Panoram | Eastman Kodak
Imagens panorâmicas, abarcando um ângulo muito grande de uma cena, sempre foram muito queridas desde que as paisagens em geral entraram na história da pintura por volta do século XVI. Assim que a fotografia se tornou uma nova possibilidade para a produção de imagens, o gênero fotografia panorâmica foi imediatamente desenvolvido. Já na década de 1840 foram produzidas fotos panorâmicas como esta abaixo mostrando o rio Sena passando pela cidade de Paris.

Tipos de câmera
Basicamente existem 3 modos para se fazer uma foto panorâmica:
1 – Montagem
Várias fotos são realizadas com uma lente normal e montadas em sequência
2 – Grande Angular
Utiliza-se uma lente com ângulo de visão muito grande, geralmente acima de 90º, e cortam-se duas faixas acima e abaixo para deixar o formato panorâmico que é sempre muito alongado.
3 – Objetiva giratória
Neste caso o filme é fixado em um arco de círculo e a objetiva projeta a imagem em um modo de varredura ao girar sobre um eixo posicionado sobre o ponto nodal da lente.
Cada um desses métodos tem suas características e dão resultados muito diferentes. Para ver uma discussão detalhada mostrando e explicando essas diferenças, veja o artigo sobre uma outra panorâmica, a Horizont da KMZ.
Kodak Panoram 4D

O conceito da Kodak Panoram é o de uma câmera com objetiva giratória. Ela produz negativos no impressionante formato 3½ x 12″ ( 88,9 x 304,8 mm) e abarca um ângulo de 142º.
A lente
A Panoram No. 4 foi produzida em duas «eras óticas» distintas: Na era inicial, 1899–1902, as Panoram vinham equipadas com uma lente Rapid Rectilinear, que é uma lente com 4 elementos em dois grupos iguais e simétricos. Na era, 1902–1924, a Kodak mudou para a Meniscus em quase todos os modelos de produção padrão. O menisco é uma lente simples, apenas um elemento que é côncavo de um lado e convexo no outro.
Porquê a mudança para um modelo inferior? Era uma questão de redução de custo, mas com algumas atenuantes no caso das panorâmicas. O sistema da lente giratória é inerentemente tolerante. Como a lente varre o filme enquanto gira, todas as partes da imagem são capturadas usando apenas o centro da lente. A maior fraqueza da Meniscus — bordas distorcidas — é fisicamente contornada porque as bordas da lente nunca “veem” o filme. Ao usar os 10% centrais de uma lente menisco, a Kodak alcançou resultados “aceitavelmente nítidos” por uma fração do custo.
Quanto à curvatura de campo, temos aí uma outra vantagem inerente ao conceito da câmera. Em uma câmera normal, uma lente menisco sofre com a curvatura de campo (o foco fica em uma forma de concha, em vez de um plano como é o filme). Numa câmara box padrão, isso é uma falha. Na Panoram, o filme já é mantido num arco curvo. A geometria “ruim” da lente menisco, na verdade, se adapta muito bem à curva física do verso do filme da Panoram. Foi um caso de dois «erros» que resultaram em um “acerto”.
O mecanismo para girar a lente

Acima está o desenho da patente da Panoram. Na Fig.3 vemos claramente a lente e o cone achatado que faz o corte na imagem para que apenas uma fresta seja exposta enquanto o mecanismo gira a lente.
É claro que é muito importante que a velocidade de varredura seja constante em todo o percurso e a maneira como isso é garantido é muito engenhosa. Infelizmente é também pouco intuitiva para ser explicada, mas a ideia básica é que a mola indicada como nº 43 fica levemente descentrada em relação ao eixo que gira a haste dentada nº 45 e por isso tem uma deformação que varia pouco ao longo do percurso oferecendo assim um torque constante. O resultado é que, ao ser acionado o disparador, a lente faz um giro muito suave e sempre igual. Duas velocidades são possíveis conforme a pressão que se dá à mola. Ela expõe uma foto em um sentido e pode ser armada para expor outra fazendo o caminho inverso, como pode ser visto abaixo. Mas note que entre uma ida e volta da lente o filme precisa ser avançado ou será produzida uma dupla exposição.

Interior da câmera

A câmera se abre nas laterais e na traseira. O corpo é todo em madeira trabalhada com encaixes para vedar a luz. O filme é colocado em uma curva de 142º que é bem visível na foto acima e em outro desenho da patente, reproduzido abaixo onde se vê também claramente a posição dos rolos de filme.
Há um brilliant finder no topo da câmera mas ele serve apenas se decidir o que irá no centro da imagem, as suas bordas são estimadas pois o visor não cobre todo o campo. Há também um nível de bolha que é item mandatório em uma panorâmica pois se ela estiver inclinada em qualquer sentido a imagem se deforma bastante.

Kodak Panoram em uso
Fotografar hoje com a Kodak Panoram 4D fica muito difícil pois não há mais filmes em rolo que possam substituir o 103. A alternativa é carregar filme em chapa, mas isso precisa ser feito no escuro e não é fácil se encaixar e fixar o filme no lugar certo. Sem a possibilidade de se carregar mais de uma chapa por vez, é possível se fazer apenas uma única foto e voltar para o laboratório torcendo para que tenha dado tudo certo e carregar outra.
Uma alternativa seria adaptar a câmera, através de uma máscara que acompanhe a curvatura, para usar filme 120. Mas isso implica em reduzir a altura do quadro de, aproximadamente, 9 para 6 cm cortando muito da cena e reduzindo-a apenas à sua faixa central. Alem disso, dado o tamanho enorme do quadro com aproximadamente 30 cm, com um filme 120 daria para se fazer apenas duas fotos e “meia” nos seus 850 mm. O ideal seria o filme 220 que é o dobro do 120, mas este não é mais fabricado.

A alternativa que eu experimentei e que deu certo foi colocar filme de Raio X simplesmente preso com fita adesiva nas duas extremidades. O bom é que isso pode ser feito com luz vermelha no laboratório. O ruim é que esse tipo de filme tem emulsão dos dois lados e então é muito fácil de riscar se for revelado em bandeja. A solução que eu encontrei foi produzir o acessório da foto acima em uma impressora 3D. Com ela eu posso colocar os banhos em sequência em uma bandeja e ir girando lentamente o filme que não toca e nem é tocado em ponto algum.
As fotos abaixo foram realizadas com ela utilizando-se o filme de raio-x Fuji HR exposto como ISO 100.
Abaixo, uma propaganda das Panoram que eram oferecidas em duas versões, nº1 para fotos em 2¼ x 7″ e nº4 para 3½ x 12″. Interessante notar a observação: “Não adaptada para utilização em interiores”. Realmente, com o menisco oferecendo apenas f/11, com a velocidade equivalente a algo como 1/25s e mais os filmes daquela época, somente em externas e preferencialmente em dias claros é que seria possível se fotografar.




