Musée Nicéphore Niépce

Embora não haja dúvidas que o daguerreótipo, anunciado ao mundo em 1839, foi o primeiro processo fotográfico comercialmente bem-sucedido, aceita-se que a imagem acima é a fotografia mais antiga que temos hoje. Essa é a vista de uma janela conhecida como Gras à Saint-Loup de Varennes de Nicéphore Niépce – 1827. Hoje, está na Universidade de Austin – Texas – EUA. A imagem à esquerda é a aparência real da placa, à direita é uma renderização dessa imagem destinada a uma leitura fácil, sem reflexão metálica e muito mais contraste.

O Museu Nicéphore Niépce, em Shalon sur Saône, 4/5 horas de carro ou trem à sudeste de Paris, dá uma visão completa dos últimos passos que levaram à invenção da fotografia. Nicéphore é até hoje constantemente apresentado como injustamente relegado a um papel menor na descoberta da fotografia, enquanto nomes como Daguerre, Talbot e Herschel são considerados os verdadeiros inovadores. Essa é uma reivindicação antiga. Em 1867, o principal biógrafo de Niépce, Victor Fouque, publicou La vérité sur l’invention de la photographie, Nicéphore Niépce, sa vie ses essais, ses travaux  (A verdade sobre a invenção da fotografia, Nicéphore Niépce, sua vida, seus experimentos, suas obras). O título transmite abertamente esse ar de denúncia, de algum mal ou conspiração contra Nicéphore e é de fato nessa linha que o autor desenvolve seu argumento.

Visitando o museu, entendemos muito bem a contribuição de Nicéphore e fica claro que ela foi de fato fundamental. Mas isso não diminui a parte de Daguerre nem o torna culpado por sua insistência em nomear o novo processo com seu nome apenas, o daguerreótipo. Mais do que isso, os percurso da visita nos convida a pensar o advento da fotografia de uma perspectiva muito ampla ao invés de disputas entre seus fundadores. Felizmente, os curadores tiveram essa visão em mente ao configurar o conceito do museu.

O museu

Localizado no coração de Chalon sur Saône, cidade onde Nicéphore nasceu, faz frente para o rio Saône, em um local muito bonito, com uma ilha bem à sua frente. Lá, vemos um pequeno jardim com uma íris fotográfica e Niépce escrito com flores. 

A primeira sala, fotografia e suas formas

A primeira sala mostra a fotografia de muitas perspectivas diferentes. Como podemos ler no site do museu: “A ambição do museu Nicéphore Niépce é explicar os conceitos básicos de fotografia, da invenção por Niépce até a imagem digital de hoje”. Esse objetivo é perseguido ligando equipamentos, história, imagens e atores-chave na indústria fotográfica: público, fotógrafos, fabricantes, imprensa, indústria do entretenimento, etc.

A primeira peça é uma grande câmera de estúdio. Demonstra o princípio de formação da imagem que pode ser inspecionado no vidro despolido. O círculo na parede de trás também é uma imagem formada por uma lente voltada para uma praça em um dos lados do museu.

Aqui está uma cópia da primeira câmera fotográfica projetada para retratos usando a lente Petzval desenhada logo após a invenção da fotografia e com abertura aproximada f4. As originais foram construídas por Voigtlander em Viena. Apenas algumas sobreviveram até nossos dias. 

A complexidade da criação de imagens no sentido de: o que é afinal semelhança? Ou, o que seria uma verdadeira simulação de uma experiência visual? É abordada quando vemos tentativas de se obter, por exemplo, imagens tridimensionais. A máquina acima era capaz de girar em torno do assunto e tirar fotos de diferentes ângulos. Essas fotos eram posteriormente montadas em um único suporte plano e uma camada de micro prismas permitia que apenas uma imagem de cada vez seja vista, de acordo com o ângulo de visão, dando a impressão de que o espectador estava caminhando em torno de um objeto real. O efeito é divertido, mas não convincente. Isso foi usado mais tarde para lembrancinhas e outras bugigangas.

