As contribuições de Niépce e Daguerre

Já faz um bom tempo que se admite que a chegada da fotografia foi uma espécie de obra coletiva. Muitas pessoas, de muitos lugares do mundo, deram suas contribuições para os primeiros passos e principalmente para os desenvolvimentos subsequentes dos procedimentos, que também foram múltiplos. Porém, impossível negar que dois personagens tiveram papeis centrais: Nicephore Niépce e Louis Daguerre. Eles se associaram em busca de uma técnica, um procedimento, para o registro permanente das imagens da camara obscura.
Apesar de terem trabalhado juntos, buscando o mesmo objetivo. eles representam dois mundos muito diferentes e que até hoje se estranham. Observar as motivações e posturas de cada um deles nos esclarece muito o que significou afinal a invenção da fotografia.
Nicephore Niépce
Nasceu de uma família rica e de origem burguesa, mas possuindo já alguns privilégios que somente uma família nobre normalmente teria. Seu pai era advogado do tribunal, conselheiro do rei e encarregado de assuntos de governo em Chalon-sur-Saône. Nessa época, podemos dizer que dois tipos de aristocracia conviviam na França. Uma era de origem remontando a tempos medievais, cavaleiros, cujos ancestrais invariavelmente foram guerreiros e proprietários de grandes domínios agrários. A outra era composta de famílias da alta burguesia que receberam títulos de nobreza outorgados pelo rei e contribuíram mais nos papéis administrativos que propriamente militares (apenas Luis XIV distribuiu títulos de nobreza a 20 mil famílias). Mais ecléticos e mais numerosos que os aristocratas tradicionais, estes prestavam-se muito bem para atuar como funcionários públicos administrando castelos, aduanas, portos, possessões, patrimônios e obras da coroa. Eles tinham competências em profissões liberais e de negócios, além das armas, esta que era praticamente a única competência exigida de um aristocrata tradicional. A família de Nicéphore Niépce pertencia a esta segunda categoria.
O que atesta na prática que a família de Nicéphore possuía algum status nobre é o fato de que teve que se dispersar e se esconder durante a Revolução Francesa quando boa parte da corte foi para a guilhotina. O próprio Nicéphore escolheu uma carreira militar no exército – isso foi logo após a morte de seu pai em 1792 (ele tinha 27 anos). Seu irmão, Claude, fez o mesmo na marinha. Foi a estratégia para distrair a atenção das conexões aristocráticas da família. Mas nem ele nem seu irmão tinham qualquer vocação militar e ambos abandonaram a carreira quando as coisas esfriaram. Ambos voltaram a Chalon para viver na confortável casa onde nasceram. A revolução levou uma grande parte da fortuna da família, mas o que restou ainda era suficiente para continuar vivendo uma boa vida como parte da élite chalonaise.
Nicéphore e Claude receberam uma educação de alto nível no seminário Peres de la Congregation de l’Oratoire e tiveram até mesmo um tutor privado como complemento. Esta educação sólida foi com certeza importante para que os irmãos se decidissem formar uma parceria dedicada a invenções e novas tecnologias. O clima era muito favorável. A mentalidade naquele tempo era toda sobre ciência, pesquisa, novas máquinas e descobertas como meios para chegar ao bem-estar geral na sociedade, longe da tutela da aristocracia e da igreja. Os dois irmãos se lançaram em alguns projetos e, entre eles, o mais famoso e admirável, foi um motor de combustão interna que chegou a impulsionar barcos experimentais em Bercy – Paris, no rio Sena. O projeto foi elogiado, visto como muito promissor e obteve uma patente por um decreto napoleónico, mas … eles nunca conseguiram ganhar dinheiro com isso. Claude mudou-se para Londres para vendê-lo – motivado pelo fato de que o que viria a ser chamado de Revolução Industrial, estava mais acelerada na Inglaterra e novas máquinas normalmente atraiam muito interesse. Mas nem mesmo com investidores ingleses foi possível iniciar qualquer negócio com o Pyreolophore – nome que deram a sua invenção.

A longa estadia de Claude em Londres (1817 a 1828) significou nova queda nas condições financeiras da família. Em 1827, Nicéphéore também decidiu ir a Londres onde encontrou seu irmão muito doente e soube que nunca houve progresso algum com o projeto Pyreolophore. Claude morreu em 1828.
