Hasselblad | Victor Hasselblad


A história da câmera Hasselblad começa com um modelo de uso militar desenvolvido para a força aérea sueca em 1940, logo no início da Segunda Guerra Mundial. Por interrupção ou dificuldade de fornecimento, ou ainda por brios nacionalistas, a tecnologia alemã, a melhor da época, não foi considerada uma opção. Em vez disso, um jovem talentoso de 34 anos, Victor Hasselblad, foi requisitado para desenvolver uma câmera de médio formato, portátil e adequada para o trabalho de reconhecimento aéreo. Diz a lenda que lhe entregaram uma câmera alemã para copiar e ele respondeu: “Não, como essa não, vou fazer uma melhor”.

Mas nas ópticas, provavelmente não havia possibilidade alguma para desenvolvimentos de última hora e foram utilizadas as germânicas mesmo. A lente padrão era uma 13.5 cm f/2.8 Zeiss Biotessar. Para telefoto as opções eram 24 cm f/4.5 Schneider Xenar ou 25 cm f/5.5 Meyer Tele-megor.

O modelo desenvolvido levou o nome Ross HK-7. Mas este Ross não tem relação com a inglesa fabricante de lentes, era simplesmente o nome de uma oficina de desenvolvimento que Victor abrira em Gothenburg. Justamente pela coincidência, mais tarde quando a marca se internacionalizou, ele precisou mudar o nome, tirou o Ross e ficou Hasselblad.

A HK-7 era grandinha, 31 x 26 x 17.6 cm e pesava 4,8 kilogramas. Fazia fotos no formato 7 x 9 cm, daí o sufixo 7 do nome. Na foto acima temos uma ideia melhor de seu porte imponente e design realmente militar. Só fico me perguntando o que faz uma Rolleiflex ali no chão. Seria o back-up?

Victor Hasselblad vinha de uma família da elite de Gothenburg e já com uma tradição em fotografia. Desde 1885 era distribuidora da Eastman Dry Plate & Film Company (futura Kodak). Ele tinha paixão por fotografar natureza. Desde o início do desenvolvimento da HK-7 Victor não via o campo militar como seu objetivo final, pois já imaginava como poderia ser uma câmera ideal para fotos “civis”.

Na foto acima, Victor usa uma Graflex Auto RB para fotografar pássaros (foto de: Stig Hasselblad, 1927). O conceito de monoreflex, quando o visor apresenta a imagem da própria lente da câmera, é certamente a configuração ideal para fotografia com lentes longas e assuntos em movimento. Este foi o tipo de câmera que Victor mais tarde adotou para seu projeto.

Mas na década de 1940, qualquer um que pensasse em lançar uma nova câmera para um público mais sofisticado, teria que se comparar com Leica e Rolleiflex e ter bem claro onde é que o projeto iria se diferenciar para não ser apenas mais uma cópia dessas que dominavam o mercado de prestígio em câmeras fotográficas. Importante lembrar também que a Exakta VP, monorreflex usando filme 127, foi uma câmera utilizada por Victor Hasselblad na década de 1930 e sem dúvida deixou sua impressão no jovem fotógrafo. A Exakta foi a verdadeira pioneira em médio formato monorreflex e com lentes intercambiáveis. Lançada em 1933 pela Ihagee, em Dresden. Era uma câmera muito confiável e prática, fazendo negativos em 4,5 x 6 cm. Mas por questão de estratégia da marca a Ihagee preferiu dar prioridade à Kine Exakta, utilizando filme 35 mm, e a sua médio formato ficou para trás.

A ideia com a Hasselblad foi a de oferecer uma combinação única e muito feliz. Parece que reúne tudo que havia de melhor na época e ainda trás novidades importantes. A Hasselblad 1600F, para o mercado de consumo, foi lançada em 1948 em Nova York com as seguintes características:

  • Formato 6×6 cm – consagrafo pela Rolleiflex como melhor relação tamanho x qualidade de imagem e utilizando o também consagrado e disponível filme 120.
  • Ópticas excelentes e intercambiáveis – como a Leica ou Exakta.
  • Monorreflex – Como a Graflex em grande formato ou a Exakta em médio formato
  • Chassis (backs) intercambiáveis – grande adicional para uma câmera de filme em rolo, dando-lhe a facilidade da troca do tipo de filme como se fosse em uma câmera para chapas ou placas.
  • Muito compacta com um corpo cúbico de design muito atraente e reminiscente do minimalismo dos equipamentos militares de onde ela nasceu.