A paisagem na fotografia panorâmica era outra maravilha, pois se podia navegar pelos detalhes e abraçar um ângulo de visão maior do que o olho humano pode normalmente abarcar. O equipamento desenvolvido para o efeito era normalmente baseado em uma lente rotativa e amostras de câmeras são exibidas na vitrine.

A relação da fotografia com o cinema é lembrada através da imprensa especializada que surgiu após a primeira Guerra Mundial e contribuiu tremendamente na criação de novos padrões de estética e comportamento tornando-se um verdadeiro repositório mitológico da nossa era.

Uma vitrine para a Leica, verdadeira revolução no fotografar introduzida em 1925. Ela aparece pequena no canto esquerdo, à direita está ampliador Focomat que fazia parte do sistema.

Rolleiflex, outra câmera a marcar época, rodeada por uma série de fotografias no seu característico formato quadrado em 6×6 cm, impressas por contato.

O papel dos fabricantes de filmes em abastecer o desejo das massas de gravar suas memórias também é abordado neste painel, com uma imagem de um balcão de laboratório fotográfico, publicidade em revistas, além de painéis Kodak e Agfa utilizados para indicar pontos de venda. A explosão do consumo da fotografia não pode ser vista como apenas uma indústria satisfazendo uma demanda por imagens. Foi com certeza um movimento complexo envolvendo muitos aspectos diferentes da tecnologia, estruturas de varejo, de propaganda e a formação de uma cultura orientada às imagens como forma de enxergar a si própria. Nossa era digital provavelmente ainda é um desenrolar dessa transformação seminal.

Em suma, estes são apenas alguns destaques e esta sala de entrada funciona como um estímulo à reflexão. As peças históricas e os textos de parede abrem várias portas ao dar muitas pistas para nos aprofundarmos.

Joseph Nicéphore Niépce

Subindo ao primeiro andar, descobrimos como tudo começou. Mas antes de qualquer detalhe sobre a contribuição de Nicéphore Niépce para a criação da fotografia, é importante nos determos um pouco sobre a sua vida. Ele nasceu de uma família rica e de origem burguesa, mas tendo já alguns privilégios que somente uma família nobre normalmente teria. Seu pai era advogado do tribunal, conselheiro do rei e encarregado de assuntos de governo em Chalon-sur-Saône. O que atesta  na prática que  possuíam algum status nobre é o fato de que a família teve que se dispersar e se esconder durante a Revolução Francesa. O próprio Nicéphore escolheu uma carreira militar no exército – isso foi logo após a morte de seu pai em 1792 (ele tinha 27 anos). Seu irmão, Claude, fez o mesmo na marinha. Foi parte de uma estratégia para distrair a atenção das conexões aristocráticas da família. Mas nem ele nem seu irmão tinham qualquer vocação militar e ambos abandonaram a carreira quando as coisas esfriaram. Ambos voltaram a Chalon para viver na confortável casa onde nasceram. A revolução levou uma grande parte da fortuna da família, mas o que restou ainda era suficiente para continuar vivendo uma boa vida como parte da élite chalonaise.

O que é interessante nesta breve recapitulação de alguns fatos da vida de Nicéphore Niépce, é destacar como ele encarnava todas as ambiguidades de seu tempo. Ele, como burguês, definiu-se como um empreendedor. Porém, uma vida de “homem de negócios” era algo que ele realmente não poderia suportar, isso seria muito mundano para alguém refinado e cultivado como ele. A carreira militar, a mais enraizada de todas as vocações aristocráticas, também não era o seu talento. Tornar-se um diletante vivendo no isolamento foi então sua escolha. Isso iria mantê-lo longe das universidades, longe da corte e longe dos centros de negócios, longe de todos os tipos de ambientes competitivos, bem de acordo com sua aversão à vida social. Sua escolha era para uma busca solitária, semi-científica, de novas tecnologias, que nunca seriam desenvolvidas completamente – a essa busca ele dedicou sua vida. Descobrimos em Nicéphore Niépce, muito mais um homem do Romantismo que do Iluminismo.

