Objectif Achromatique | Lerebours et Secrétan

No catálogo de 1846 da então tradicional firma Lerebours et Secrétan, vemos dois tipos de objetivas fotográficas mencionadas: Objectif Achromatique e Objectif à Verres Combinés (verre é vidro em francês). Elas aparecem organizadas pelo tamanho da placa a que se destinam. Ainda não era comum se falar em distância focal e nem diafragma ou abertura para se especificar uma lente. Placa inteira era 16 x 22 cm, e a seguir vinham seus submúltiplos 1/2 placa, 1/4 e 1/6. Mais tarde o tamanho um pouco maior 18 x 24 foi consagrado como o tamanho europeu de placa inteira e é um formato que é vendido até hoje.
Objectif à Verres Combinés era um outro nome para a objetiva de Petzval para retratos e possuía dois dubletos acromáticos, um colado na frente e outro separado na traseira de lente ficando o diafragma posicionado entre os dois conjuntos. Também era conhecida como objetiva dupla ou “sistema alemão”.
Este exemplar de objetiva de Lerebours et Secrétan é uma lente do tipo Objectif Achromatique, ou objetiva simples, objetiva para paisagens, ou ainda objectif pour vues, que seria objetiva para “vistas”, termo provavelmente cunhado por Niépce, que o empregava em seus escritos. Tudo isso queria dizer que era uma lente para assuntos estáticos como paisagens ou arquitetura pois a abertura necessária para dar nitidez em todo o campo era muito pequena e, consequentemente, os tempos de exposição muito longos para os processos da época.

No diagrama acima, tirado do tratado de óptica de Etiene Wallon, de 1891, esta lente para paisagens corresponde ao esquema IV. Ela apresenta um vidro flint bicôncavo colado a um crown biconvexo. Os esquemas I e II eram típicos de câmaras escuras e o III foi utilizado nas primeiras máquinas fotográficas para daguerreótipos. Por ter esse tipo de construção e pelo número de série, gravado logo acima do nome, Nº 7456, esta lente deve ter sido fabricada por volta de 1855.
Uma curiosidade sobre as lentes Lerebours et Secretan é que além da gravação do número de série no corpo de latão, o fabricante tinha o cuidado de marcá-lo também na própria lente, como se vê na foto abaixo.

As dimensões básicas deste exemplar estão apresentadas no diagrama acima. Ela possui duas particularidades. A primeira é que o dubleto fica como que em um recesso para dentro do tubo da lente. Fiquei pensando, por que alguém faria isso? Essa parte é voltada para dentro da câmera. Minha hipótese é que o efeito buscado foi dar mais espaço para deslizar a lente para frente, através da cremalheira, ao alongando tubo sem mover a lente em relação ao diafragma. Imagino que ela tenha sido desenhada para uma câmera com menor mobilidade para focalização deixando todo o movimento para da cremalheira. O curso de 33 mm permite fazer foco de infinito até a distância de apenas 2,2 m, para uma lente como essa. Mais do que suficiente. Isto permitiria utilizá-la em uma câmera até mesmo sem fole ou sistema de “gaveta” ou “chambre à tiroir”, as primeira utilizadas em fotografia. Talvez tenha sido desenhada para uma câmera fixa, uma simples caixa.