Obturador, o toque final

Um ponto muito interessante sobre a Hasselblad foi o seu movimento contrário às tendências da época ao adotar em 1957 os obturadores do tipo leaf-shutter, nos quais cada lente tem seu próprio obturador. Primeiro basta lembrar que é muito mais racional ter um único obturador no corpo da câmera e assim não multiplicar o mesmo pelo número de ópticas. Isso começou com a Leica em formato 35mm, depois a Exakta e foi nessa configuração que as japonesas SLR (monoreflex) conquistaram a liderança absoluta do mercado na década de 1960. Câmeras monoreflex alemãs, como a Contaflex, Bessamatic ou Retina Reflex, que insistiram em manter o obturador tipo leaf shutter, como o Compur e suas variações, não conseguiam competir e foram descontinuadas.

Porém, nas médio formato a situação é um pouco diferente. O tamanho do quadro já começa a equilibrar as vantagens e desvantagens de cada uma das opções de obturador de cortina no corpo ou obturadores tipo leaf shutter nas lentes.

As primeiras Hasselblads, a começar com a militar HK-7 e depois com a versão civil 1600F de 1948, vieram com obturadores de cortina. Provavelmente essa pareceu a solução em linha com o que havia na época para câmeras de fotografia na mão, como as Ermanox, Deckrullo e Graflex. Porém, a necessidade de miniaturização do mecanismo comprometia a confiabilidade desse sistema. As primeiras Hasselblad eram suscetíveis a quebras no obturador ao ponto em que começou a comprometer a imagem da marca.

Em 1957, Victor Hasselblad fez o ousado movimento de lançar a série 500 com um corpo desprovido de obturador e este agora era um Synchro Compur incorporado aos tubos das lentes. A nova Hasselblad ficou alguma coisa híbrida entre grande, médio e pequeno formato. Como uma Linhof Technika ou Kardan, ela deixava o obturador para a lente. Como uma Rolleiflex ela tinha um espelho com foco e enquadramento em um despolido no topo da câmera e podia se equipada com um prisma para visão ao nível dos olhos. Como uma Exakta, ou uma Nikon F que viria no ano seguinte, ela era uma monoreflex.

Esta foi de fato a configuração que tornou definitivamente a Hasselblad a melhor câmera médio formato pelos próximos 50 anos. A evolução da série Hasselblad 500 representa o ápice do conceito modular de câmeras SLR com obturador tipo leaf-shutter. Partindo da ousada mudança de rumo em 1957, a série passou por diversas revisões e melhorias importantes até chegar aos modelos finais, mas ainda totalmente mecânicos.

Cronologia da Série 500 Mecânica

1957: Hasselblad 500C

A base do sistema moderno. Substituiu o obturador de plano focal por um obturador de lâminas integrado à lente, permitindo a sincronização do flash em todas as velocidades.

1970: 500C/M

O “M” significa “Modificada”. Este marco introduziu telas de foco intercambiáveis ​​pelo usuário, permitindo que os fotógrafos trocassem facilmente uma tela padrão por uma versão com microprisma ou imagem dividida.

1988: 501C

Um modelo “de volta ao básico” que simplificou o sistema removendo a janela de sinal do obturador montada no corpo da câmera. Foi lançada para oferecer um ponto de entrada mais acessível e puramente mecânico no sistema.

1994: 503CX / 503CW

Enquanto a série 503 introduziu a medição de flash TTL (Through-The-Lens), a 503CW (1996) tornou-se um marco mecânico por seu **Sistema de Espelho Deslizante (GMS)**. Isso resolveu o problema de vinheta no visor ao usar lentes teleobjetivas longas.