Primeiras experiências com a fotografia
Um segundo propósito na viagem de Nicéphore a Londres foi relacionado a suas experiências com o que mais tarde seria chamado fotografia. Depois de alguns sucessos em sensibilizar com betume placas metálicas para impressão por contato utilizando a luz solar, Nicéphore pretendia submeter seus resultados à Royal Society of London. Lá ele conheceu Francis Bauer, que era secretário da Sociedade, explicou-lhe o que havia feito, o que pretendia e foi solicitado a escrever um relatório. Lendo seu relatório, (Fouquet p.149) é fácil perceber que sua abordagem não era muito vendedora. Primeiro, ele passa por todas as deficiências de sua técnica, todos os problemas ainda não resolvidos, suas incertezas sobre materiais ainda não testados, faz segredo sobre os procedimentos que utiliza, e então declara que não queria dar nenhuma vantagem à Inglaterra em detrimento de qualquer outro país e que ele estava lá apenas para obter a opinião dessa instituição de prestígio e salvaguardar por uma apresentação pública o reconhecimento da sua prioridade na descoberta. Bem, não é de admirar, ele não conseguiu ser aceito para apresentar sua invenção em nenhuma das reuniões da Royal Society. Ele trouxe amostras de suas fotografias, feitas em placas de metal, causou admiração em seus interlocutores, mas sigilo demais sobre o processo e a falta de uma proposta clara, provavelmente não criaram a reação desejada.
O que é interessante nesta breve recapitulação sobre alguns fatos da vida de Nicéphore Niépce, é destacar como ele encarnava todas as ambiguidades de seu tempo. Ele, como burguês, definiu-se como um empreendedor destinado a ganhar dinheiro. Porém, uma vida de negócios era algo que ele realmente não poderia suportar, isso seria muito mundano para alguém refinado e cultivado como ele era. A carreira militar, a mais enraizada de todas as vocações aristocráticas, também não era o seu talento. Tornar-se um diletante vivendo no isolamento foi então sua escolha. Isso iria mantê-lo longe das universidades, longe da corte e longe dos centros de negócios, longe de todos os tipos de ambientes competitivos, bem de acordo com sua aversão à vida social. Sua escolha era para uma busca solitária, semi-científica, de novas tecnologias, que nunca seriam desenvolvidas completamente – a essa busca ele dedicou sua vida. Descobrimos em Nicéphore Niépce, muito mais um homem do Romantismo que do Iluminismo.

A ideia de fotografia
Niépce se sentiu atraído pelo assunto das imagens quando aprendeu sobre a litografia. O processo havia sido recentemente inventado e em 1810 o primeiro tratado sobre o tema foi publicado em Stuttgart. Isso provocou uma rápida disseminação por toda a Europa. Georges Potonniée, em sua Histoire de la Découverte de la Photographie (p.84) dá um certo ar de modismo elegante à novidade: “em 1813, as pessoas cultivadas estavam fazendo litografias, Niépce, como as outras. E essa descoberta, que ele viu como maravilhosa, causou-lhe uma profunda impressão”. Interessado como ele era sobre processos industriais, Niépce estabeleceu o problema de chegar a um desenho feito espontaneamente por “forças naturais”. Esse foi o motor e a primeira concepção de seu projeto.

Um sucesso preliminar foi alcançado utilizando um revestimento de betume da Judéia sobre uma placa de metal como superfície sensível à luz . O processo assemelhava-se à gravura por água-forte. Os artistas costumavam cobrir placas de cobre com betume e a seguir raspavam-nas com um instrumento afiado, o buril, expondo linhas e padrões no metal. Em seguida, eles usavam um ácido que comia o metal e gravava o desenho. O último passo era a remoção do betume, aplicação de tinta de impressão sobre placa, a qual se acumulava nos sulcos corroídos pelo ácido, e estampagem final sobre papel, reproduzindo dessa forma o desenho.
A ideia de Niépce foi modificar este processo observando que o betume torna-se menos solúvel após a ação da luz. Em vez de arranhar, ele colocou gravuras impressas em papel sobre o revestimento de betume e os expos à luz solar. O papel branco era tornado transparente através da aplicação de ceras e óleos. A parte impressa funcionava como uma barreira para a luz. Em seguida, ele lavou as partes não expostas que ainda eram solúveis e o betume permanecia. Era assim um desenho gravado pela luz. O resto do processo consistia em aplicar o ácido, que iria corroer as partes escuras, não expostas do desenho original, e usar a placa metálica como matriz para impressão de gravuras. Ele chamou esse processo de Heliografia.
À esquerda, vemos uma amostra bem preservada dessa fase, exposta no Museu Nicéphore Niépce. Isso é de 1826, feito sobre uma placa de estanho, e representa o Cardeal Georges d’Amboise. Ao alto temos a gravura em papel feito transparente e retroiluminado, no meio temos a placa de metal e na parte inferior uma impressão final. Niépce enviou a placa para ser impressa em Paris pelo renomado gravador Lemaître. Este precisou reforçar os sulcos pois a ação do ácido não fora suficiente para retenção da tinta de impressão.
