estudos de história e arqueologia. Como fotógrafo foi ativo de 1879 a 1889. Sobre o menino na foto, talvez ela tenha algo a ver com a vida acadêmica de Millot, pois ele está em uniforme de estudante. Não devia ser de uma família muito rica, vemos pelo estado de sua roupa e principalmente os sapatos que parecem gastos.
Carte Cabinet
Em 1866 o fotógrafo londrino F.R. Window introduziu um novo formato chamado Carte Cabinet. Era a mesma montagem, uma foto em papel fino colado em um cartão com a marca e informações sobre o fotógrafo. Mas o tamanho era 11 x 17cm, portanto muito maior.
Enquanto que as Carte de Visite eram mais para álbuns e coleções, as Carte Cabinet destinavam-se mais a memórias da família e eram exibidas individualmente. O nome Cabinet vem do fato de ser um tamanho perfeito para ficar em uma estante.

Um aparelho muito comum que surgiu com as Carte Cabinet foi o Graphoscope. É basicamente uma lente de aumento e um suporte que melhoram em muito a experiência de se examinar as fotos pois ele enche o campo visual. Alguns graphoscopes, tinham também um par de lentes para observação de stereoscopias, como e vê na foto acima.
Já em 1870 tornou-se o formato preferido para retratos que não fossem para álbuns. O seu uso estendeu-se até o início do século XX. Por isso as Cartes Cabinet acompanharam as mudanças nos métodos de impressão. Existem Cartes Cabinet em albumina, carbono e muitas em papel gelatina de prata.
A seguir, algumas Cartes Cabinet da coleção. Para manter alguma relação de tamanho com as prévias Cartes de Visite, optei por colocar a frente sobre e não ao lado do verso.

Esta Carte Cabinet é um excelente exemplo da industrialização da fotografia já no final do século XIX. A Usine a Vapeur de 50 cavalos, que é orgulhosamente destacada no verso do cartão, significa que Dessendier dispunha de um arco voltaico para gerar luz e não dependia mais de iluminação natural para imprimir suas fotos. Atendia pelo correio e era especializado em ampliações de carbono. Foi muito comum nessa época que Cartes de Visite fossem enviadas para ampliação e isso significou uma boa fonte e renda extra para os estúdios.
Sobre as retratadas, aparentemente são mãe e filha e estão em luto estrito. Os sinais são o tecido dos vestidos, sem brilho de satin ou seda, a ausência de jóias e sobretudo o adorno na cabeça da senhora que era típico da primeira fase do luto.

Este é uma Carte Cabinet datada, janeiro de 1888. O fotógrafo não usou, como de costume um cartão impresso mas escreveu à mão seu nome, Vivier, seu endereço Rue de la Papeterie e a cidade Cusset, que fina na França central. Fotógrafos nessas pequenas cidades muitas vezes compravam cartões em branco e procediam dessa forma. Provavelmente como medida para reduzir seu custo.

Dimitar Karastoyanov pertenceu a uma verdadeira dinastia de fotógrafos. Filho de Anastas Karastoyanov, que é considerado o pai da fotografia na Bulgaria, eram também impressores e tiveram um papel importante na política. Seu estúdio ficava no ponto de maior prestígio em Sofia, bem em frente à catedral.

Este é um bom exemplar de um estilo de Carte Cabinet: a foto turística do tipo folclórica. Mont-Dore era e ainda é um spa termal na região de Auvergne, na França. O fotógrafo Sanitas escreve que fica no verão em Mont Dore e no inverno em Beaulieu. Era uma estratégia de acompanhar sua clientela. Era um estúdio avançado pois oferecia ampliações em carbono e ainda em platinotipia, os processos mais sofisticados. Sobre a foto, os turistas que frequentavam o spa gostavam de ter imagens de personagens locais em roupas típicas. Esta pode ser uma Carte Cabinet feita com uma modelo e se comprava pronta, mas pode também ser uma caracterização da cliente que quis se fazer representar como uma local.
Conclusão
As Cartes de Visite foram um prolongamento e expansão de algo que o daguerreótipo, por sua natureza de peça única, materiais e custo, não poderia oferecer. Com elas houve um primeiro movimento de capilarização da fotografia. Ela ainda permaneceu como uma prática basicamente de profissionais. O gesto “fotografar” continuou muito restrito a estes profissionais ou uns poucos amadores muito dedicados. Mas o conhecer e experimentar a fotografia, ao colecionar e fazer-se fotografar, chegou ao que podemos seguramente chamar de público em geral.
Como iconografia, creio que podemos dizer que esse objeto no qual conviviam monarcas e trabalhadores foi uma lupa que deu um suporte tangível a ideais abstratos de igualdades e direitos desenhados pela grande e imparcial luz do sol. A sociedade pôde examinar tudo e todos em uma mesma vitrine, um mesmo ponto de vista, no mesmo álbum.
Assim foi que a fotografia teve um papel instrumental na solidificação de conceitos lançados pelo Iluminismo. Foi recebida como uma espécie de prova concreta de que enfim as pessoas podem ser iguais.