1997: 501-CM

O refinamento máximo da série 500. Combinou o corpo simplificado e não eletrônico da 501C com o avançado **Sistema de Espelho Deslizante** da 503CW. É frequentemente considerada a “caixa” mecânica mais elegante e confiável da história do sistema.

2013: Fim da série

A 503CW foi a última câmera do sistema V a ser produzida, marcando o fim da linha para o sistema totalmente mecânico e baseado em filme que Victor Hasselblad idealizou na década de 1940.

O exemplar na coleção

Esta é uma 501-CM fabricada no ano 2000. Este modelo, lançado em 1997, foi como uma “Declaração Mecânica Final”. Ela chegou em um momento em que a indústria estava se tornando cada vez mais eletrônica, mas reforçou a promessa de 1957: uma ferramenta confiável ainda que sofisticada e complexa. Cheia de lógica em seus controles e proteções, mas ainda assim puramente mecânica e modular.

Na foto acima ela está com uma Planar 80mm f/2.8 que era a lente normal e corresponde à diagonal do quadro de 6 x 6 cm.

O visor padrão é do tipo “Visor de Tela de Foco” e é simplesmente uma proteção contra a luz exterior para facilitar a visão direta da imagem que e lente projeta na tela de foco através do espelho.

Em condições ideais a imagem é vista como na foto acima. Nesse caso eu estava interno enquadrando uma cena externa. Mas quando se está a céu aberto é preciso se aproximar para cobrir o despolido, fazer sombra com a cabeça, e reduzir a luz que incide sobre a tela. Aproximando-se o olho é preciso se acionar uma lente de aumento complementar, uma lupa, incorporada no próprio visor. Eu nunca utilizo este sistema. Já que é preciso se aproximar, prefiro o visor prismático que não inverte a imagem na horizontal e já tem seu próprio escurinho.

Estas são opções para se montar um kit com uma lente mais longa, Makro Planar T* Cfi 120 mm, f/4 (esquerda) e uma angular, no caso a Distagon de 50 mm e f/4 também. A Distagon tem um elemento flutuante, isto é, uma lente interna que pode ser movimentada e reduz o efeito de vinhetar que é comum nas grande angulares.

É esta escala onde deve-se colocar a distância a que o objeto está focalizado e isso tem o efeito de não escurecer o canto das fotos. Mas várias vezes eu já esqueci de fazer isso e o que vem não é nenhum desastre. Nada que não se possa corrigir no laboratório.

Acima um visor prismático de 45º. Existem modelos de 0 e 90º também, mas o 45º é provavelmente o mais versátil. A câmera está montada com uma Zeiss Sonnar 250mm f/5.6. Esta foi a lente usada para a famosíssima foto da Terra feita da Lua.

A ironia é que aproveitando a modularidade do sistema, a câmera utlizada pela NASA, uma Hasselblad 500 EL modificada, foi deixada para trás, lá na Lua, e apenas os magazines com o filme é que voltaram para a Terra.

Acima o magazine A12 que faz 12 fotos com um filme 120 e ao lado uma alça para se usar com a câmera no pescoço. Existiram outros magazines (back) para fazer fotos em 4,5 x 6 cm e ainda 4 x 4 cm que seria um formato popular para super-slides de projeção. Esses formatos eram ainda declinados em filme 120 e 220 que tem o dobro da extensão e portanto dobra o número de quadros.

Filtros para a Hasselblad usam um sitema de baioneta e isso os torna raros e caros. Uma solução mais em conta é se utilizar um anel adaptador que encaixa na baioneta mas oferece uma rosca para se utilizar com filtros comuns. Acima está um adaptador de baioneta B60 para rosca 67 mm e outro de B50 para 55mm. São os mais comuns.

As lentes mais recentes têm um tratamento anti-reflexo e um design muito bons que ajudam muito a controlar o flare. Mas um parasol é sempre algo desejável até mesmo como proteção contra choques mecânicos.

Na esquerda da câmera há um dark-slide que permite se fechar o magazine para se trocar o filme mesmo com o rolo parcialmente exposto.

