A fotografia Leica

Logo de início, ficou claro que a Leica significava uma nova maneira de fotografar. Não só pela câmera em si, mas também pelo fato de que o filme, a revelação e a ampliação das fotos formavam um sistema diferente de tudo o que os fotógrafos estavam acostumados a lidar.

Consciente desse fato a Leitz imediatamente disponibilizou este sistema com bobinas para enrolar o filme de cinema (que era comprado a granel), tanques para revelação, ampliadores e outros acessórios de laboratório.

Destinada a um público amador avançado e exigente, a grande batalha a vencer era convencê-lo de que a pequena câmera e sua poderosa lente Elmar, mesmo com o pequeno negativo 24×36 mm, poderiam render ampliações 18×24 cm com qualidade comparável a negativos bem maiores. A promessa era de que o ganho em mobilidade não seria pago com redução na qualidade da imagem final.

Foi disponibilizada extensa literatura e exibições da “fotografia Leica” nos principais mercados. Foi ainda muito importante o trabalho de “embaixadores” da marca, eram fotógrafos profissionais que endossavam e demonstravam as vantagens de se migrar para o novo sistema.

Um caso emblemático foi Dr. Paul Wolff, formado em medicina mas com interesses acadêmicos em história da arte e literatura, na década de 1920 ele trabalhava como fotógrafo profissional e foi um dos que tiveram a chance de experimentar protótipos da Leica. Ele mesmo conta que a princípio duvidou que aquela miniatura de câmera poderia render boas fotos, mas depois de usá-la foi um dos que mais ajudou a provar o contrário.

Capa da edição francesa com o título ’12 anos de prática da Leica’

Entre muitos outros, em 1933 ele publicou um livro com o título Meine Erfahrungen mit der Leica, que seria ‘Minha experiência com a Leica’. Uma edição de luxo com formato 23×28 cm e 192 páginas. Foi logo traduzida para Francês, Inglês e outras línguas.

O livro abre com uma frase desafiadora: “Quem quer que queira praticar a Leicagrafia, deve estar firmemente disposto a se liberar de toda tradição anterior e a engajar-se com perseverança no estudo de um novo modo de fotografar”. Desde o início a marca assumiu esse ar, até essa responsabilidade, de ser uma ruptura com o passado. Essa ideia ressoou muito bem com os fotógrafos que sentiam-se realmente inaugurando uma nova era ao adotarem a Leica.

Sem ser um manual no sentido de ensinar a usar uma câmera, pois ele assume que o básico de fotografia o leitor já conhece, o livro também não entra no detalhe dos controles e ajustes da Leica. Mas trás uma série de considerações sobre o ato de fotografar em si.

Está dividido em sessões temáticas como paisagens, retratos, mundo do trabalho, esportes, viagens e até fotografia científica, entre outras. Ele faz notar a evolução dos filmes desde o lançamento da Leica em 1925 apontando a melhoria sensível que aconteceu no grão das fotos. Dá a dica de que expondo mais e revelando menos a granulação pode ser reduzida. Interessante também é que para todas as fotos ele aponta, em uma tabela no final do livro, qual lente (a partir de 1930 a Leica já podia trocar lentes), filme, filtro, velocidade e abertura que usou.

Mas o mais interessante mesmo são as fotos em si. Hoje elas podem nos parecer banais, mas na época, qualquer um com um mínimo de experiência, perceberia de imediato que os assuntos, os ângulos, as condições de luz seriam muito difíceis, se não impossíveis, de se obter com as câmeras tradicionais. Abaixo uma seleção de algumas páginas. Clique nas imagens para vê-las em tamanho maior.

Sobre a maior parte da imagens podemos imaginar que o fotógrafo simplesmente “aproveitou” o fato de que estava lá, possivelmente por acaso ou por algum outro motivo além da tomada da fotografia, mas achou a cena interessante e … fez a foto. Em quase todas há algo acontecendo, algo que transcorre, algo que se transforma diante dos olhos e a fotografia é a captura desse instante. Esse imediatismo, portabilidade, discrição e alta qualidade das fotos, são as marcas da Leica.

O mundo visto por uma Leica

A diferença que fazia uma Leica, levou a um novo gênero de publicação de livros de viagens. Os títulos indicavam além do lugar também o fato de que as fotos foram feitas com a nova câmera.

Rudolf Pestalozzi, fotógrafo e alpinista, publicou vários como este acima onde se lê: ‘Paisagem do Lago de Zurique, do meu caderno de esboços da Leica. O que este subtítulo implicava é que dentro estariam fotos mais dinâmicas que os tradicionais de cartões postais, com pontos de vista mais criativos. O aditivo ‘Leica’, trazia contemporaneidade para a publicação.