Chambre de la Découverte – Câmera da descoberta

Logo que subimos ao primeiro andar do museu, encontramos uma sala dedicada exclusivamente às obras de Niépce. Ele se sentiu atraído pelo asunto das imagens quando aprendeu sobre a litografia. O processo havia sido recentemente inventado e em 1810 o primeiro tratado sobre o tema foi publicado em Stuttgart. Isso provocou uma rápida disseminação por toda a Europa. Georges Potonniée, em sua Histoire de la Découverte de la Photographie (p.84) dá um certo ar de modismo elegante  à novidade: “em 1813, as pessoas cultivadas estavam fazendo litografias, Niépce, como as outras. E essa descoberta, que ele viu como maravilhosa, causou-lhe uma profunda impressão”. Interessado como ele era sobre processos industriais, Niépce estabeleceu o problema de chegar a um desenho feito espontaneamente por “forças naturais”. Esse foi o motor e a primeira concepção de seu projeto.

Um sucesso preliminar foi alcançado utilizando um revestimento de betume da Judéia como uma superfície sensível à luz sobre uma placa de metal. Os artistas costumavam cobrir placas de cobre com betume e a seguir raspavam-nas com um instrumento afiado expondo o metal. Em seguida, eles usavam um ácido que comia o metal e gravava o desenho. O último passo era a remoção do betume, aplicação de tinta de impressão sobre placa, a qual se acumulava nos sulcos corroídos pelo ácido, e estampagem final sobre papel, reproduzindo dessa forma o desenho. A ideia de Niépce foi modificar este processo observando que o betume torna-se menos solúvel após a ação da luz. Em vez de arranhar, ele colocou gravuras impressas em papel sobre o revestimento de betume e os expos à luz solar. O papel branco era tornado transparente através da aplicação de ceras e óleos. A parte impressa funcionava como uma barreira para a luz. Em seguida, ele lavou as partes não expostas que ainda eram solúveis e o betume permanecia como o desenho gravado pela luz. O resto do processo consistia em aplicar o ácido, que iria corroer as partes escuras, não expostas do desenho original, e usar a placa metálica como matriz para impressão de gravuras. Ele chamou esse processo de Heliografia.

À esquerda, vemos uma amostra bem preservada dessa fase, exposta no Museu Nicéphore Niépce. Isso é de 1826, feito sobre uma placa de estanho, e representa o Cardeal Georges d’Amboise. A de cima  é a gravura em papel feito transparente e retroiluminado, no meio temos a placa de metal e na parte inferior uma impressão final. Niépce enviou a placa para ser impressa em Paris pelo renomado gravador Lemaître. Este precisou reforçar os sulcos pois a ação do ácido apenas não fora suficiente para retenção da tinta de impressão.

Acima, uma das câmeras escuras usadas por Niépce. Ele esperava uma espécie de efeito de impressão direta (não havia o conceito de revelador para uma imagem latente) e então perfurava dois buracos, normalmente fechados com rolhas, para permitir uma observação em tempo real do desenvolvimento da imagem. Ele usou uma lente de tipo Wollaston que era um simples menisco oferecendo f11 ou f16, o que significa uma imagem muito escura. Seu primeiro sucesso, ainda existente, na captura de uma imagem com uma câmera escura é a imagem que abre este artigo, a fotografia data de 1827 e exigiu uma exposição de 12 horas. Niépce sabia que esse tempo de exposição não era praticável e então decidiu pesquisar outras substâncias sensíveis à luz para substituir o betume. O problema não era sobre como obter uma imagem, mas como fixa-la, como remover as partes que não eram expostas. As amostras com outras substâncias sensíveis já conhecidas, como os sais de prata, mostravam algo quando removidas da câmera, mas as sombras continuavam a escurecer devido à ação da luz ambiente.

Niépce experimentou com muitas substâncias diferentes, particularmente ele teve uma grande esperança sobre o uso do fósforo, mas nunca obteve resultado algum. Se pensarmos em combinações de suportes como estanho, cobre, lata, prata … substâncias sensíveis à luz como betume, fósforo, iodo, em revelação ou diluição com diferentes óleos, ácidos, ou o que for, além de diferentes tempos e concentrações, para todos esses processos, nós podemos inferir que Niépce empregou milhares e milhares de horas em suas experiências na base de erros e acertos. Não havia uma base teórica ou um modelo, era apenas na tentativa e erro.