Se Niépce fosse um empresário querendo fazer dinheiro, teria percebido a excelente oportunidade que a reprodução foto-mecânica de imagens representava para um novo negócio. Ele teria então lançado no mercado o que já havia conseguido em 1826. Mas a luz filtrada por um desenho feito à mão não era a luz que ele tinha em mente. Então ele seguiu sem trégua para o próximo passo, que seria sobre como gravar a imagem da câmera escura.

Museu Nicephore Niépce – Chalon-sur-Saône.
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Inscrição: “Câmera escura que serviu a M. Niépce para seus primeiros experimentos. Os buracos, fechados com rolhas, permitiam-lhe inspecionar o progresso da operação”.
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Acima, uma das câmeras escuras utilizadas por Niépce. Ele esperava uma espécie de efeito de impressão direta (não havia o conceito de revelador para uma imagem latente) e então perfurava dois buracos, normalmente fechados com rolhas, para permitir uma observação em tempo real do desenvolvimento da imagem. Ele usou uma lente de tipo Wollaston que era um simples menisco oferecendo f11 ou f16, o que significa uma imagem muito escura. Seu primeiro sucesso, ainda existente, na captura de uma imagem com uma câmera escura é a imagem abaixo, uma vista de sua janela, a fotografia data de 1827 e exigiu uma exposição de 12 horas.

Gras à Saint-Loup de Varennes de Nicéphore Niépce – 1827
Universidade de Austin – Texas – USA.
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Lente tipo Wollaston – 1804 – a direção da luz é da esquerda para a direita
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Na verdade, a invenção da fotografia foi muito a invenção de meios para fixar a imagem fotográfica. O princípio de usar uma imagem formada por uma lente e uma superfície sensibilizada à luz era conhecido de longa data. Difícil de rastrear o primeiro a experimentar o efeito. O inglês Thomas Wedgwood (1771-1805) já em 1802 havia realizado testes nesse sentido, porém, “as imagens formadas por meio de uma câmera escura foram muito fracas para produzir, em qualquer tempo moderado, um efeito sobre o nitrato de prata. Copiar essas imagens foi o primeiro objeto do Sr. Wedgwood em suas pesquisas sobre o assunto, e para este propósito ele usou pela primeira vez o nitrato de prata, que lhe foi mencionado por um amigo, como uma substância muito sensível à influência da luz, mas todas as suas numerosas experiências quanto ao seu objetivo final não foram bem sucedidas”(Eder p137). Ainda assim, o que Wedgwood estava fazendo pode muito bem ser chamado de fotografia. O que ainda faltava em suas experiências era algo para aumentar a sensibilidade e depois um fixador.
Contato com Daguerre
Voltando a Niépce, ele experimentou com muitas substâncias diferentes, particularmente ele teve uma grande esperança sobre o uso do fósforo, mas nunca obteve resultado algum. Se pensarmos em combinações de suportes como estanho, cobre, lata, prata … substâncias sensíveis à luz como betume, fósforo, iodo, em revelação ou diluição com diferentes óleos, ácidos, ou o que for, além de diferentes tempos e concentrações, para todos esses processos, nós podemos inferir que Niépce empregou milhares e milhares de horas em suas experiências na base de erros e acertos. Não havia uma base teórica. Ele não era um cientista de fato.
No final dos anos vinte, ele estava convencido de que a qualidade das imagens produzidas por sua câmera escura era um problema. Em 1826, ele pediu a seu primo, que estava indo para Paris, para lhe trazer várias lentes de Vincent e Charles Chevalier, reconhecidos ópticos naqueles tempos (Fouque p117). Foi assim que Charles Chevalier conheceu a natureza e os resultados das pesquisas realizadas por Niépce, e parece que foi Charles Chevalier que estabeleceu contato entre Niépce e Louis Daguerre.

Exibição de um Diorama
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Daguerre era um artista, pintor e empresário trabalhando em uma espécie de negócio de entretenimento, o Diorama, que era um grande sucesso em Paris. Consistia em uma cenografia que era iluminada pela frente e por trás, com peças móveis, combinação de objetos reais de cena com panos de fundo e o efeito era poder simular ambientes com uma aurora, horas do dia, o por do sol e outros efeitos de luz. Seria o que hoje chamamos de uma experiência imersiva.
Em seu História da Fotografia, Josef Maria Eder, cita uma descrição detalhada de uma sessão de diorama. Trata-se de um café da manhã em um cenário campestre:
Ali não havia teatro, nem bastidores; encontrávamo-nos sob o beiral de uma casa de camponeses suíços. Ferramentas agrícolas estavam espalhadas por toda parte; parecia que a nossa chegada inesperada tinha assustado os tímidos moradores. Abaixo de nós, víamos um pequeno pátio cercado por edifícios. À nossa direita, uma janela aberta da qual pendiam algumas roupas para secar; havia um cavalete de serrar e um machado, e um pouco de lenha cortada estava espalhada sob as portas do estábulo; à nossa esquerda, uma cabra balia, e não muito longe, o som melodioso dos sinos do rebanho soava suavemente.