O fotógrafo, que antes teria que andar pela rua carregando tripé e maletas com equipamento, era o tempo todo fotógrafo. De longe já era reconhecido como tal. Com a Leica ele era um simples pedestre, visitante, turista e apenas quando quisesse registrar algo interessante que se mostrava à sua frente, ele sacava sua câmera do bolso, registrava aquele momento e voltava a se misturar no ambiente como qualquer outro. O fotógrafo torna-se assim um simples flâneur que passeia, que observa e participa mais ou menos, segundo sua vontade, como se sua identidade de fotógrafo estivesse escondida. Essa característica da Leica iria transformar a fotografia.

Livros como esses de Pestalozzi e Wolff foram a base de uma nova fotografia amadora que encontrou expressão principalmente nos fotoclubes que se multiplicavam desde o início do século XX. Não bastava, para estes fotógrafos fotoclubistas, fazer a foto das crianças, do parque ou do passeio, era preciso fazer bem feita. Era preciso fazê-la parecida com a que viram no livro, na revista ou na exposição do fotoclube. Eles buscavam deixar a marca de uma intenção artística, de um controle técnico primoroso e estavam felizes de agora poder fazê-lo com uma câmera leve e que não interferia em suas outras atividades.

Leica no fotojornalismo

As hipóteses de Oscar Barnack e Enst Leitz II, de que haveria uma legião de fotógrafos amadores mal servidos e prontos a trocar suas câmeras de médio e grande formato por uma miniatura que oferecesse qualidade, confirmaram-se totalmente. O que aparentemente eles não suspeitavam é que havia uma revolução em gestação também no fotojornalismo e que a Leica seria instrumental para essa revolução.

Library of Congress – USA – Fotógrafos de imprensa na década de 1920

A câmera de base usada pela imprensa era no formato 13 x 18 cm e por isso mesmo utilizava placas de vidro. Podia ser uma Monoreflex como a Graflex Auto RB ou uma clap camera como a Deckrullo. Esse tipo de equipamento dava prioridade para qualidade de imagem mas sacrificava muito a portabilidade e rapidez no trabalho do fotógrafo.

Porém, se examinarmos o que era publicado na imprensa dos anos 1920, veremos que apesar de grandes e lentas na operação, estas câmeras eram coerentes com o estilo da esmagadora maioria das fotos jornalísticas. As imagens serviam primariamente a ilustrar o texto. Eram geralmente fotos oficiais em eventos públicos, retratos de autoridades, celebridades, enfim, os grandes da época. As matérias eram sobre os fatos e eventos que tivessem relevância para a sociedade. As fotos, geralmente externas e em grandes planos, capturavam os elementos mais significativos para completar a reportagem dando-lhe um suporte visual.

Porém, memória fresca dos horrores da guerra, a dureza da reconstrução e a crise financeira, geraram um sentimento de aversão aos grandes temas. Os leitores começaram a sentir-se psicologicamente exaustos pela teoria política abstrata, pelas estatísticas econômicas áridas e pelo ciclo constante de conflitos e crises globais. Eles buscavam histórias que afirmassem a dignidade individual e a resiliência emocional. Focar na vida simples e sincera de um indivíduo comum tornou-se uma forma de escapismo ou afirmação emocional.

A imprensa respondeu com revistas que começaram nos anos 30 e eram fortemente apoiadas em imagens, deixando agora o texto como auxiliar de um novo gênero ou formato, o ensaio fotográfico humanista. Uma revista em especial teve um papel fundador nesse novo jornalismo, foi a americana Life Magazine, lançada em 1936. Mas também Picture Post (UK, lançada em 1938), Regards (França, lançada em 1932), Ce Soir (França, lançada em 1937). Fotógrafos como Alfred Eisenstaedt, Henri Cartier-Bresson e W. Eugene Smith foram definidores dos paradigmas da tendência.

No livro Eyes Wide Open, 100 years of Leica Photography, Peter Hamilton define a fotografia humanista por seu intento de substanciar a universalidade das emoções humanas, a historicidade das imagens em sua posição no tempo, local e contexto, o foco no cotidiano, nas pessoas comuns e na empatia do fotógrafo com o fotografado.

