Serra da Mantiqueira | Victor Andrade


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Em 1974 eu já fotografava profissionalmente em 35mm, mas chegou um momento em que precisei de uma câmera de médio formato. O cliente exigia maior qualidade no cromo, as coisas estavam deslanchando, e eu precisava fazer uma evolução na fotografia. Eu sempre admirei a câmera Hasselblad, que por coincidência, leva o meu nome: Victor. Achava-a muito linda. Certa vez, no intervalo de um evento, me aproximei de um fotografo portando uma Hassel e curioso fiz perguntas sobre ela. Fiquei maravilhado com as travas de segurança para não bater uma chapa em cima da outra, ou não tirar o magazine sem a chapa de proteção para não queimar o filme ou ainda para não bater a foto com a plaquinha impedindo a passagem da luz. Certa vez, eu estava cobrindo a Fórmula 1 no Autódromo de Interlagos, e a Lotus do Mario Andretti parou a poucos metros de nós fotógrafos. Um deles me deu sua Hasselblad para fotografa-lo dentro do carro, nunca tinha pegado numa e meio sem jeito fiz o click na câmera sueca.

Quando saí do Jornal em que trabalhava, arranjei emprego numa agência fotográfica, fazíamos fotos técnicas e lá eu aprendi a trabalhar com Hassel, vi como era fácil, uma câmera leve e pequena, forte e a óptica excepcional. Vi também que ela exigia um tripé. Não fiquei muito tempo lá, pois só o patrão é que ganhava dinheiro, saí e fui para o mercado trabalhar por minha conta. Eu era muito jovem, muito verde e tinha muito a aprender e saí oferecendo meu trabalho em agências e editoras. Minha 6×6 era uma Flexaret TLR que foi do meu avô e minha tia me deu, mas eu não podia trabalhar com ela, era muito antiquada e sem recursos. Fui atrás de uma câmera melhor. A Hassel era o sonho, mas muito cara. Quase comprei, na loja do amigo Kirio, uma Zenza Bronica 6×6, lente normal Nikkor 80 mm e vinha também com uma 200 mm. Mas ela quebrou na sua mão, no balcão, enquanto ele me demonstrava o funcionamento.

Saí de lá e fui direto para a melhor loja de cine-foto da cidade, a Fotoptica Profissional. Criei coragem e comprei a Hasselblad usada mais barata que havia, uma 500 C bem antiga, fiz um carnê, como se dizia na época, e paguei em 10 prestações, pesadas de início, mas logo começou uma das maiores inflações deste país e as parcelas ficaram bem leves.

A primeira Hassel nunca deu problemas, exceto quando travou ao tirar a lente, mas foi erro de principiante, não se tira a lente sem estar armada. Nela pude sentir a confiabilidade deste equipamento fabricado nos anos 1960. Eu tinha agora a sonhada Hasselblad, com a objetiva normal 80 mm e comecei a sentir falta de uma grande angular, descobri como são caras e difíceis de se conseguir as objetivas e equipamentos da Hassel no Brasil.

Em 1982 eu fiz um ensaio de fotografia de natureza em preto e branco na região da cidade de Monte Verde, MG todo com a Hasselblad. É uma região montanhosa não muito longe de São Paulo onde eu morava. Este ensaio me rendeu uma exposição no centro Cultural São Paulo e um portfólio publicado na revista Iris Foto, foi o início de um trabalho com a Serra da Mantiqueira. Revendo o ensaio fiquei admirado como ele rendeu ótimas fotos só com a lente normal.

Minha segunda experiência fotografando com a Hassel na Mantiqueira foi em Itatiaia com uns amigos e um deles me avisou para tomar cuidado com o vento forte da montanha que poderia derrubar a câmera. Foi um pequeno descuido, eu me agachei para trocar o magazine do filme e o vento derrubou a câmera. Tentei agarrar, mas peguei na parte de baixo do tripé, o peso foi grande e só amorteci a queda. Ela bateu na rocha, quebrou o visor prismático, amassou a lateral da câmera e o parassol da 50 mm bateu no chão. Não foi tão grave, mas eu perdi a confiança nela. Fui aos classificados do jornal e comprei a câmera de uma pessoa que tinha só um corpo de 500 CM, nenhum back ou lente, mas ela tinha uma plaquinha com a assinatura do Victor Hasselblad e várias melhorias em relação à 500 C que eu tinha na época. Paguei barato e pus a minha lente e meu back, voltei a usar o visor que a Optronic consertou, vendi a minha outra câmera e passei a ter uma 500 CM, era mais um avanço importante.

Em 1986 eu recebi um convite para um evento na Importecnica, eles fizeram uma projeção de slides com os projetores 6×6 da Hassel e uma palestra do fotógrafo Sergio Jorge contando sua experiência com a Hasselblad na Antártica. Enquanto isso, alguns técnicos suecos da fabrica faziam uma revisão grátis em nossas câmeras. Neste dia eu vi a revista Forum da Hasselblad e nasceu o desejo de publicar lá um dia.

