Monóculos para slides

Estes pequenos monóculos foram muito populares nos anos 1960 e 1970. Os filmes Kodachrome e Ektachrome reinavam supremos desde os anos 1950. Estes eram filmes coloridos positivos, isto é, produziam uma imagem já positiva com o próprio filme que o fotógrafo colocava na câmera. Os filmes negativos a cores (como Kodacolor) existiam, mas o processo de impressão era manual, caro e as cores eram frequentemente de má qualidade.
Este atraso tecnológico na cadeia produtiva da foto colorida em papel deu uma dianteira para as projeções de slides como formato padrão para a fotografia amadora. As famílias nessa época tinham projetores de slides assim como no século XIX tinham seus Graphoscopes. Reuniões para assistir uma série de slides eram eventos muito animados e amados principalmente pelas crianças.
O mini-lab, com máquinas autônomas da Agfa Gevaert e Noritsu que podiam ser instaladas em qualquer comércio, não necessariamente no ramo da fotografia, como supermercados e até bancas de jornal, oferecendo fotos em 1 hora nos formatos 9 x 12 cm e mais tarde 10 x 15 cm, foram um fenômeno dos anos 1980. Até lá os slides eram o padrão para fotos coloridas para o público em geral.
A câmera dos monóculos

Quando Maitani projetou a Olympus Pen e a lançou em 1959, ele estava obcecado por uma coisa: democratizar a experiência Leica da fotografia em filmes 35 mm. Na época, uma Leica custava aproximadamente seis meses de salário japonês; a Pen custava 6.000 ienes (cerca de 1,5 meses de salário).
Mas outro aspecto era o custo do filme vs. custo da câmara: Maitani sabia que, para o fotógrafo de finais de semana, o custo da câmara era apenas a primeira barreira. O verdadeiro custo recorrente era o filme e o processamento.
O slide veio como solução pois os negativos coloridos eram caros para imprimir, mas os slides coloridos eram a escolha “eficiente”. Por isso ele desenhou uma câmera que faz um quadro que é metade do quadro normal em uma câmera para filme 35mm, isto é, 18×24 mm em vez de 36×24 mm, que é chamado hoje de full-frame.
Ao duplicar o número de exposições de um filme de 36 poses (72 por rolo), Maitani tornou a fotografia colorida economicamente viável para as massas. O método de visualização, por algum tempo, permaneceu a projeção. Mas isso dependia de que as molduras dos slides fossem adaptadas ao novo formato. Na Europa e no Japão, os laboratórios de processamento adaptaram-se rapidamente, fornecendo slides montados em meio quadro. No entanto, a Kodak nos EUA recusou-se a fabricar montagens para slides de meio quadro. O resultado: os utilizadores americanos recebiam os seus filmes sem montagem ou com duas imagens de meio quadro compartilhando numa única montagem de quadro inteiro. Este atrito teve o efeito de acabar com o ímpeto das Pen no mercado americano. Naquele mercado sistema de Maitani, para projeção, foi essencialmente bloqueado pela recusa de um gigante global em alterar o seu programa industrial.

Como remédio, imediatamente surgiu o monóculo. Extremamente simples, composto por apenas 3 peças: corpo cônico, tela leitosa e uma lente de plástico, ele acomoda um slide por vez e possibilita uma experiência imersiva e cativante.

