Mesa para retoques de negativos

Este é o ancestral de todos os softwares de edição de imagens. Muitas vezes, fala-se do “realismo” da fotografia, na época de sua descoberta, como se fosse este o seu maior atrativo. Mas é possível se encontrar também citações que consideram esse mesmo realismo como um de seus maiores defeitos. Vejamos, por exemplo, o que disse um dos mais importantes fotógrafos e fabricantes de lentes fotográficas, o francês Noël Marie Paymal Lerebours (1807 – 1873), em seu tratado de fotografia de 1843:

“Mas o inimigo mais formidável que o Daguerreotipo tem encontrado é inquestionavelmente a vaidade humana. Quando alguém é pintado por meios comuns, a mão complacente de um artista pode suavizar as características um tanto ásperas da fisionomia, aliviar a rigidez da postura e dar ‘ao conjunto graça e dignidade’. É sobretudo aí que se encontra o talento do pintor de retratos; é pedido da semelhança, mas nós queremos acima de tudo a beleza, duas exigências freqüentemente incompatíveis”.

Pedimos a semelhança, mas queremos a beleza! É por isso que, ato contínuo à invenção da fotografia, logo vieram os meios de burlar essa semelhança tantas vezes incômoda. Daguerreotipos eram coloridos e eram retocados, mas foi nos processos com negativo/positivo, inicialmente o calótipo, que o retoque realmente encontrou meios mais seguros para florescer e se disseminar plenamente.

Usavam-se químicos para clarear áreas do negativo (escurecer áreas na cópia final), ação que ficou conhecida como “rebaixar”, ou mesmo raspagem da emulsão para dar transparência, mas principalmente adicionava-se densidade no negativo para clarear áreas na impressão final. É principalmente nessa operação que a “mesa de luz” acima, anterior à luz elétrica, era a ferramenta do profissional ou amador dedicado. Como as rugas e outras imperfeições normalmente aparecem como linhas ou manchas claras no negativo, ao escurece-las pode-se obter um efeito nivelador e rejuvenescer ou mesmo corrigir o retratado.

O princípio de funcionamento consiste em aproveitar a luz existente. Na parte horizontal há um espelho que recebe luz de uma janela ou diretamente do céu, quando se trabalha externamente. A parte inclinada é um vidro despolido sobre o qual se coloca o negativo com a emulsão para cima. A parte superior existe apenas para fazer uma sombra e melhorar a visualização do negativo reduzindo a iluminação frontal.

Para o retoque, a superfície um pouco áspera da emulsão aceita bem lápis com grafite macio, mas pode-se empregar em princípio qualquer coisa que dificulte a passagem da luz. Este é um modelo bem simples e não tem nem mesmo um suporte para segurar os negativos no plano inclinado e impedir que escorreguem. A ilustração abaixo, tirada do livro Prix-courant illustré des appareils photographiques, fournitures et accessoires divers  Radiguet et Massiot (Paris) 1901-1902, mostra um outro com esse recurso muito útil.

No francês o aparelho chama-se pupitre, que significa um móvel com tampo inclinado normalmente usado para se colocar livros, partituras ou para escrever. No inglês, geralmente mais descritivo, chama-se retouching desk, É comum se encontrar na literatura a R.O.C. retouching desk, onde R.O.C. significa Rochester Optical Company, comprada pela Kodak em 1903.

Este modelo da R.O.C. possui, além do apoio para os negativos de vidro, um espelho que pode ser regulado em diversos ângulos. Algumas mesas vinham também com uma conveniente gaveta para guardar os utensílios do retocador.

É muito interessante quando se observam negativos antigos procurar pelos retoques que foram, provavelmente, realizados em mesas de retoques como essas. Abaixo está um negativo em vidro, 13 x 18 cm com uma foto de casamento e fotografado sobre a mesa de retoques.

O rosto dos noivos tem cerca de 6 mm de altura e, mesmo assim, quando olhamos o seu verso:

Vemos que o fotógrafo trabalhou bastante as linhas de expressão, principalmente no noivo (à esquerda na imagem acima). Embora frontalmente os retoques sejam praticamente imperceptíveis, tomando-se a foto em um ângulo apropriado a diferença de brilho denuncia várias alterações à lápis.