Desenho de câmera “chambre à tiroir” que aparece em um livro de 1846, do próprio Lerebours.
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A outra particularidade, mais difícil de explicar, é que além dispor de um tubo frontal, que funciona como parasol, e no fundo do qual deve-se instalar diafragmas do tipo arruela, esta lente possui também abertura para diafragmas do tipo Waterhouse a 18 mm da lente. Creio que esta deve ter sido uma adaptação posterior de algum antigo dono algo inventivo. Não deve ser original de fábrica.
Mas pelo menos o trabalho foi feito com muito zelo e parece até original. Tanto os cortes como o inserto para suportar diafragmas estão muito bem feitos. Mas não encontrei nada na literatura existente que corrobore esse tipo de duplicidade de diafragmas.
Nesse tipo de lente, o diafragma é selecionado por esse dispositivo mostrado na foto acima. Uma arruela com a abertura escolhida é inserida no tubo que fica na frente da lente. Uma luva metálica (à direita), que entra justa no mesmo tubo, mantém o diafragma seguro em sua posição. A tampa, mostrada na primeira foto deste artigo, era normalmente utilizada como obturador pois os tempos eram muito longos. Utilizada sem nenhum diafragma a abertura desta lente é de f/7,7. Mas esta deve ser uma situação apenas para se fazer o foco com uma imagem um pouco mais luminosa. As aberturas na prática devem ser f/16 ou menores para se obter uma imagem com mais qualidade.
A distância focal foi avaliada por sucessivas medidas de magnificação que foram plotadas no gráfico acima (veja calculadora neste link) e o resultado foi 255 mm. Isso é coerente com o diâmetro de lente que tem 55mm pois nessa época elas costumavam ter diâmetro de 1/5 da distância focal, segundo Wallon e também Monckhoven. Quanto à posição do diafragma em relação à lente, assunto que foi muito debatido na época, sabe-se que o padrão 1/5 da distância focal fora adotado pela maioria dos fabricantes para esse tipo de lente. No diagrama acima está marcado 42 mm, foi o que medi até a superfície da lente. Isso deve corresponder aproximadamente a 50 mm, em algum ponto do dubleto, e nos daria então o 1/5 da focal.
Um pequeno teste de uso

A foto para ilustrar o uso dessa lente foi realizada no Jardim Botânico de São Paulo. Ela foi montada em uma Thornton Pickard Royal Ruby de placa inteira: 18 x 24 cm. Em vez de filme, aproveitei placas secas que faço caseiramente, com gelatina de prata, e foi então um vidro de 2 mm emulsionado com a receita mais simples de Joseph Maria Eder em seu livro de 1883.
Este foi o terceiro batch de emulsão que preparei e o resultado já foi bem satisfatório, guardadas as limitações naturais da fórmula. Ao lado a aparência da placa depois de revelada. Para a tomada da foto usei um jogo de diafragmas cortados para esta lente. A abertura escolhida foi f/45 e o tempo de exposição foi de 3 minutos em um dia sem sol aberto mas muito luminoso. A fotometria para ISO 3 dava 30s a f/45 ½ com um EV = 6,6. A revelação foi por 12 min em Parodinal 1:20 a 20ºC. É possível se notar uma vinheta nos cantos da placa. Não encontrei essa lente nos catálogos da Lerebours et Secretan disponíveis e portanto não sei qual seria a recomendação oficial de formato. Creio que seria meia placa pois seu círculo de imagem é de 25 cm e para ser placa inteira da época (16 x 22 cm) teria que ser pelo menos 27,2. Sendo uma lente para arquitetura e paisagens, deveria contar com alguma liberdade de movimentos.
Ainda não consegui me livrar de falhas e manchas na placa seca. A imagem abaixo é um scan direto do negativo mas foi recortado e retocado para eliminar falhas da emulsão e manchas da revelação.

O resultado me surpreendeu. Vemos nos museus imagens realizadas na época e que são muito boas. Mas esta imagem é diferente dos exemplares históricos pois, se a lente é antiga, o suporte é fresco. Fiquei achando que as fotografias de época por já terem sofrido uma degradação do próprio material não dão uma ideia precisa de como devem ter parecido aos que as viram em seu próprio tempo. Imagino que experiências como essa podem nos informar um pouco mais sobre a qualidade da óptica sem o desgaste do tempo da impressão em si. É claro que com f/45 qualquer lente tem obrigação de ficar boa, mas, mesmo assim, pensar que já em 1855 tinha-se acesso a uma imagem com essa qualidade é algo que sempre surpreende, acostumados que estamos a achar que tudo deve ter melhorado muito após um tal período de tempo.
Abaixo alguns detalhes do mesmo scan.
Para finalizar, apenas como curiosidade, um scan de uma impressão por contato, em papel Ilford fibra, da placa inteira e sem retoques ou recortes.
Leitura adicional
A história dos Lerebours é muito interessante e ilustrativa das transformações trazidas pelo século XIX. Eles representam a nova mentalidade que formou o mundo atual, tecnológico e industrial. A fotografia encarnou completamente essa mudança de eixo e os Lerebours são um caso clássico. Este é o tema de um artigo que está no Studiolo: A história dos Lerebours.