Cada foto é cortada e apenas encaixada na telinha. Esta, prende-se no cone com um click. Sem cola ou outro meio de fixação. Este dispositivo foi vendido sobretudo como um genérico. Alguns fabricantes, como a própria Olympus e a gigante de acessórios fotográficos como a australiana Hannimex criaram suas versões mais premium. Também algumas grandes redes colocaram seus logotipos e aproveitaram o espaço para fazer seu branding. As quantidades eram astronômicas e por isso os preços imateriais.
A profissionalização dos monóculos no Brasil
Abaixo seguem exemplos que uma família gentilmente cedeu para ilustrar este artigo. São fotos realizadas no Brasil na já década de 1980. Talvez a atividade tenha variações regionais e diferenças para outros países. Mas essencialmente deve seguir o mesmo protocolo pois compartilha muito com a atuação de fotógrafos de ferrótipos do século XIX e os lambe-lambe do século XX. Uma grande diferença para esses ancestrais está na possibilidade que a câmera e o processo davam ao fotógrafo de monóculos de fazer instantâneos sem mesmo ter o consentimento de seus prováveis clientes.
Armados de suas Olympus Pen, com ou sem flash, dependendo da situação, aproveitavam momentos que poderiam render uma lembrancinha e saiam fotografando famílias, grupos de amigos e namorados em locais onde estes se concentravam.

Acima temos uma situação típica. É possível identificar uma lona de circo, o picadeiro, e o pai aguardando com a filha o início do espetáculo. Nesses minutos o fotógrafo corria pela platéia fotografando as pessoas, sem autorização ou compromisso. A seguir, durante o transcorrer dos números, o filme era revelado e os monóculos montados.
O fotógrafo tinha um tempo muito curto para fotografar o público, regressar antes que este deixasse o local e assim poder vender os monóculos. Um processo E-6 padrão envolve seis etapas químicas distintas, além de várias lavagens.
Revelação:
Tempo de revelação: O tempo real de «imersão» (nos produtos químicos) é de aproximadamente 30 a 40 minutos.
Secagem:
O gargalo da «secagem»: esta era a parte mais difícil. O filme molhado é frágil e não pode ser montado em slides. Usando um armário de secagem portátil aquecido (ou mesmo um secador de cabelo numa câmara escura improvisada), eles conseguiam deixar o filme «seco ao toque» em 15 a 20 minutos.
Montagem:
Cortar e encaixar o filme em suportes de plástico ou cartão para os visualizadores levaria mais 10 a 15 minutos por rolo.
Tempo total: desde o momento em que terminavam o rolo até ao momento em que voltavam ao cinema/circo ou teatro com os monóculos na mão, levava cerca de 60 a 90 minutos.
Abaixo, uma outra situação semelhante, talvez em um teatro de rua. Dá para notar que foi utilizado um flash e que o casal estava bem alheio à atuação do fotógrafo.

A praia
Local privilegiado, com abundância de luz e predisposição para adquirir um souvenir por parte dos frequentadores, a praia era o local clássico para os monóculos. Dificilmente alguém que tenha vivido naquela época não terá lembrança dos fotógrafos arrastando suas pequenas jangadas pela areia e com uma câmera pequena pendurada no pescoço.

A jangada era item obrigatório, além de atrativo para as crianças, alguém apenas com areia e mar de backdrop não daria uma foto “profissional”. Elas tinham uma base de isopor que aliviavam seu peso quando o fotógrafo as puxava pela parte rasa da água.

A foto era feita sem compromisso. O cliente a adquiria depois de ver e a seu critério. Normalmente o fotógrafo fazia as tomadas pela manhã, anotava o nome do prédio ou condomínio e passava à tarde para mostrar e vender.
Monóculos full-frame
Com frequência menor, o monóculo também existiu no formato integral em 24×36 mm. O habitual para este formato era a montagem em molduras de 5×5 cm destinadas à projeção. Existiam também visores individuais para slides montados.

Aqui são duas lembranças em ambiente de trabalho realizadas para um monóculo full-frame.

Na imagem abaixo é possível se observar a relação de tamanhos entre os dois formatos.

Como foi dito acima, a partir dos anos 1980 o custo de impressão de fotos em papel e a disponibilidade do serviço tomaram a frente da cena e os monóculos foram rapidamente desaparecendo. É possível se fazer o processo em preto e branco mas somente alguns amadores mais dedicados, sem atuação comercial, é que ainda cultivam a arte pois o mais importante é que: ainda possível se comprar monóculos novos online. A experiência de se olhar, como que espiando, através da pequena lente é algo único e encantador.
