Graflex Speed Graphic 23, the Baby | Graflex

Foi com a marca Graflex que a Folmer & Schwing Manufacturing Company tornou-se a maior fabricante de câmeras fotográficas profissionais nos Estatos Unidos. Entre 1905 e 1926 foi uma divisão da Eastman Kodak dedicada ao mercado premium e aproveitou o massivo poder de distribuição da empresa mãe para consolidar-se e ter significativa presença também na Europa.

Entre 1900 e 1920 foi a era da sua monoreflex em grande formato, a Graflex Auto. Ela oferecia, sobre as tradicionais view cameras, a vantagem de que o fotógrafo tinha uma imagem em tempo real e direita, invertida apenas lateralmente, e podia enquadrar, focar e disparar a qualquer instante pois somente uma fração de segundo, suficiente para o espelho girar e sair do caminho, o separava de sua grande foto.

Este conceito fez o sucesso e a fama da marca. Mas o crescimento da fotografia jornalística pressionou a indústria para câmeras mais rápidas e mais leves. Veio então a ideia de se adaptar o obturador de cortina da Graflex original em uma câmera sem o espelho, na qual o enquadramento poderia ser feito em um vidro despolido, quando a tomada da foto o permitisse, mas poderia também ser feito por um visor esportivo, wire frame (de arame), e o foco por um rangefinder (telêmetro). Foi assim que nasceu a série das Speed Graphic em 1912. Inicialmente para 4×5″. Havia também o 5×7″ mas este formato foi mais tarde descontinuado pela tendência à miniaturização que movia toda a indústria.

Foi ainda a tendência à miniaturização que fez com que em 1938 uma nova série das Speed Graphic fosse lançada e desta vez dando a dianteira ao formato 2¼ x 3¼” (57.15 x 82.55 em mm), pois a equivalente em 4×5″ veio apenas dois anos mais tarde em 1940.

Esta serie foi chamada de Speed Graphic Anniversary e trazia várias melhorias como um telêmetro lateral Kalart, drop bed em dois estágios para lentes mais angulares e sincronismo de flash. O formato 2¼ x 3¼” ficou conhecido como Baby.

Público das Baby Speed Graphic

Manuseando-se hoje uma Baby, ela não dá a impressão de ser uma câmera propriamente “leve e prática”. Mas é preciso se considerar o contexto da época para se entender que ela veio até como uma reação ao lançamento da Leica, esta sim uma câmera até hoje muito leve e prática.

O ponto é que é fato que a Leica fazia enorme sucesso na década de 1930, quando se consolidou como uma excelente câmera. Mas é fato também que encontrou resistência entre os fotógrafos profissionais e alguns editores de revistas até se recusavam a usar um negativo tão pequeno em suas publicações por conta do grão muito aparente do filme.

A Speed Graphic Baby seria neste contexto a Leica do profissional. Para quem ainda resistia a levar o filme 35mm a sério, e as emulsões da época não ajudavam muito, a Baby tinha várias características que ainda falavam com os dois mundos: formato mais generoso, possibilidade de se usar chapas ou rolo 120 com adaptadores, vidro despolido mas também um visor direto, telêmetro para foco preciso, velocidade até 1/1000s, enfim, ela tinha atrativos trazidos pela fotografia Leica, mas podia também ser usada no modo tradicional com tripé e pano preto.

Por estas características, digamos de transição, ela foi adotada por profissionais, sobretudo jornalistas mas também por um considerável número de amadores avançados para os quais esse hibridismo de poder fazer fotos instantâneas e também fotos cuidadosamente estudadas com a mesma câmera, era e ainda é um atrativo muito interessante.

Acima está o recibo de venda que também dá uma ideia sobre o posicionamento. A câmera de coleção foi vendida em maio de 1951 por Cr$ 8.000,00. Isso equivalia na época ao salário de um gerente ou profissional especializado de nível médio. Talvez algo como R$ 10.000,00 a R$ 15.000,00 reais ou 1,800 – $2,700 USD. Claramente era uma câmera premium para um público bem seleto. Este recibo ainda parece ser algo entre particulares e o preço de loja, por uma câmera nova, provavelmente seria ainda bem maior.

A Baby Speed Graphic

Este modelo da coleção é uma câmera fabricada entre 1947/48 de acordo com seu número de série. Ela tem corpo de madeira e as partes móveis em metal muito bem tratado tanto na usinagem como no acabamento.

Ela é equipada com uma Kodak Ektar com obturador T, B, 1s até 1/400, dando a possibilidade de se deixar de plano focal aberto e se usar apenas este já incorporado na lente. Isso é muito conveniente quando se usa flash eletrônico pois o sincronismo é mais flexível podendo ser feito em qualquer velocidade.