Todos ficaram imóveis de espanto, mas uma surpresa sucedeu-se a outra. Atrás de nós, pratos de madeira, colheres e copos tilintavam. Viramo-nos e vimos uma jovem vestida com o traje típico das montanhas servindo um café da manhã campestre composto de leite, queijo, pão escuro e linguiça, enquanto um criado servia vinho da Madeira, vinho do Porto e champanhe em taças de cristal.
Mas um pouco mais adiante, que vista! O vale, coberto de neve, era protegido pelos gigantes das montanhas. Não havia mais dúvidas quanto ao que víamos à nossa frente. Estendi as mãos e expliquei que à nossa frente estava Chamonix, a mais de três mil pés de altitude...

Retrato de Daguerre
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O diorama era uma experiência imersiva que incluía sons, odores, sabores, tato e sobretudo um visual ilusionístico. A combinação de objetos de cena reais (uma casa de camponeses suíços) com um cenário pintado e dinâmico com alterações de luz e cores (O vale, coberto de neve) e ainda personagens em carne e osso recebendo os visitantes (uma jovem vestida com o traje típico das montanhas servindo um café da manhã), tudo isso em um ambiente onde o visitante não era isolado, mas sim parte da cena (ali não havia teatro, nem bastidores). Era muito convincente e arrebatador. Ainda na descrição da visita, citada por Eder, há o relato da reação de uma jovem inglesa:
“Isso não pode ser pintura, sua magia não pode ir tão longe, há aqui uma combinação extraordinária de arte e natureza, produzindo um efeito avassalador, e é impossível discernir onde a natureza termina e a habilidade humana começa. Aquela casa foi construída, aquelas árvores são naturais e, além disso… sim, além disso, ficamos perdidos. Onde está o artista que criou isto?”
Daguerre aproxima-se e é muito interessante como que ele comenta o seu Diorama:
“Muitos críticos de arte queriam me acusar do crime de misturar arte e natureza; dizem que minha cabra viva, meus pinheiros reais e a cabana do camponês são artifícios proibidos ao pintor. Seja como for! Meu único objetivo era criar a ilusão em seu grau máximo; eu queria roubar da natureza, e por isso era necessário me tornar um ladrão. Se você visitar Chamonix, encontrará tudo comprovado; a cabana, os beirais e todos os elementos cênicos que você vê aqui, até mesmo a cabra lá embaixo, que eu importei de Chamonix.”
Aos dezesseis anos, Daguerre foi trabalhar no atelier de um conhecido pintor de cenários chamado Degotti. Desde o início mostrou muita proficiência no domínio dos efeitos de luz. Mas em termos de Beaux-Arts, as Belas Artes, pintar cenários não era uma posição de muito prestígio na hierarquia dos artistas pintores. A tela abaixo é de sua autoria e está no Museu do Louvre, mas acredito que seja mais por sua celebridade na fotografia do que por sua carreira como artista.

Quando ele inicia seu comentário com “Muitos críticos de arte queriam me acusar… ” nota-se aí que o high-art tinha objeções ao Diorama. Eles o consideravam um artifício que ia longe demais. A pintura podia ou até devia, na visão de muitos, ser ilusionista, mas os recursos aos quais Daguerre recorria eram considerados exagerados, até trapaceiros. Mas sua posição esclarece que a motivação de Daguerre era de iludir da forma que fosse a mais convincente. Ele queria encantar e surpreender e para isso não via limites. Com essa disposição, certamente olhou para a possiblidade da fotografia imaginando o impacto que seria no público em geral, não nas academias ou salões de belas artes. Assim como com seu Diorama, mais tarde pensou na fotografia tendo em mente o grande público, o qual ele conhecia tão bem.
O contrato de colaboração
Daguerre aproximou-se de Niépce, e este correu buscar referências com o gravador Lamaître (carta de jan/1827 – Fouque p126 ): “Você conhece um dos inventores do Diorama, este Sr. Daguerre? O motivo pelo qual eu estou perguntando é que este cavalheiro, informado, não sei muito bem como, sobre o assunto da minha pesquisa, me escreveu no ano passado, em janeiro, para me informar que, desde há muito tempo, ele estava pesquisando o mesmo que eu e me perguntou se eu teria sido mais feliz do que ele em meus resultados. No entanto, segundo ele, ele já havia obtido algo de muito impressionante e, além disso, me pediu para lhe dizer, antes de tudo, se eu considerava a ideia toda possível. Não vou esconder, senhor, que tal inconsistência de idéias, teve o efeito de muito me surpreender, para dizer o mínimo “.