Do lado direito da câmera está o avanço do filme, o contador de fotos e a manivela para se terminar de enrolar o filme quando este tiver totalmente exposto. Note também o botão disparador na frente da câmera no lado direito.

Para quem usa 35mm não dá para se dizer que seja um equipamento leve. Mas com um pouco de organização dá bem para se sair por aí para fazer fotos externas. Acima está uma bolsa à tira-colo para a qual eu fiz uma base de madeira com separação para a câmera e dois tubos de PVC, forrados de EVA para acomodar as lentes. Acima das as lentes há espaço para o fotômetro e nos bolsos (do outro lado) coloco os dois filtros, mais um back e cabo disparador. Muito prático. Só a Sonnar 250 mm é que fica de fora. Tenho que escolher, antes de sair, entre a Makro Planar ou Distagon, qual que irá ficar em casa, caso imagine que vou precisar da 250 mm.

No uso

A intenção original de Victor Hasselblad foi a de uma câmera para o explorador, para fotos externas e de natureza, pois esse era o seu gosto em fotografia.

Mas ao longo dos anos 1960, estabeleceu-se como que um padrão no qual a Hasselblad iria encontrar um outro território e nele reinaria absoluta por algumas décadas. Não é exagero se dizer que quase todo fotógrafo profissional de sucesso teria ou gostaria de ter um Hasselblad em seu estúdio. Fotos de produtos, fotos de coisas paradas, onde precisão, correção de perspectiva, foco e facilidade de retoques eram importantes, essas eram feitas com chapas 4×5″ e câmeras como Sinar, Calumet ou Linhof. Por outro lado, fotos de gente, de moda, personalidades, editoriais mais elaborados, e tudo que demandava qualidade combinada com ação rápida, essas eram feitas com Hasselblad.

No filme Blow-Up de 1966, dirigido por Michelangelo Antonioni, um famoso fotógrafo de moda interpretado por David Hemmings, não poderia fugir a esta regra. Em estúdio lá estava ele com sua Hasselblad. Mas o interessante é que quando ele saia para fotografar em um trabalho mais autoral ou pura diversão, sua companheira era uma Nikon F.

Conclusão

As câmeras fotográficas podem ser vistas em categorias ou tipos. Um critério bem evidente é o tamanho da imagem que produzem. Também atributos adicionais como monoreflex, twin lens reflex, rangefinder ou view camera, definem famílias dentro dos formatos. As Hasselblad são câmeras de médio formato. O que chama a atenção é que enquanto que em praticamente todas as categorias existe muita disputa sobre qual câmera seria a melhor, já na categoria médio formato acredito que haja muito pouca controvérsia em se apontar as Hasselblad como a melhor médio formato já fabricada. Fotógrafos podem se bater sobre Leicas ou Contaxes, mas a Hasselblad goza de um tácito respeito por parte de todos que já tiveram a chance de com ela fotografar.

A Hasselblad série 500 representa uma era e em certo sentido desafia um pouco a ideia de progresso. Digo isso pois não é possível hoje e nem será possível no futuro se construir novamente uma câmera fotográfica com esse grau de sofisticação e totalmente mecânica. Seu custo seria proibitivo, inviável. Se nos ativermos simplesmente à questão da produção de imagens, é razoável se pensar que o equipamento eletrônico/digital oferece algo comparável e até melhor se o comparativo for feito por critérios de laboratório. Mas para a minha geração, que cresceu imaginando que o progresso tecnológico seria sempre acumulativo, que tudo que se conquistara com o conhecimento estaria sempre a nosso dispor e nos daria o poder para fazer o que bem quiséssemos, está aí uma limitação muito clara: jamais conseguiremos fazer uma Hasselblad novamente.

Veja também:

1) Site da Hasselblad contando sua história: https://www.hasselblad.com/about/history/

2) Em 2023 no Annual Meeting of the Royal Swedish Academy of Engineering Sciences foi apresentado A Tribute to the Memory of Victor & Erna Hasselblad e o pdf está disponível online neste link.

Abaixo algumas fotos feitas com esse kit do museu.

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