Na lateral direita, no corpo da câmera, está o controle do obturador de plano focal. É um obturador com apenas uma cortina que tem fendas de tamanhos variáveis em sequência. Conforme a fenda e a tensão da mola é dada a velocidade que pode ser lida em uma pequena janela. 1/30 s na foto acima. Isso pode confundir quem está acostumado a utilizar obturadores a duas cortinas com são todas as 35mm. Como neste caso a fenda está sempre aberta, se o obturador for rearmado ela passará sobre o filme e queimará a última foto. A sequência correta de operação é:

Com chassis
1- Iinsira o chassis com filme mas não retire a lâmina de proteção (dark slide).
2- Arme o obturador: Gire o botão de avanço até a velocidade desejada
3- Remova a lâmina de proteção
4- Faça a foto
5- Volte ao passo 1 para a próxima foto.

Com adaptador para filme 120
1- Insira o adaptador posicionado na primeira foto ou avance para próxima foto mas mantenha a lâmina de proteção (dark slide)
2- Arme o obturador: Gire o botão de avanço até a velocidade desejada
3- Remova a lâmina de proteção
4- Faça a foto e insira a lâmina de proteção novamente
5- Volte ao passo 1 para a próxima foto.

Vemos que não é assim tão prática quando uma câmera comum de obturador de plano focal. Este cuidado aumenta consideravelmente o tempo entre uma foto e outra.

Algumas facilidades de câmera de grande formato são possíveis com a Baby. Na página do manual, acima, vemos que é possível se inclinar a placa da lente (tilt lock nuts), pode-se também subir a placa da lente (rising front lock nuts) e também deslocamentos laterais (front standard lock). Os movimentos não são amplos mas resolvem os casos mais comuns.

Uma possibilidade que hoje é muito interessante com as Speed Graphic é a possibilidade de se usar lentes sem obturador como era o caso de muitas das antigas. Na foto acima ela está com uma Taylor, Taylor & Hobson – Cooke Anastigmat Series II que seria difícil de usar de outra forma. Ela tem focal 127 mm e abertura máxima f/4.5. Foi mesmo possível ajustar o telêmetro para que funcione com esta focal em vez dos 101 mm da Kodak Ektar original que veio com a câmera.

Sem descontinuar a Speed Graphic a Graflex lançou em 1947 a Crown Graphic. Basicamente, o novo modelo abriu mão do obturador de plano focal e ficou apenas com o obturador tipo leaf shutter que já vinha incorporado na lente. A Crown é mais leve e menor que a Speed, como se vê na foto acima. Uma boa razão para isso foi que sem a distância imposta entre filme e lente, pelo mecanismo do obturador de cortina, as Crown permitem o uso de lentes mais angulares até 65 m.

Muito típico de todas Speed e mais tarde Crown Graphic é o uso de flash bulbs. Como eles são muito potentes e permitem em distâncias moderadas se usar aberturas muito pequenas, a opção dos fotógrafos era colocar uma distância na escala do trilho e nem se preocupar em focar pelo rangefinder, contando apenas com a profundidade de campo. Isso resolvia o problema em muitos eventos sociais quando é preciso agir rápido.

Um ponto a se observar nas Crown ou Speed Graphic é que ela tem dois tipos de traseira, mostradas na foto acima. Enquanto que a da esquerda só permite se inserir o chassis tradicional entre o despolido e o corpo da câmera. A da direita, chamado Graflok back, permite que o back inteiro, com o vidro despolido, seja removido e em seu lugar instalado um adaptador para filmes 120.

Acima está o chassis, à direita da câmera, e o adaptador 23 Graphic que permite 8 fotos em formato aproximado de 6×9 cm. Existem também adaptadores para 6×6 cm e neste caso fazem 12 fotos e devem ser acompanhados de uma máscara para o visor que corrigem o enquadramento para o formato quadrado. São acessórios originais de Graflex e de ótima qualidade.

Acima um cartão que acompanha a câmera. Ele abre dizendo: “A Graflex está interessada em que você consiga os melhores resultados fotográficos de que a sua câmera é capaz”. É interessante se observar que há implicitamente uma certa dúvida de que o fotógrafo está à altura de todas as maravilhas que a câmera oferece. Mas … tudo bem. De qualquer forma o cartão segue oferecendo uma revisão grátis no primeiro ano para limpeza e ajuste do equipamento. Um cuidado muito simpático da parte do fabricante.

Uma experiência

Uma das fotos mais famosas dentre as muitas feitas com um obturador do tipo de plano focal em grande formato é a da corrida de automóveis em que a roda ficou ovalada por conta de que uma pequena fresta correu verticalmente em frente ao filme enquanto o carro corria na horizontal.

Jaques Henri Lartigue

Resolvi fazer a experiência com a Baby Speed. Ajustei para que a menor fresta do obturador fosse utilizada e fiquei na ruas fotografando motos que passavam.

Não é fácil. O máximo que consegui foi o resultado abaixo onde o oval é perceptível mas pouco expressivo. Ainda algo a se aperfeiçoar. Mas dá para se notar que a coisa funciona.

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