O encontro e a cooperação de Niépce e Daguerre foram comprometidos desde o início pelo enorme segredo que cada um mantinha sobre o status real de suas pesquisas. Cada um superestimou o nível de conhecimento e desenvolvimento que o outro aparentemente tinha sobre o assunto. Daguerre acreditava que Niépce já teria algo muito mais eficaz do que as impressões em betume e Niépce, por sua vez, acreditava que Daguerre seria capaz de fornecer uma câmera mágica, com óptica maravilhosa, capaz de compensar todas as desvantagens de sensibilidade que seu processo ainda apresentava. De qualquer forma, eles assinaram um contrato em 1829 e, nessa condição, tiveram que compartilhar o que de fato dispunham.
Foi uma decepção recíproca. Porém, para ser justo, deve-se dizer que Niépce tinha de fato algo com seu processo heliográfico, enquanto Daguerre não acrescentou nada que Niépce não conseguiria obter de ópticos como Charles Chevalier ou outros. Eder diz isso claramente: “É digno de notar que a Niepce conheceu Daguerre trazendo sua invenção que era realmente nova, mas que Daguerre não teve nenhuma contribuição fotográfica importante para oferecer” (Eder p223).

Os termos do acordo, no contrato de parceria entre Daguerre e Niépce, afirmam claramente que a Heliografia já era “a” descoberta, que precisava apenas de melhorias, e que caberia a Daguerre trazer essas melhorias. Lemos: “M. Daguerre, a quem ele [Niépce] divulgou sua invenção, percebendo plenamente o seu valor, uma vez que a invenção é passível de receber grandes aperfeiçoamentos, oferece-se para se juntar a M. Niepce para alcançar essa perfeição e obter todas as vantagens possíveis dessa nova indústria “. Existe uma tradução completa para o inglês desse acordo em Eder (p215). O original é reproduzido por Fouquet (p161).
Morte de Niépce

Nicéphore Niépce retrato póstumo pintado em 1854 pelo artista francês Léonard François Berger
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Niépce morreu em 1833 com 68 anos e seu filho Isidore assumiu sua parte no contrato. Daguerre tinha então 46 anos e continuou suas pesquisas que como sabemos não tardou muito a mostrar resultados. O processo que acabou por ter seu nome, em vez de Niépce-Daguerre, como foi o acordo inicial, sempre foi bastante referido como um caso de usurpação. Isidore, filho de Nicéphore, escreveu um pequeno livro “Post tenebras lux. Historique de la découverte improprement nommée Daguerréotype” (p47) (Depois das trevas a luz. Histórico da descoberta impropriamente chamada daguerreótipo) no qual, entre muitas outras considerações, ele traz uma cláusula específica no contrato de seu pai e que diz o seguinte: “no caso de morte de um dos associados, a descoberta mencionada nunca será anunciada sem ter os dois nomes designados no primeiro artigo”. Isso é bastante claro e forte, mas, Daguerre também tinha seus argumentos. O fato é que sua técnica usando placas de prata sensibilizadas pelo iodo e com uma imagem latente revelada pelo mercúrio era algo realmente diferente do que Niépce havia chegado.
Também é verdade que Daguerre insistiu que Niépce deveria tentar o iodo e este, depois vários testes, respondeu de volta dizendo que ele havia desistido completamente dessa substância. Em uma carta de 8/novembro/1831 a Daguerre, Niépce diz: “Eu fiz um grande número de experimentos com iodo em combinação com placas prateadas, sem obter em nenhum momento os resultados que o meio de desoxidação teria me levado a esperar. Não obstante todas as mudanças às quais sujeitei o procedimento e todas as várias combinações de diferentes métodos de testes, meu sucesso não foi mais afortunado. […] Depois de alguns outros julgamentos, permaneci neste ponto, e devo confessar que estou extremamente arrependido ter perseguido há tanto tempo uma direção errada, e o que é pior, sem qualquer proveito … ” (Eder p.225)
Então Daguerre perseverou em um caminho que Niépce havia abandonado. Mais tarde ele considerou que a descoberta como apenas dele e assim forçou para convencer Isidore a assinar um adendo ao contrato provisório de 1829 alterando o nome da associação, estabelecendo-se como o primeiro. Isso foi em 1835. Mais tarde, em janeiro de 1837, Daguerre, mais assertivo, pressionou novamente Isidore a assinar um contrato definitivo, preparando o anúncio da descoberta e a estratégia comercial para finalmente explorar a invenção. A proposição de Daguerre foi uma divisão: anunciar o que Niépce fez, a Heliografia como de Niépce apenas e o novo procedimento seria chamado daguerreótipo. O próprio Isidore explica a maneira como Daguerre colocou a situação e porque cedeu: “Irritado pela minha constante recusa, ele declarou que, se eu não concordasse com seu pedido, ele manteria sua técnica apenas para si [Isidore havia visto daguerreótipos e ficou, como qualquer pessoa ficaria, muito impressionado]. Então iríamos publicar apenas o processo de M. Niepce, e mais tarde ele publicaria o seu próprio, o que me impediria de tirar mesmo a menor vantagem da descoberta do meu pai. Eu observei que tal ação era contrária aos direitos estipulados no ato de associação: ele respondeu que seu procedimento não tinha nada em comum com o de meu pai e que ele era livre para mantê-lo em segredo! “. (Isidore Niépce)
Bem, Isidore assinou o novo contrato e juntos iniciaram um lançamento comercial através de um sistema de venda a cotistas dos direitos de uso e mais todas as informações necessárias para que o adquirente pudesse entrar em produção de seus próprios daguerreótipos. Planejavam assim levantar algo entre duzentos e quatrocentos mil francos. De modo a para um indivíduo isto significaria a importante soma de dois a quatro mil francos para um número de cem cotistas. Mas não há muita documentação disponível de quantos cotistas eles almejavam.
