Papel salgado | Henry Fox Talbot

Impressão por contato em papel salgado – Henri Fox Talbot
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Quando o inglês Henry Fox Talbot soube que em 7 de janeiro de 1839, em Paris, François Arago anunciou na Academia de Ciências que a fotografia havia sido inventada por Louis Daguerre, ele ficou surpreso e certamente arrependido de não ter dado mais atenção à divulgação de suas próprias investigações na área. Principalmente porque soube que o governo francês estudava uma polpuda pensão a Daguerre para que o invento fosse doado e tornado público. Talbot era muito rico e provavelmente, mais que o dinheiro, o que ele percebeu é que Daguerre iria ficar com a gloria de algo que, na visão dele, ele já havia alcançado em 1835, portanto, 4 anos antes.
Na verdade, em 1835 ele estava em um ótimo caminho, no caminho que seria o futuro da fotografia, mas faltavam ainda alguns passos importantes. O que ele tinha em janeiro de 1839 era um processo para imprimir, com exposição por contato, no processo que ficou conhecido como papel salgado. Mesmo assim ele não tinha ainda um meio eficiente para fixar a imagem, não conseguia ainda “lavar” do papel os sais de prata sensíveis à luz e que não foram “usados”. Desse modo, quando tirados da prensa de contato, as partes claras começavam a escurecer até que o papel ficasse todo de um marrom muito escuro.
Graças ao anúncio feito em Paris, um outro inglês, John Herschel, resolveu estudar o assunto e como ele já sabia desde 1819 que o tiossulfato de sódio dissolve os sais de prata, ele deu essa preciosa informação a Talbot e este até a passou para seus “concorrentes” franceses. Com isso, finalmente em fevereiro de 1839, ficou de uma vez por todas resolvido o problema de como fixar e tornar permanentes as imagens feitas com sais de prata em qualquer suporte.
Distinção importante
Nos processos fotográficos negativo/positivo, nos quais o negativo é impresso por contato, a necessidade de luz muda drasticamente de uma situação a outra. A imagem produzida pela lente na obtenção do negativo, ou seja, a imagem projetada no fundo da câmera, sempre será centenas ou milhares de vezes mais fraca que a luz que incide sobre uma prensa de contato.

Enquanto que na câmera a luz é captada pela lente através de uma abertura de alguns milímetros ou no máximo centímetros e distribuída por uma área bem maior, no contato a prensa é colocada diretamente sob a luz do dia e com frequência a luz direta do sol.
É por isso que o processo de obtenção do negativo demorou mais a ser desenvolvido. Fora a questão do fixador, mencionada acima, foi preciso se buscar uma sensibilidade muito maior pois a luz é muito mais fraca na câmera. Para compensar essa “fraqueza” é dado um “reforço” químico, a imagem exposta fica apenas latente, invisível, e precisa de um revelador para desencadear o processo de formação dos grãos de prata metálica que fazem os tons escuros na imagem.
Para os primeiros processos de obtenção do positivo, ou seja, de impressão do negativo, as pesquisas levaram a processos que precisavam de muita luz, mas, por outro lado, dispensavam esse passo extra da revelação, que nem era imaginado. Depois de alguns minutos ou segundos sob o sol, já era possível se ver a imagem impressa no papel. Esse é o caso do papel salgado e é por isso que as prensas tem a traseira articulada, ela serve para se inspecionar a evolução da exposição sem sair do registro.

