Retratos Relíquias | Antonio Neto

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Existe muita discussão sobre fotografia analógica x digital, no sentido de qual é hoje a melhor opção para o fotógrafo. Quem faz digital não entende ainda se usar filmes quando os mesmos resultados podem ser obtidos de maneira muito mais rápida e eficiente . Realmente, um arquivo .raw tem uma flexibilidade incrível e a partir dele pode-se escolher uma infinidade variações, incluindo as que simulam a fotografia analógica, se esse for o desejo do fotógrafo. Para completar, uma impressão fine-art tem um acabamento maravilhoso e duradouro.

O que essa argumentação de flexibilidade e eficiência não leva em conta é que quando na frente da lente está alguma coisa que para o fotógrafo signifique mais que a possibilidade de uma imagem, talvez ele sinta necessidade de algo que o digital não entrega. É uma necessidade dele, não da imagem. Se não fosse assim o analógico já teria morrido de vez, pois é de fato mais trabalhoso e limitado. Especialmente quando na frente da lente está algo que observa, pensa e sente, todo o contexto de realização, toda a experiência do fotografar e se fazer fotografar, torna-se importante e fica indissoluvelmente ligada ao objeto fotografia.

Nesta exposição estão os retratos que Antonio Neto vem realizando desde 2021. Trata-se de uma produção independente e não comercial. Ele convida amigos e também, algumas vezes, pessoas que encontra ao acaso. Todas as fotografias da mostra foram realizadas em seu estúdio em Londrina, Paraná, utilizando uma câmera Astoria que faz um negativo enorme de 18 x 24 cm. A revelação é feita imediatamente sob os olhos do retratado que assiste a sua imagem ganhando formas, luzes e sombras dentro do revelador.

É uma relação de troca muito intensa que se estabelece. Perguntado sobre a reação das pessoas ao ritual analógico, Antonio Neto explica: “A experiência é completamente diferente principalmente a experiência temporal, os ajustes que levam muito mais tempo, o fato da exclusividade, por ser apenas 1 click, também é outro diferencial que faz a pessoa refletir”. O trabalho e dedicação que o fotógrafo direciona ao seu retratado é uma forma de mostrar deferência, de agradecer o fato de que este está oferecendo sua imagem.

Isso remonta à tradição dos estúdios fotográficos do século XIX e o mesmo espírito permanece até hoje. Sempre houve uma certa magia envolvendo o processo do retrato. Entrar em um ambiente que lembra um palco com suas luzes, onde a pessoa sabe que terá sua imagem, sua “semelhança” como se dizia na época, conduzida e capturada por um “mago” que domina a arte da luz utilizando um aparelho estranho, isso tudo tem muito de um evento quase místico.

Diferente da pintura em que um artista observa e “anota” as feições do seu retratado, na fotografia é a própria luz refletida por seu rosto que grava a imagem como se fosse um molde único daquela pessoa. É um molde tirado diretamente das feições do retratado . É nesse ponto que no digital quebra-se o encanto. O sensor é impassível quanto ao que está na frente da câmera. Ele não se transforma quando fotografa. É o mesmo para qualquer foto, qualquer rosto, objeto ou paisagem. Como o pintor, o sensor observa e anota o que viu, não em um papel ou tela, mas em um arquivo eletrônico. A luz do retratado não deixa suas marcas físicas. Ela é efêmera, apenas traduzida em uma sequência de bits.

A fotografia analógica tem essa característica que a torna passível de funcionar como as relíquias. Sua essência é a relação material que estabelece. Ela é exemplar de nossa complexa relação com os símbolos. Como as relíquias ela pode nos trazer a presença dos santos, das pessoas amadas ou também das temidas e até odiadas. O retrato da pessoa querida, gravado em filme, pertence ao território das gavetas com a mecha de cabelo, o lenço perfumado, as cartas de próprio punho ou a roupinha do batizado. Há algo de um sudário em toda fotografia analógica pois só ela é a marca física daquilo que retrata.

Wagner Lungov



Assista ao vídeo de apresentação da câmera Astoria 18×24 e do processo de estúdio que o Antonio Neto emprega em seus retratos:

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