Mas ninguém quis comprar. Entre os fatores do fracasso temos, sem dúvida, que o investimento era alto, a dificuldade de se vender um segredo pois a pessoa não sabe ao certo o que está comprando, a desconfiança de que hora mais hora menos o segredo se tornaria público e, finalmente, devemos considerar que a fotografia não existia ainda, isto é, as pessoas não estavam recusando a invenção do século, estavam sem motivação para comprar um truque que registrava as imagens da camara obscura em uma placa de metal. Por enquanto era apenas isso. Ninguém sabia, e aparentemente nem imaginavam, o que a fotografia iria se tornar.
Daguerre devia ter um network fantástico através do seu Diorama, pois era uma das grandes atrações de Paris naquele momento. Sem se impressionar com o desânimo do “mercado” com seu invento, mas ainda com a certeza de que tinha algo precioso em suas mãos, ele procurou a Academia de Ciências, procurou mais especificamente pela pessoa certa: Dominique François Jean Arago.
A Academia de Ciências
A Academia de Ciências da França passava nessa época por algumas tensões e transformações. Coexistiam dois modos de se encarar o papel da Academia e das Ciências com relação ao Estado e sociedade.
De um lado estava François Arago. Nascido em 1786 ele fora uma espécie de garoto prodígio que entrou como membro da Academia com apenas 23 anos. Suas contribuições para a pesquisa em óptica e eletromagnetismo foram significativas. Quando Daguerre o procurou ele ocupava o cargo altamente influente de Secretário Perpétuo da seção de ciências matemáticas (que incluía física e astronomia). Essa função, na prática, fazia dele o principal executivo e porta-voz de uma parte importante da Academia, conferindo-lhe um poder significativo para definir agendas e influenciar os procedimentos.

Dominique François Jean Arago (1886 – 1856)
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Nessa posição ele vinha mudando em muito a vida na Academia. Sua visão era de que a instituição deveria se acessível a todos e não permanecer como um círculo fechado. Ele abriu muitas sessões ao público leigo e publicou abertamente as atas. Ele convidava pessoas da indústria para expor e debater temas diversos. Por fim, acreditava ser papel do Estado pro-ativamente promover o progresso, não só científico, mas também tecnológico.
Quem poderia ser contra? Bem, existia a ala conservadora encabeçada pelo seu antigo amigo de pesquisas e agora grande rival Jean-Baptiste Biot. Para Biot ciência era assunto sério, para ser discutido apenas pela elite acadêmica. Seus temas deveriam ser a pesquisa básica sobre as grandes leis do universo e jamais rebaixar-se a resolver problemas de processos industriais e coisas do tipo. Para Biot o que Arago fazia era vulgarizar e espetacularizar a ciência desvirtuando-a de seus nobres fins.
Desnecessário dizer que Daguerre foi bater na porta certa. Arago entusiasmou-se imediatamente com o Daguerreótipo e tornou-se o seu principal e mais influente defensor. O plano traçado pelos dois foi de que o governo Francês compraria o invento e o doaria ao mundo, isto é, os procedimentos seriam divulgados e qualquer um poderia fazer seus daguerreótipos sem precisar pagar coisa alguma a ninguém.
Daguerre procurou Arago no final de 1838 e este usou a sessão de 7 de janeiro de 1839 para anunciar que o problema do registro das imagens da câmera escura estava resolvido.
Sua intervenção é bem curta e se resume aos seguintes pontos:
1- Todo mundo conhece a Camara Obscura e já pensou como seria bom se suas imagens perfeitas pudessem ser conservadas.
2- Esta frustração não existirá mais, pois Daguerre desenvolveu uma tela sobre a qual a imagem óptica deixa uma impressão perfeita e permanente.
3- Esclarece que não são impressões coloridas mas que registram em tons de cinza como se fosse uma gravura em aquatinta.
