Bullet Camera | Kodak

Simpática câmera em bakelite fabricada pela Eastman Kodak Company de 1936 a 1942. Usa como lente apenas um menisco, um único vidro, convexo voltado para a parte externa da câmera e côncavo na parte interna. O diafragma fica atrás da lente e é fixo em  f/16. O disparador é a pequena alavanca que vemos à esquerda na foto acima. O pequeno botão no lado oposto ao disparador permite escolher como velocidades  1/50s ou B. É portanto uma câmera que praticamente dispensa o uso de um fotômetro já que para fotografias instantâneas não há outra opção além de 1/50s e f/16.

Ponto forte da Bullet é o design Art Deco do famoso Walter Dorwin Teague que desenhou diversas câmeras para a Kodak. Acima, temos o desenho técnico da câmera como foi apresentado para a emissão de sua patente. O bakelite oferece uma certa liberdade para o uso de curvas se comparado às chapas metálicas, normalmente usadas em box-cameras. Ele na verdade se dá melhor com superfícies arredondadas do que com arestas agudas pois é pouco resistente ao choque ficando facilmente lascado. É muito agradável ao toque pois tem alta dureza sem a frieza dos metais. Apresenta um brilho elegante que dispensa qualquer pintura ou acabamento. Foram diversos os modelos de câmeras lançados, não só pela Kodak, usando bakelite. Hoje são todas muito procuradas por colecionadores mas, é preciso que estejam inteiras e isso reduz bastante a oferta já que, como disse, não é um material muito resistente a impactos.

Com sua forma arredondada é uma câmera que se acomoda bem em um bolso de casaco ou bolsa de mão. Mas para isso foi necessário o recurso de uma objetiva colapsável através de um helicóide. Isto evidencia mais uma aspecto interessante do bakelite que é a sua precisão dimensional. Poucos materiais moldáveis permitiriam um encaixe tão fino para o uso do helicóide como vemos na foto acima. Quando na posição a objetiva é travada por um clique.

Por dentro, uma chapa de metal funciona como batente para armar e desarmar a objetiva.

A Kodak Bullet usa o filme no formato 127 que é uma bobina um pouco menor que a mais conhecida dos filmes 120. Atualmente, na data de publicação deste post em final de 2023, ainda existem alguns fabricantes oferecendo este formato. Pelo baixo volume, é mais caro que o filme 120. Minha estratégia é cortar o filme 120 e enrolar em bobinas antigas de 127. Fiz um tutorial completo mostrando o processo que utilizo: rebobinando filme 127.

A altura do filme é 46mm (1⅝”) e esta câmera corta o comprimento em 63mm (2½”). Um quadro de 46 x 63 mm com uma lente de focal 60mm dá um ângulo de visão horizontal de 55º e 66º na diagonal (você pode fazer essas contas facilmente aqui em ferramentas). Isso já é um ângulo de visão razoavelmente grande, principalmente se pensarmos que a lente apenas um menisco. Para compensar um pouco essa situação o filme fica ligeiramente curvado no interior da câmera acompanhando melhor a curvatura da imagem.

Como a maioria das câmeras dessa época, nas quais o design era um ponto forte, as embalagens também eram bem cuidadas e muitas delas, por sua beleza, reivindicaram silenciosamente o direito de permanecer com o tempo e não foram descartadas. Não é tão difícil se encontrar uma Kodak Bullet com sua caixinha original.

A tampa traseira da câmera sai totalmente. Ela se encaixa no lado direito (na foto acima) e tem uma protuberância (lado oposto) que trava com um fecho de metal deslizante no corpo da câmera. Esse exemplar da coleção estava com essa protuberância quebrada e por isso não fechava de modo muito confiável. Paguei um preço quase simbólico por essa falha. Porém, a boa notícia é que isso pode ser consertado. Eu fiz um furinho no local, e completei com massa epoxi. O furo foi para ancorar melhor o material adicionado. Depois de endurecida a massa epoxi, que é muito usinável, foi limada para dar o formato exato e depois pintada na cor do bakelite. Ficou como se nunca tivesse tido problema. Fica aqui uma esperança para o conserto de outras peças em bakelite.

O avanço das fotos é totalmente manual acompanhando-se a numeração marcada no papel que protege o filme pela janela vermelha no centro da traseira da câmera (foto acima). Muitas câmeras que usam esse recurso têm uma tampa deslizante para manter sempre que possível essa janela fechada. Já vi alguns fotógrafos que colocam um adesivo opaco do lado de fora da câmera para barrar qualquer vazamento de luz por essa janela. Porém, eu não tenho feito esse tipo de proteção extra e minha experiência é que usando filmes modernos o “backing paper”, já é o suficiente para não manchar o filme. Talvez no passado essa seria uma medida necessária.

O enquadramento se faz por um visor tipo esportivo, sem óptica alguma, e é importante encostar bem o olho na “ocular” para se ter um enquadramento mais em linha com o que sairá na foto final. Mas isso não é tanto problema pois com uma lente tão simples, em qualquer caso, não se deve contar com objetos que estejam na periferia da imagem pois nessa região as aberrações deterioram muito a imagem. É melhor colocar o assunto principal mais no centro da imagem e daí o enquadramento já não fica tão crítico.

Depois de uma limpeza básica e o conserto da trava eu queria sair para sentir a Kodak Bullet no uso. Logo apareceu a oportunidade perfeita. Foi quando soube que haveria aqui em minha cidade o encontro anual de proprietários de fuscas. Também criado nos anos 1930 o fusca não era em bakelite, mas suas formas arredondadas parecem conversar bem com as da velha Kodak Bullet. Seguem então alguns instantâneos do domingo ensolarado, perfeito para o 1/50s f/16.

 

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