Em 1998 o Ivo, diretor da T.Tanaka, que agora representava a Hasselblad no Brasil, me chamou. Ele me disse que justamente a revista Forum da Hasselblad queria publicar fotógrafos brasileiros e estava me indicando a eles. Preparei um portfólio com as fotos de Monte Verde e eles levaram para a Suécia, acabei sendo publicando em 2002 na revista de distribuição mundial e sobre a câmera que eu gostava tanto. O sonho se realizava.

As fotos desta exposição mostram algumas imagens que fiz ao longo de quase cinquenta anos. Tenho uma longa convivência com a Serra da Mantiqueira, vivas são as lembranças da primeira viagem a Campos do Jordão, no final dos anos 1950 e minhas idas ao acampamento Paiol Grande e ao Parque Nacional de Itatiaia no início dos anos 1960, isto bem antes de pensar em me tornar fotógrafo.

Venho visitando a serra no decorrer destes anos todos e são fortes as emoções e memórias visuais dos picos de Agulhas Negras e das Prateleiras, da pedra do Baú, das araucárias, matas e pássaros, dos rios e suas corredeiras com piscinas e cachoeiras. Não há como esquecer o frio e as geadas de junho ou as chuvas temperamentais de verão, os campos de altitude, suas nuvens rasteiras com os raios de sol que as perfuram e todas essas coisas que os fotógrafos amam ver.
Quem freqüenta a serra da Mantiqueira conhece este encantamento e esta sensação de bem estar das montanhas, este ar mais rarefeito que eleva o espírito na medida em que subimos em busca de revitalização poética e energética.

Comecei este trabalho em 1982 quando senti mais forte minha identificação com a paz e o sossego da paisagem, foi também a oportunidade de testar meus conhecimentos da técnica que estudava em preto e branco e adotei como linguagem. A partir de então, principalmente no final dos anos 90 até metade dos anos 2000, sempre que pude fui em busca de novas fotos em dezenas de viagens por toda a serra da Mantiqueira. Percorrer e fotografar estes caminhos, dos pontos mais remotos aos mais turísticos foi uma boa aventura e percebi que a serra ainda é bela e intocada em alguns lugares, mas ameaçada em outros.

Sobre Victor Andrade

Victor Andrade é fotógrafo desde 1974 e é jornalista formado pela Fiam. Trabalhou como fotógrafo no Jornal da Semana em Pinheiros, entre 1975 e 1978, onde se iniciou como profissional e depois de sair tornou Free-lance para vários clientes. Colaborou com várias publicações, empresas e assessorias de imprensa e publicou em várias revistas.
Dedica-se a fotografar temas da natureza, além de reportagens para revistas e jornais, foto industrial e arquitetura. Tem trabalhos publicados nas revistas Pentax Family no Japão, Forum Hasselblad na Suécia, Fotografe Melhor, Revista Iris Foto, Fotóptica Magazine, BW&Color e PB MAG. Em 1999 produziu um livro fotográfico para a VCP sobre a Fabrica de Papel de Salto, a mais antiga fabrica de Papel do Brasil, todo em 6×6 com a Hasselblad em preto e branco. No mesmo ano iniciou o trabalho com a Serra da Mantiqueira, igualmente preto e branco e Hasselblad, trabalhou com as empresas Maxion, Votorantim, Thyssen, Deicmar e Furnas, entre outras com câmeras Hasselblad, na maior parte em filme positivo de transparências. A Hasselblad marcou seu trabalho nas décadas de 80, 90 e metade da 2000, quando veio a tecnologia Digital.
Trabalhou com câmeras Hasselblad 500C, 500CM, 501C, SWC e XPan. Objetivas Zeiss 38, 40, 50, 60, 80, 150 e 250 mm.

14 Comentários

  1. Lindo trabalho Victor! Acompanho seu trabalho faz tempo, nas imagens finais e em loco. Sua tranquilidade e perseverança são ingredientes importantes para esse resultado, parabéns!

  2. Excelente ensaio sobre a Mantiqueira, com belas nuances dos tons de cinza na exploração precisa da luz. É desafiador fotografar a natureza em PB. O resultado foi favorecido pela escolha do equipamento que já era sonho de consumo do autor, mas nada seria sem o olhar sensível e sincero ao tema.

    São muito interessantes as histórias do Victor em sua trajetória, com direito a falar sobre o canê de prestações e emblemáticas lojas de fotografia de SP. Vale uma próxima temporada, na qual o autor mostre seus outros temas, como shows musicais de artistas de primeira grandeza e as respectivas histórias de bastidores. Eu sei um pouco disso, pelas conversas ao vivo.

    Por último, sugiro também que os artigos contenham o retrato do autor e a imagem do equipamento em si, que aqui teve um importante papel.

    1. Obrigado pelo seu comentário Alckmin, na verdade o texto publicado foi editado pelo Wagner, dono do site e na hora ele escolheu esse detalhe que ele pegou no meu curriculo, ficou interessante. abraços

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