4- Diz que submeteu provas com várias vistas de Paris aos seus colegas Humboldt e Biot e que o tempo de exposição em dia ensolarado varia entre 8 e 10 minutos.
5- Salienta que a imagem é positiva, ao contrário de experiências anteriores com papel impregnado com cloreto de prata empregado para fazer silhuetas.
6- Fala dos usos que podem ser feitos como o registro de monumentos e também nas ciências da física e astronomia.
7- Fala do tempo e investimento que Daguerre e os Niepces (pai e filho) fizeram para chegar à essa descoberta genial e que uma patente não garantiria uma remuneração justa pois uma vez revelado o segredo, ele estará disponível para todo mundo.
8-Declara que considera então “indispensável” que o governo francês “indenize” diretamente Daguerre e que em seguida, “nobremente”, doe o invento ao mundo todo.
9-Nesse momento Biot toma a palavra e endossa plenamente o que Arago acabara de comunicar. Ele salienta que vê o Daguerreótipo como uma retina artificial que poderá fornecer imagens sem vies de interpretação e por isso ideais para as ciências. Foi muito político de Arago ter trazido Biot, seu arqui-rival, para apoiar o Daguerreótipo e assim colocar o invento ao abrigo das disputas internas da Academia.
Uma invenção com muitos pioneiros
A notícia de que a respeitada Academia de Ciências da França iria solicitar ao governo a compra dos direitos sobre a invenção do daguerreótipo, o processo capaz de registrar as imagens da camara obscura, causou tremores pelo mundo todo. A primeira reação foi uma avalanche de solicitações de reconhecimento de pioneirismo da parte de muitos outros pretendentes.
Se tantos outros já haviam chegado tão perto ou de fato obtido uma imagem fotográfica estável, por que é que isso não teve a repercussão que teve o daguerreótipo? Essa é uma questão para a qual precisamos, antes de responder, ignorar tudo o que sabemos sobre qual foi o futuro da fotografia após 1839. A fotografia não existia e quem pesquisava sobre ela não necessariamente tinha a dimensão do que estava pesquisando.
Basta lembrar que no final de 1838 o próprio Daguerre tentou vender o método e exibiu seus incontestáveis exemplares para a nata da sociedade parisiense, e ninguém quis comprar. Antes de 1839 a “fotografia” era uma curiosidade, um enigma a resolver, uma distração para senhores cultos e ricos que ainda tinham outras ocupações. Quando Talbot comenta a interrupção nas pesquisas após 1835 ele diz que estava sem tempo para atividades de “lazer”. O que fariam ou fizeram os que tiveram maior sucesso? Os que conhecemos, fizeram um uso praticamente privado, compartilharam com seu entorno mais imediato, fizeram algumas experimentações e deram-se por satisfeitos. Nenhum abriu um estúdio ou saiu pelo mundo registrando suas belezas. Nenhum saiu gritando “inventei a fotografia”. Se saiu, ninguém deu muita atenção e, ao que parece, sentaram sobre seus inventos. Uma excessão foi justamente Louis Daguerre.
Daguerre era alguém que lidava com o grande público em um negócio de ilusionismo, como vimos acima, como seu Diorama. Ele teve essa intuição que em marketing chama-se “consumer insight”. Ele teve a visão premonitória da fotografia como ela viria a ser. Sua motivação, desde o início, fora de fazer algo grande, não apenas resolver uma charada e causar inveja nos seus amigos. Ele não queria apenas extasiar-se com a própria proeza. Em um panfleto do final de 1838, promovendo o sistema de assinaturas, encontramos com toda clareza onde de fato aconteceu a invenção da fotografia como a conhecemos. Não foi na óptica e nem na química, foi na percepção daquilo que ela poderia significar para as pessoas e para a sociedade.
Com esse processo, sem nenhuma noção de desenho, sem nenhum conhecimento em química ou física, pode-se em alguns minutos obter-se imagens as mais detalhadas, os lugares mais pitorescos, pois os meios de execução são simples, não exigem nenhum conhecimento especial para que sejam praticados, basta um pouco de cuidado e com o hábito pode-se perfeitamente obter sucesso.
Cada um, com a ajuda do Daguerreotipo, poderá fazer a vista do seu castelo ou de sua casa de campo, formar preciosas coleções de todos os gêneros que nem a arte pode imitar do ponto de vista dos detalhes e exatidão e elas são inalteráveis à luz. Será possível até fazer retratos, ainda que a mobilidade do assunto coloque algumas dificuldades para o êxito completo.
Esta descoberta importante, suscetível a todas as aplicações, será não apenas de interesse para as ciências mas dará também um novo impulso para as artes e longe de prejudicar aqueles que a praticam ela lhes será de uma grande utilidade. As pessoas do mundo todo nela encontrarão a ocupação mais atraente, e ainda que o resultado seja obtido com a ajuda de meios químicos, esse pequeno trabalho poderá agradar bastantes as damas.