Somente em 1874 é que foram surgir comercialmente os primeiros papeis com imagem latente, isto é, que precisavam de bem menos luz mas precisavam ser revelados. Estes novos papeis, à base de gelatina e brometo de prata, foram chamados de developing-out-papers (DOP), pois developing significa revelar, significa que a imagem não é visível logo após a exposição. Foi chamado assim para diferenciar dos printing-out-paper (POP), como o papel salgado, que já mostram a imagem tão logo sejam expostos.
O processo do papel salgado
Foram muitas as variações em aditivos e formas de se manusear o papel salgado e os reagentes. Aqui, como a perspectiva é histórica, apenas o essencial será abordado.
1- Preparando o papel
É preciso se usar um papel de boa qualidade e livre de impurezas. Papéis para aquarela são os ideais. É muito aconselhável que ele seja lavado em água filtrada ou até desmineralizada. Isto pode ser feito mergulhando-o em uma bandeja, agitando e procedendo algumas trocas de água conforme a quantidade de folhas.
2- Salgando o papel
Apenas uma face do mesmo recebe uma solução de cloreto de sódio, o sal de cozinha. Isso pode ser feito de várias formas, mas a mais tradicional é deixando-se por um minuto o papel flutuar em uma bandeja com esta solução. Depois disso ele é pendurado para secar completamente.
3- Sensibilização
O papel deve ser banhado em uma solução de nitrato de prata. Apenas a face que recebeu o sal. Isso pode ser feito, novamente, flutuando-se o papel e colocando-o para secar. Este banho já precisa ser feito com uma luz de temperatura e intensidade bem baixa. Luz de segurança de laboratório preto e branco já é mais que suficiente. O período de secagem, sendo mais prolongado, idealmente deve ser feito em escuridão total.
4- Exposição
Agora o papel já seco pode ser exposto com um negativo por cima dele e ambos prensados em uma prensa de contato. Atualmente, pode ser em uma mesa de luz ultravioleta. Mas obviamente no início da fotografia utilizava-se a luz do dia. Não é preciso sol direto, um dia claro já é suficiente. Quanto ao tempo de exposição, é preciso se fazer testes. Mas lembrando que com uma prensa adequada, pode-se ir inspecionando o surgimento da imagem. Ao abrir uma parte da prensa é bom agir rápido e mais ao abrigo da luz. Normalmente alguns poucos minutos são suficientes e o ideal costuma ser quando parece que escureceu um pouco além do ponto, pois a lavagem irá clarear a densidade geral para o nível correto.
5- Lavagem
O próximo passo é voltar para o laboratório com luz de segurança novamente e procede-se uma lavagem do papel com água limpa. O objetivo é remover o nitrato de prata que não havia se combinado com o cloreto de sódio para formar o cloreto de prata.
6- Fixagem
Passa-se a seguir para uma solução de tiossulfato de sódio. O objetivo agora é remover o cloreto de prata que se formou mas não foi exposto à luz, isto irá evitar que as partes claras da imagem escureçam quando a luz for acesa.
7- Lavagem final
Nesse ponto já se pode acender a luz e faz-se uma boa lavagem da cópia final. Os manuais antigos falam muito em “água corrente”, mas eles são do tempo em que não havia muita consciência de questões de sustentabilidade. Por isso deve-se atualizar o procedimento e se proceder a lavagem por uma sequência de trocar a água da bandeja várias vezes em vez de deixar a torneira aberta. Intercalando trocas com agitação da bandeja produz uma lavagem muito eficiente.
8- Secagem
Pode-se então pendurar ou secar a folha com um soprador térmico em temperatura apenas morna. A vantagem de secar com soprador é, além da rapidez, é que pode-se trabalhar o papel para que não curve muito. No final, prensá-lo entre duas folhas de papel mata-borrão irá garantir uma folha mais plana.
A pergunta que emerge

Por que Fox Talbot (e todo o mundo da fotografia por mais 50 anos) usou um processo de desenvolvimento (DOP) para o negativo, mas continuou a usar um processo de impressão por escurecimento direto (POP) para o positivo? Se os dois tinham base em papel e o primeiro era bem mais sensível por que não usar o mais sensível e obter cópias mais rápidas?
São três os motivos:
1- O papel para o negativo usa iodeto de prata e isto o torna não apenas mais sensível, mas muito mais sensível a ponto de que usando-o na prensa de contato, por alguns instantes apenas com a luz do dia, ele escurece por inteiro de modo quase que imediado ao entrar no revelador. O papel do positivo usa cloreto de prata que é milhares de vezes mais lento e por isso permite melhor controle da exposição.
2- Com um papel DOP, que precisa de revelação, o fotógrafo não pode ver a evolução da exposição. Tem que, como se faz na câmera, estimar e só ficará sabendo depois se estimou bem ou mal. Novamente uma questão de controle. Com os POP que escurecem enquanto recebem luz, esse acompanhamento pode ser feito de modo eficiente.
3-Estética tem também um peso nessa decisão. O papel salgado apresenta uma tonalidade quente, um marrom achocolatado que agradava muito mais que os tons frios que se obtinha nos negativos.
Resumindo: o iodeto de prata é bem mais sensível, mas precisa de um revelador, o cloreto de prata é bem menos sensível, mas escurece pela ação da luz apenas. Cada um tem suas virtudes para os processos negativo e positivo, respectivamente.
Conclusão
Este é, em linhas gerais o processo do papel salgado de Henri Fox Talbot. Se além da curiosidade histórica de apenas saber como era, você pretende se aprofundar e até fazer impressões de papel salgado eu aconselho muito o livro The Albumen & Salted Paper Book de James M. Reilly.
Uma outra recomendação, caso você faça alguns papéis salgados e goste da brincadeira, é que você construa um “Exposímetro solar UV”. A luz do sol é riquíssima e excelente para esses processos artesanais de print-out-paper, o único porém é que ela varia durante o dia e fica difícil manter consistência. Com este exposímetro você regula a “dose” de luz e ele apita quando for hora de interromper a exposição. Em combinação com uma prensa de contato articulada, que também é fácil de fazer, você terá maior controle, economia de tempo e material.
Siga os links: Exposímetro Solar UV e Prensa de Contato

Se você está no circuito temático Processos Fotográficos:
Na próxima sala você irá conhecer o primeiro processo fotográfico a atingir um grande sucesso: o Daguerreótipo. É um processo de positivo direto sobre uma placa de cobre recoberta com prata a partir da imagem produzida na camera obscura.