É importante se acrescentar a estes pontos que há uma intenção estética que vai além ou anda junto com a vontade de louvar e exaltar a grandeza dos temas humanistas. É justamente a contribuição do fotógrafo enquanto artista, consciente de que afinal seu público verá uma foto e não o ambiente ou história que o fotógrafo presenciou. É preciso saber contar uma história. É essa consciência que o leva a atuar, a fazer escolhas que tornam sua imagem poderosa como discurso sobre essa realidade que ele recupera e re-significa segundo sua subjetividade. Basta se folhear um livro de Henri Cartier-Bresson, André Kertész ou Alfred Eisenstaedt, e é impossível não perceber e admirar que há sempre um ângulo bem escolhido, uma composição equilibrada, uma hierarquia de elementos, um direcionamento do olhar e que enfim estes elementos plásticos da imagem não são obra do acaso. São eles que lhes dão força e poder de formar uma ideia, uma atitude em nossas mentes. O fotógrafo não apenas captura, ele também contrói suas imagens.

A Leica foi um instrumento chave dessa nova fotografia. A rapidez com que várias imagens podiam ser obtidas em sequência, o silêncio da operação, a facilidade com que a câmera podia ser sacada ou escondida, a facilidade de se entrar nos mais variados ambientes sem ser notado, de poder apontar a câmera em qualquer direção, tudo isso dava ao fotógrafo a liberdade de um caçador, um caçador de imagens, uma associação muito frequente na literatura. Mas é preciso cuidado, pois essa metáfora escamoteia algo que é a chave do processo, pois se a caça não é obra do caçador, as imagens são, em larga medida, uma criação do fotógrafo.

The Family of Man

Observando-se o que se seguiu, depois que a Leica e incontáveis outras marcas e fabricantes no mesmo conceito dominaram a produção fotográfica no século XX, parece que ainda estamos imersos nessa visão do papel humanista da fotografia como sendo sua identidade e até razão de ser. Mesmo as correntes contrárias ou que questionaram essa foto universalista, engajada e focada no cotidiano das pessoas comuns, o fizeram por contraposição, como reação a esse conceito de base e isso apenas mostra o seu vigor. Ele pode ter sido questionado, mas não esquecido.

Mas é ponto pacífico que o fotojornalismo humanista foi praticamente sinônimo de fotojornalismo até bem depois da Segunda Grande Guerra. Um evento de extrema relevância e sucesso, que é hoje visto como uma espécie de ápice do gênero, foi a exposição organizada por Edward Steichen para o Museu de Arte de Nova York em 1955: The Family of Man.

Livro da exposição. Vem sendo re-impresso e é muito fácil de se encontrar.

No texto de apresentação do livro da exposição Steichen escreveu:

“The exhibition, now permanently presented in the pages of this book, demonstrates that the art of photography is a dynamic process of giving form to ideas and of explaining man to man. It was conceived as a mirror of the universal elements and emotions in the everydayness of life – as a mirror of the essential oneness of menkind throughout the world”

“A exposição, agora apresentada permanentemente nas páginas deste livro, demonstra que a arte da fotografia é um processo dinâmico de dar forma às ideias e de explicar o homem ao homem. Foi concebida como um espelho dos elementos e emoções universais do cotidiano – como um espelho da essencial unicidade da raça humana por todo o mundo.”


Ele conta que iniciaram a seleção com cerca de 2 milhões de fotografias de todos os cantos do planeta. Selecionaram 10 mil e dessas, 503 imagens de 68 países e 273 fotógrafos entraram na exposição a qual, depois do MoMA, circulou por diversas cidades e foi um enorme sucesso.

Muitos fotógrafos famosos foram expostos ao lado de desconhecidos e também os tamanhos das impressões variava bastante. Em todos os sentidos a idea de base foi não hierarquizar, não diferenciar e colocar toda ênfase na universalidade do elemento humano, como era a premissa da fotografia humanista. A foto acima é do site do MoMA. Nele é possível se explorar uma quantidade enorme de fotos da exposição. Siga o link: The Family of Man.

Uma câmera é apenas um instrumento, mas acho que não é exagero se dizer que a Leica teve um papel muito importante no desencadear de transformações que mudaram a fotografia e a colocaram como motor de mudanças em valores fundamentais em nossa sociedade.

Para dizer o mínimo, é inegável que o fotojornalismo humanista encontrou na Leica seu instrumento de predileção e que sua influência deu um suporte tangível para ideias que hoje debatemos muito. Falo de temas como identitarismo, multiculturalismo ou descolonização. A exposição The Family of Man, por ter sido uma espécie de resumo do que se passava nos setores editorial e de arte contemporânea, ajudou a materializar para toda uma geração a ideia de que existe uma natureza humana profunda na qual todas as diferenças culturais e genéticas se nivelam e que os seres humanos podem, sem abdicar de suas diferenças, viver como se elas não existissem.

Se você está no Circuito Temático A revolução Leica, esta foi a última sala. Grato pela visita. Espero que tenha gostado.

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