No final dos anos vinte, ele estava convencido de que a qualidade das imagens produzidas por sua câmera escura era um problema. Em 1826, ele pediu a seu primo, que estava indo para Paris, para lhe trazer várias lentes de Vincent e Charles Chevalier, reconhecidos ópticos naqueles tempos (Fouque p117).  Foi assim que Charles Chevalier conheceu a natureza e os resultados das pesquisas realizadas por Niépce, e parece que foi Charles Chevalier que estabeleceu contato entre Niépce e Louis Daguerre.

Esta câmera, exibida no museu, foi dada a Niépce por Daguerre como parte do acordo de cooperação.

Mas a colaboração não durou muito. Niépce morreu em 1833 com 68 anos e seu filho Isidore assumiu sua parte no contrato (Daguerre tinha então 46 anos). Mas outros desenvolvimentos foram conduzidos por Daguerre e, como sabemos, seu nome sozinho seria o primariamente laureado com a glória pela descoberta da fotografia.

A linha em que Daguerre continuou a partir de suas trocas com Niépce foi a ideia de usar suporte metálico. Havia aí uma relação com a gravura, de burin ou água forte, na qual a matriz é metálica. Apenas queriam substituir o trabalho manual pela ação da luz. As pesquisas dos dois foram muito importantes e principalmente o Daguerreótipo teve um sucesso comercial enorme. Mas foi logo abandonado em favor de processos negativo/positivo usando papel/papel e vidro/papel como suportes.

Se você quiser conhecer mais em detalhes o desenvolvimento do Daguerreótipo leia o artigo: As contribuições de Niépce e Daguerre

E a visita continua

Ao prosseguir para as salas seguintes, temos exemplos sobre as mudanças rápidas que aconteceram logo após a descoberta, durante as primeiras décadas da fotografia. Muitas imagens em técnicas novas ou modificadas nas quais podemos perceber a mudança de atitude das pessoas posando para fotos, pois finalmente elas puderam relaxar mais com tempos de exposição mais curtos. Era uma nova imagem e novas formas de registrar memórias individuais e coletivas.

Difícil de avaliar qual foi a sensação causada pelo equipamento e procedimentos da fotografia. Pareceria de alta tecnologia no mesmo sentido que a alta tecnologia tem hoje para nós? A madeira, o bronze e a vidraria eram muito parecidos com instrumentos científicos de então, mas parecia-se também com a aparelhagem dos alquimistas. Complicado adivinhar o quanto tinha de uma atração de circo ou de um ambiente mágico ou até esotérico.

***

Visitei muitos museus relacionados à fotografia, mas o Musée Nicéphore Niépce em Shalon sur Saône é o que, de longe, gostei mais. É como um discurso aberto, exatamente o que acredito que um museu deva ser. Não é uma visão individual editada por um curador, nem uma coleção de inventário antigo angariado indiferentemente ao longo dos anos. Eu recomendo vividamente a qualquer pessoa uma visita.

Sala de exposições com outras pinturas de Yan Pei-Ming
Bookstore – Recomendo muito o DVD de Michel Frizot sobre Nicéphore Niépce.

3 Comentários

  1. Encantado com a sabedoria questionadora do autor! Amei ler este artigo e conhecer com mais profundidade o histórico das motivações para a criação da fotografia e sua relação com a ciência e o Iluminismo. Incrivelmente esclarecedor e encantador.

    1. Obrigado, Shanti por suas palavras animadoras. Só por curiosidade, como que você chegou nesse post? Eu pergunto pois hoje acho que fiz mal de colocar essa digressão sobre o nascimento da fotografia dentro do post sobre o Museu Nicéphore Niépce. Ela ficou meio escondida. Vou ver se a replico em algum outro lugar no site de forma independente, como um post à parte.

  2. Wagner! Agradeço muito por ter me convidado a ver esse post! Finalmente encontrei o que procurava nos livros teóricos (e não encontrei): esse vínculo entre a história da fotografia e a ciência, aqui com sua reflexão sobre a relação com o Iluminismo. Sua digressão me fez ganhar o dia! Muito grata <3

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