Perigraphe Serie VIa | Berthiot

Perigraphe nº3 Serie VIª f/14 120 mm

A Perigraphe da Berthiot ilustra bem algo que sempre foi muito frequente entre as ópticas fotográficas mas que pode trazer uma certa confusão. É o caso de nomes que ficam famosos, ganham uma reputação, e a um certo momento o fabricante faz uma mudança significativa no desenho mas mantém o mesmo nome na lente para aproveitar a fama que o nome já tem.

As Perigraphe foram lançadas em 1888, e era mais uma lente da família das Rapid Rectilinear ou Aplanat, que iniciaram uma nova era na fotografia a partir de 1866. Por ser uma grande angular simétrica e muito bem calculada, ela se prestava maravilhosamente para trabalhos de arquitetura onde a simetria impede distorções. As muitas linhas retas que são comuns em prédios, monumentos e interiores, permanecem retas quando se usa uma lente simétrica.

Por ser uma rapid-rectilinear ela tinha apenas 4 elementos em dois grupos e portanto poucas passagens ar-vidro ou vidro-ar. Isso ajuda a reduzir o flare (quando a lente espalha luz de modo descontrolado). Essa é outra característica muito desejável em uma lente para fazer externas que combinam céu muito luminoso e muros na sombra.

Isto foi na segunda fase da que se chamava então Lacour-Berthiot. A empresa foi fundada em1857 por Claude-Stanislas Berthiot. Mas em 1894, este associou-se a Eugène Lacour, e criaram a Lacour-Berthiot.

No início do século XX a Perigraphe foi recalculada e mudou para uma construção 3 + 3, dois grupos idênticos, simétricos em torno do diafragma mas com 3 elementos cada um. Isso se deu pois quiseram aproveitar os novos vidros que permitiam a construção de lentes anastigmáticas. A Perigraphe continuou sendo uma grande angular mas com uma performance muito superior à sua antecessora de mesmo nome.

Em 1913 Lacour aposentou-se e as lentes dessa época passaram a ter apenas Berthiot Paris como fabricante. Uma quarta fase veio ainda em 1934 quando tornou-se SOM Berthiot. SOM era uma grande empresa de mecânica fina, fundada em 1913, especializada em equipamentos militares. SOM significa Société d’Optique et de Mécanique de Haute Précision.

Esta fusão é significativa de uma transição entre as boutiques de ópticas fotográficas, administradas por famílias, fundadas por opticiens que assinavam o próprio nome em suas lentes, e a produção industrial em larga escala utilizando marcas abstratas.

Este exemplar é representante da última fase da Berthiot, anterior à fusão com a SOM e ainda dentro da tradição das ópticas do século XIX. Pelo número de série ela foi fabricada por volta de 1920. Mas ela foi mantida inalterada no catálogo da SOM Berthiot até os anos 1950 quando chegou até a ter tratamento anti reflexo. Ainda é uma lente em latão, que foi a própria identidade as ópticas no começo da fotografia. Depois da fusão, como foi tendência na época, adotaram ligas de alumínio e pintura preta para reduzir o peso e o custo.

A Série VIa


A Perigraphe anastigmática era comercializada em duas séries VI a e b, sendo a primeira em f/14 e a segunda f/6.8. Nos dois casos o diafragma é do tipo disco rotatório. O círculo de imagem corresponde a um ângulo de 112º. A nº 3 , que tem distância focal de apenas 120mm cobre um quadro de 18 x 24 cm. Na página do catálogo da SOM Berthiot, reproduzida acima, lemos que ela é indicada para fotografar “monumentos muito altos nos casos em que o recuo é muito limitado”. Uma grande angular equivalente para uma câmera de filme 35mm com quadro 24 x 36 mm, full frame, teria uma distância focal de 15 mm.

Com essas características, quando ainda consideramos o tamanho dessa nº 3 ela é realmente uma ótima lente para se ter e usar. O tubo tem um comprimento total de 20 mm. O diâmetro externo da flange é de 72 mm. Ela é muito realmente pequena.

Eu costumo usa-la em apenas 4 x 5″ ou 9 x 12 cm. Ela já é uma angular mesmo nesses formato. Ela equivale a mais ou menos uma 35 mm se fosse em uma câmera 35mm full frame. A liberdade de movimentos é simplesmente enorme.

Na sala Fundamentos, aqui no museu, tem uma calculadora, na aba Ferramentas, que diz quanto que se pode subir a placa da lente conforme a distância focal e seu círculo de imagem ou ângulo de visão. No print screen acima vemos os 120 mm desta Perigraphe e os 112º do catálogo da SOM Berthiot calculados para o formato 4 x 5″. É possível se subir a lente 107 mm !! Ela sobe tanto que a linha do horizonte fica bem abaixo e fora do quadro como vemos no desenho.

Na foto acima, em 4 x 5″ usando a Thornton Pickard Tribune, eu estava em uma pequena estradinha de terra muito abaixo do nível da capela, algo entre 3 e 4 metros, e ainda assim foi possível fazer um front raise e manter as linhas verticais na vertical.


Como não se pode querer tudo, sobretudo em óptica, tenho que dizer que com f/14 a imagem é escura e é preciso um tempinho debaixo do pano preto até que a sensibilidade dos olhos aumente um pouco. Ajuda muito colocar um fresnel no despolido. Quando não se movimenta a lente e ela é mantida no centro do quadro um visor esportivo ainda que improvisado pode ajudar bem na composição.

Perigraphe é um nome que ficou por mais de 60 anos na fotografia e sempre muito prestigiada por suas qualidades. Com as emulsões mais sensíveis que temos hoje com ISO 400, que em grande formato podemos puxar facilmente para 800 ou até mais, nem seu f/14 chega a ser um grande problema. Apesar de velhinha e com essa aparência de museu, é uma ótima opção em super grande angular.

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