Enfim, o Daguerreótipo não é um instrumento que permite desenhar a natureza, mas um procedimento físico-químico que lhe dá a facilidade para que ela se reproduza por si mesma.
Impossível se imaginar o erudito Fox Talbot escrevendo algo semelhante. François Brunet em seu livro La naissance de l’idée de photographie, diz, com certo desprezo, que Daguerre usa uma “argumentação de camelô” em seu panfleto. Lembra realmente um vendedor de rua gritando: é muito fácil, veja só as coisas maravilhosas que você pode fazer com o daguerreótipo. Nesse pequeno texto, já podemos imaginar os fotógrafos de finais de semana, coleções de fotografias a foto da casa, da família, do cachorro, o retrato da pessoa amada. Enfim, já vemos um pouco do espírito George Eastman nesse panfleto.
Daguerre não era um cientista e nem um erudito. A descoberta da etapa chave em seu processo, o banho no vapor de mercúrio, foi descoberta totalmente por acaso. Eder conta que ele havia desistido de umas placas de prata banhadas no vapor de iodo e as guardou em um armário. Dias depois, revirando o armário, teve o choque de ver que as imagens estavam lá. Suspeitou que seria alguma coisa dentro do armário que estava realmente repleto dos mais diversos materiais. Foi eliminando um a um até identificar um pequeno pote de mercúrio como sendo o culpado. Bem, isso não é método científico. Tentativa e erro faz parte da ciência, mas as tentativas normalmente são informadas, partem de alguma hipótese, de um modelo. No caso de Daguerre, na parte técnica, o que ele teve foi muita perseverança e muita sorte. O que não foi sorte foi sua visão do quanto a fotografia iria mudar o mundo.
Ele foi também muito feliz de procurar François Arago pois a fotografia encaixava-se plenamente na agenda do Secretário Perpétuo da Academia de Ciências. Seria um exemplo perfeito da Academia e do governo Francês como um todo, assumindo o protagonismo no incentivo a uma fusão de ciência e tecnologia para o progresso da nação. A fotografia, por suas possibilidades de uso científico e artístico, como demonstrou Arago e salientou até seu inimigo Biot, era o invento perfeito para materializar esse casamento.
Sobre os tantos candidatos a inventores da fotografia, que logo depois do anúncio do dia 7 de janeiro de 1839 apressaram-se a preparar seus dossiers de anterioridade para enviar à Academia, era como se dissessem: “Eu havia inventado a fotografia, mas não sabia que era importante”. O prêmio da pensão vitalícia de 6000 francos anuais a Daguerre e 4000 a Isidore, fez o mundo acordar. François Arago endossou o invento e a visão de Daguerre e o peso de sua autoridade fez toda a diferença.
Iniciou-se um comércio de aparatos para a fotografia, câmeras, lentes, livros, químicos, e toda parafernália que não era pouca. Estúdios foram abertos e, muito importante, vários aperfeiçoamentos ao processo foram trazidos por fotógrafos e estudiosos. O mais significativo de todos foi sem dúvida a generosa contribuição do inglês Sir John Herschel, indicando que o tiossulfato de sódio seria um fixador mais eficiente e garantiu assim uma permanência de fato para o meio fotográfico.
O Daguerreótipo foi uma espécie de despertar para a fotografia. Mas não teve vida muito longa. Já na década de 1850 chegaram os processos de colódio sobre vidro para negativos e albumina sobre papel para impressões e estes dominaram, até a chegada da gelatina como meio de suspensão para os haletos de prata. Isto foi no final dos anos 1870, e foi um desenvolvimento direto do calótipo de Fox Talbot.
Louis Daguerre chegou a sofrer um bom desgaste em sua imagem. Enquanto que Nicephore Niépce podia bem vestir a fantasia de gênio solitário trabalhando sozinho, incansável na sua mansão em Shalon-sur-Saône e sem ter visto os frutos de uma vida de dedicação, bem nos moldes do herói romântico, Daguerre foi associado ao empresário capitalista maldoso que se apropriou da descoberta e até tirou o nome, tentou apagar a contribuição de Niépce seu ex-sócio, negando-lhe a posteridade a que este teria pleno direito.
Enfim, como foi dito no início, a fotografia foi uma obra coletiva misturando vários tipos de atores. A descoberta de propriedades naturais dos elementos químicos envolvidos, mais a invenção de aparelhos e processos que puderam tirar proveito dessas propriedades na produção de imagens e ainda a percepção do alcance que o novo recurso teria na vida das pessoas, isso tudo demandou muitos talentos diferentes, muita criatividade e muito trabalho.

