Triplet Achromatic | Dallmeyer

Dallmeyer foi uma das firmas de maior prestígio na segunda metade do século XIX e esta Triplet, lançada em 1862, foi seu primeiro grande sucesso. A história começou com John Henry Dallmeyer, nascido na Alemanha, onde em 1846, então com 16 anos, entrou como aprendiz na oficina de um opticista na cidade de Osnabrück.
A situação financeira da família era confortável, seu pai era um fazendeiro educado, interessado sobretudo em química e fazia experimentos com fertilizantes. Porém, pelas leis em Vestfália, apenas o filho mais velho herdava os bens da família e por essa razão o jovem Dallmeyer, que era o segundo filho, foi trabalhar como aprendiz para cuidar de seu próprio futuro.
Em 1851 foi para Londres onde encontrou trabalho com outro opticista chamado W. Hewitt. Mas a pequena firma foi logo adquirida pela Andrew Ross, que era um importante fabricante de telescópios e sobretudo de lentes fotográficas. Para se ter uma ideia, as lentes que Henry Fox Talbot usara no desenvolvimento de seu calótipo foram fornecidas pela A. Ross.
Tudo parecia perfeito, o jovem que recebera uma boa educação, já tinha alguma experiência no ramo e ainda era ambicioso, fora trabalhar na melhor firma em Londres dentro do ramo que ele escolhera para fazer carreira. Porém, no rearranjo da aquisição, ele foi colocado em uma posição para polir lentes ou algo assim. Ele pediu demissão e parecia querer largar o ramo da óptica por inteiro. Como era fluente em inglês, francês e alemão, conseguiu um emprego como correspondente comercial ainda em Londres.
Não consegui apurar ao certo como que Andrew Ross percebeu seu erro, mas o fato é que um ano mais tarde Dallmeyer foi chamado de volta e desta vez para trabalhar no departamento científico da firma como consultor. Nesta posição de prestígio Dallmeyer começou a frequentar a família de seu patrão e como que para selar de vez a reaproximação, 1854, casou-se com Hannah, a segunda filha de Andrew Ross.
Mais uma reviravolta, em 1859 Andrew Ross morre e deixa para Dallmeyer um terço de sua fortuna e ainda toda a divisão de telescópios. Para seu filho, Thomas Ross, do negócio ficou a parte principal, a marca Ross e a divisão de lentes fotográficas. Foi uma divisão que instantaneamente colocou os dois cunhados como principais concorrentes um do outro, pois Dallmeyer rapidamente abriu sua própria firma, já no ano seguinte e ainda redirecionou o negócio de telescópios para lentes fotográficas que era um mercado muito maior.
A lente Triplet Achromatic

Praticamente todos os tratados de óptica fotográfica e artigos de época são unânimes em classificar a Triplet Achromatic entre as melhores lentes de seu tempo. Foi talvez uma das primeira opções de lente de uso mais geral que surgiu desde a invenção da fotografia.
Existiam basicamente dois tipos de lentes no início dos anos 1860. A lente para paisagens, adaptação da objetiva de telescópios, e a lente para retratos que era a lente de Petzval. Cada uma tinhas suas virtudes e suas falhas.
Com a sua Triplet Achromatic Dallmeyer quis encontrar uma solução que pudesse fazer tanto paisagens como retratos. Seu raciocínio foi:
Sobre a lente de paisagens
Além de ser escura, f/14 f/16 ou pior, seu problema era a distorção do tipo barril (barrel no inglês), na qual as linhas retas ficam curvas para fora do campo visual, ficam como que estufadas.

A causa: Isso acontece porque nestas lentes o diafragma fica na frente. Quando o diafragma fica atrás da lente a distorção acontece no sentido inverso e chama-se almofada de alfinetes, pincushion distortion no inglês.
A solução: Introduzindo uma segunda lente convergente com o diafragma entre as duas, ele ficará na frente de uma mas atrás da outra e esta distorção irá se cancelar endireitando as linhas.
Sobre a lente de Petzval
Esta lente é bem luminosa mas tem um campo muito curvo. A consequência é que a imagem só fica nítida no centro e se degrada muito fora dele.
A causa: Por ter dois dubletos convergentes ela sofre de uma aberração esférica acentuada.
A solução: Dallmeyer introduziu um dubleto divergente entre os dois convergentes e este terceiro elemento tem o efeito de curvar o campo no sentido inverso e dessa forma torna-o mais plano.
A solução de Dallmeyer

Este é o desenho a que ele chegou. São 3 dubletos acromáticos. O frontal capta e converge a luz mas gera aberração esférica e distorce a imagem. O do centro, que fica praticamente colado ao diafragma, é divergente e assim corrige boa parte da aberração esférica. O terceiro converge mais a luz focando a imagem e por estar atrás do diafragma cancela boa parte da distorção do primeiro elemento. Era uma lente complexa e portanto cara, mas oferecia algo como o melhor de dois mundos.
A recepção
Como já foi dito, a lente foi um sucesso. É interessante acompanhar a descrição que aparece no tratato de Monckhoven, publicado em 1867, e ver como que ele avalia e compara a Triplet Achromatic com o que havia a época.
As vantagens e desvantagens do tripleto de M. Dallmeyer são as seguintes:
- Com igual distância focal, cobre nitidamente um plano focal muito maior do que a objetiva simples comum, mas não tão grande quanto a nova objetiva simples do mesmo óptico, e particularmente o doublet (dubleto) do Sr. Ross e o periscópio de M. Steinheil.
- Está, dentro de limites práticos, livre de distorção, mas não de astigmatismo, como a lente-globo (globe-lens) [esta era uma lente super-angular mas com f/30].
- Mas é livre, ao longo de seu eixo, de aberração esférica, o que é muito valioso na produção de cenas animadas, retratos e grupos ao ar livre, etc. Nesse aspecto, é superior à lente ortoscópica [esta era a Petzval para paisagens], e especialmente à objetiva dupla comum [esta é a Petzval para retratos], cuja profundidade de foco com a mesma abertura é muito menor que a do tripleto.
- Com um diafragma de um trigésimo (1/30) da distância focal, cobre nitidamente uma extensão de plano focal cujo lado maior é igual à sua distância focal, e esta abertura do diafragma é suficiente para fornecer imagens brilhantes. Se por insuficiência de luz, ou por qualquer outra causa, o diâmetro do diafragma tiver que ser aumentado, a nitidez da imagem não diminui (apenas a extensão da superfície nitidamente coberta diminui). Esta vantagem é na prática tão considerável, que torna o tripleto a mais indispensável de todas as objetivas conhecidas. O uso do tripleto é, portanto, quase universal.
O exemplar da coleção
A distância focal deste exemplar da coleção foi medida por regressão linear e deu o valor de 348 mm, conforme gráfico abaixo.

A abertura foi calculada pela distância focal dividida pela pupila de entrada e resultou em f/11. Abaixo ela está montada em uma Tornthon Pickcard Royal Ruby Triple Extension 18x24cm.

Sobre a data deste exemplar, ele tem o número de série 3309. Existe um arquivo online com as datas e números de série, mas a tabela começa em 1863 já no número 4500. Como a Triplet foi lançada em 1862, eu suponho que esta seja alguma do primeiro ano da produção.

Acima, apenas para mostrar que ela ainda funciona, uma foto feita com a Triplet Achromatic de John Henry Dallmeyer
