Ultra | Clement et Gilmer

No início do século XX parecia claro para todos que a fotografia precisava ser mais prática, mais simples do que ela fora até então nos tempos da placa úmida. A emulsão de gelatina, as placas secas, que permitiu pela primeira vez a industrialização do suporte fotográfico, foi um grande passo. George Eastman, fundador da Kodak, entendeu que para a maioria das pessoas o laboratório fotográfico caseiro era uma barreira e não um atrativo. Por isso sua proposta de câmeras com filmes em rolo, processados por profissionais como um serviço ao fotógrafo ocasional, foi um enorme sucesso. A Kodak Brownie nº2 é talvez a câmera mais emblemática dessa tendência.
Mas o fotógrafo mais dedicado, aquele que tinha um gosto especial por uma fotografia mais estudada, por revelar suas próprias placas e imprimir suas cópias, este ainda estava tateando entre as opções e procurando alguma que poderia satisfazer seu gosto exigente sem abrir mão do progresso que significavam as placas secas.
É muito interessante se observar as opções que a indústria ofereceu a estes que eram seus clientes mais apaixonados pela fotografia. Eram em sua maioria câmeras que guardavam uma similaridade de base com as view cameras, com o tradicional fole, vidro despolido, tripé e pano preto, que era a marca do fotógrafo profissional. Mas acrescentavam alguma coisa para parecer mais práticas e portáteis.

Esse é bem o caso da Ultra, francesa da tradicional Clement e Gilmer. Ela tem um design que permite se guardar 3 chassis duplos dentro da própria câmera e o conjunto todo pode ser facilmente transportado como uma pequena maleta.

Segue ainda uma tendência da época por um formato de “quarto de placa” que na Europa significava 9 x 12 cm e é do tipo drop bed, abre-se pela frente e uma plataforma tomba como uma ponte levadiça onde a placa da lente irá deslizar para frente.
Ainda no tema da praticidade a Ultra oferece um visor do tipo brilliant finder que pode girar 90º para os formatos retrato ou paisagem. Na foto abaixo ele é a grande lente que está à esquerda e abaixo da câmera.

No anúncio abaixo a construção da Ultra é descrita como forme américaine, isto se refere justamente a uma câmera que abriga os chassis dentro dela. Esclarece também que o obturador é fabricado pela Baush & Lomb, embora receba uma plaqueta em metal onde se lê Clegil, referência a Clément et Gilmer (foto acima).

Esta câmera foi uma doação ao museu e chegou precisando de uma limpeza geral. Abaixo uma foto do obturador de duas lâminas antes da limpeza.

A objetiva é do tipo Rapide Rectilinear, é mencionada como objectif rapide symétrique. Mas não há nenhuma marcação de distância focal ou abertura. Mas deve estar por volta de 130 a 150 mm e f/8 como seria o mais comum pelo formato da câmera e tipo de construção da lente.
Essa categoria de câmera, sem incluir o porta chassis, mas no aspecto drop bed, teve um grande futuro ao longo do século XX em câmeras como as folding Ikontas e derivadas, de médio formato, ou mesmo nas Linhof Technika. Mas esta ainda não foi a solução para o amador avançado que realmente queria alta qualidade de imagem com o máximo de facilidade no fotografar. Isso ainda teria que esperar 1925, quando chegou a Leica. Para saber mais, leia A revolução Leica.
Veja a Ultra na linha do tempo da fotografia para conhecer mais sobre o que havia no início do século XX.
Abaixo, o retrato da amiga Noelina, justamente a pessoa que doou a câmera e logicamente feito com a própria Ultra.