É impossível se dizer como seria a foto sem a intervenção do retoque, mas, seja como for, o resultado final é muito equilibrado e agradável. É difícil avaliar a naturalidade do resultado final pois nosso olhar não é “treinado” para os padrões da época, mas não me parece em nada artificial, como nos parecem os sharpenings excessivos de hoje. A imagem acima é um scan direto do negativo no qual apenas a poeira na mesa do scanner e pequenos arranhões foram corrigidos.

A destreza dos fotógrafos retocadores era tal que até em uma foto com trinta e três pessoas eles conseguiam melhorar a aparência de cada uma delas. Aí também entra o que seria talvez até uma explicação para a longevidade do grande formato em épocas nas quais os filmes em rolo, como o 120, já existiam e eram sem dúvida muito mais práticos no momento de fotografar. O negativo acima é de vidro e tem 18 x 24 cm. O retoque naquela época não tinha “zoom”, como no digital de hoje, então o retocador estava sempre trabalhando em 100% e, obviamente, usar um negativo maior tornava a tarefa muito mais confortável e controlada. Existia o retoque direto na cópia impressa, porém, este era deixado mais para corrigir erros da impressão em si. Quando o assunto é o embelezamento, fica mais fácil, no mundo analógico, trabalhar o negativo e no momento da impressão deixar que o máximo da matéria seja da própria gelatina, evitando-se marcas e alterações de brilho e/ou textura que o retoque na cópia facilmente engendra.

Abaixo, um detalhe do grupo da foto anterior mostrando melhor os rostos retocados. Este que está embaixo à esquerda na foto é o noivo. A moça de chapéu está à esquerda na foto acima e à direita na foto seguinte.

Abaixo, um scan local no mesmo grupo. A placa está em boas condições e nenhum retoque digital foi feito neste scan. É interessante se notar a sutileza do trabalho sobre sombras mais acentuadas e linhas de expressão nos rostos dos retratados. O bom retoque não substitui a imagem original, em vez disso ele se soma a ela, ele deixa passar o que está registrado no negativo mas apenas rebaixa parcialmente a densidade do que é indesejado na cópia final.

Olhando com mais detalhe ainda (abaixo), nessa moça com vestido claro podemos notar que nas sombras  sob os olhos e nas linhas chamadas “bigode chinês”, há uma leve mudança de textura que indica a presença do material estranho que foi depositado sobre o negativo. O que acontece é que a textura do retoque assume aquela da gelatina e não diretamente a do grão na fotografia. São grânulos de grafite que se depositam na aspereza da gelatina seca.

Em qualquer caso, posto que o objetivo da foto era ser uma foto de grupo para ser impressa provavelmente por contato, a intervenção do retoque surtiu o efeito desejado de deixar os convidados mais joviais e com menos marcas do tempo ou do stress. Ninguém iria fazer essa inspeção minuciosa que hoje com recursos digitais podemos fazer. O resultado final é que essas fotos antigas de casamento, impressas em papel de gelatina de prata, são realmente lindas de ser ver e todo mundo aparece “bem na foto”.

Este é um tipo de retoque que tenta emprestar veracidade a uma imagem editada. O objetivo é que olhando a imagem impressa alguém não vá notar o que foi alterado. Reconhecerá as pessoas e irá acreditar que naquele dia de festa estavam todos com ótima aparência. Mas ao longo da história das imagens fotográficas outros tipos de intervenção tiveram o escancarado objetivo de apresentar algo que foge da realidade sem a menor preocupação de tentar esconder o truque. Uma tradição de retoques fotográficos, chamada no Brasil de foto-pintura, entra nessa categoria. Neste caso, o retoque é realizado diretamente sobre a cópia final e não é nem um pouco sutil. Somando-se a isso, o meio digital abriu novas fronteiras para o retratista fazer a alegria de seus clientes. Uma pequena amostra dessa tradição e sua renovação é mostrada na página Retrato popular, em paz com a fantasia.

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