Pinhole, onde o bom, o belo e o verdadeiro se encontram

Pinhole, que em português significa “buraco de agulha”, é uma técnica fotográfica que geralmente utiliza uma câmera fabricada artesanalmente com variado grau de rusticidade e improvisação. É comum o uso de caixinhas de fósforos ou de sapatos, latas de biscoitos e coisas do gênero. Outras vezes o fotógrafo monta sua câmera escura apenas recortando cartão e unindo as partes com fita adesiva. Nos casos mais sofisticados caixas de madeira são confeccionadas. Mas a essência da técnica, origem do seu nome, é o fato de que não se utiliza uma lente para formar a imagem sobre a superfície sensível, em vez disso, apenas um furinho diminuto, realizado com uma agulha.

Fotografia pinhole é uma presença comum nas feiras de ciências e também como atividade escolar, mas nessas situações é vista apenas como uma demonstração de princípios da óptica na formação de imagens. É apresentada  como o “problema” que as lentes vieram a resolver. Um ancestral, um elo evolutivo, com interesse apenas histórico e didático.

pinhole - grupo pinrolê

Mas entre aqueles que a praticam a coisa é vista de maneira muito diferente. Pinhole forma todo um espaço semântico que vai muito além de seus aspectos técnicos. Não é de modo algum a fotografia de quem está estudando a física da luz ou ainda não conseguiu comprar uma boa câmera. Pinhole é uma atitude, uma afirmação que se faz a partir do ato de fotografar. Como tal, torna-se um aglutinador de pessoas que compartilham formas de ver e de querer experimentar algo fora do convencional. Este texto foi escrito a partir justamente de uma visita a uma exposição do Pinrolê, um grupo de jovens que se conheceram em oficinas de fotografia do SESC e desde 2011 organizam conversas, exposições e saídas para fotografar com pinhole. A foto acima mostra os participantes de um desses “pinrolês”.

pinhole - entrada da consolação

A mostra acontece na passagem da rua da Consolação (São Paulo). O local, a montagem e o conceito, seguem plenamente o espírito da fotografia pinhole que no mais das vezes é urbana e com jeito meio underground. Não poderia então estar melhor posicionada do que nesse ponto tão nevrálgico da cidade. Outra característica que frequenta essa prática é a falta, senão o desprezo, a grandes pretensões. A frase que atormenta muitos artistas contemporâneos quando descobrem que…”Isso já foi feito!”, parece não preocupar de modo algum a maioria dos que fazem pinhole. Não estão em busca de uma obra prima ou de um convite para a Bienal de Veneza. Eles sabem que “já fizeram” e justamente reativar este ato aumenta a atratividade de sua ação. Pinhole vai melhor como prática artística descompromissada e colaborativa, do que como a romântica obsessão por deixar seu nome escrito na história da arte. Essa abordagem se manifesta, por exemplo, no fato de que todas as fotos foram coladas na parede e não houve nem mesmo a preocupação de deixar claro o autor de cada uma delas.

pinhole - geral da exposição

pinhole - daniel marquesConversando com Daniel Marques, membro do grupo, entendi que a experimentação é melhor do que a teoria e a surpresa do resultado faz parte do processo. A ideia de controle de cores, densidades, enquadramento e outros parâmetros da imagem fica relegada a um distante segundo plano. O acaso é frequentemente um importante co-autor das imagens.

Há nesses princípios de boas práticas para o fotógrafo de pinhole uma atitude de contestação da técnica, do cálculo, da especialização e do fotógrafo como consumidor da indústria fotográfica. Não é difícil de imaginar que se uma grande marca, como Canon ou Nikon, lançasse uma pinhole com um furo perfeito, em uma folha de titânio extremamente fina, número f precisamente calculado, obturador eletrônico, fotômetro acoplado, visor com correção de paralaxe e tudo que a tecnologia pudesse aportar ao processo guardando em todo caso a sua essência, isso seria de pouco ou nenhum interesse para os membros do Pinrolê. Seria provavelmente apenas mais uma oportunidade para recusar o que é proposto pelo mainstream.

O único ponto difícil de escapar é o obrigatório uso do filme. O filme é, por excelência, produto da indústria, mas seu emprego acontece de preferência como uma transgressão das regras propostas pela mesma. Isso se dá de diversas maneiras, com o uso de filmes vencidos, processos cruzados, alterados e/ou com reveladores caseiros utilizando, por exemplo, prosaicos reagentes como o café ou o analgésico Tylenol.

Pinhole, praticada nessas premissas, insere-se claramente em uma série de outras práticas contemporâneas que renegam valores da Modernidade. Não cabe aqui ir muito além de anotar essa concorrência. Tecnologia e industrialismo, acelerados pelos métodos da ciência, marcaram seus produtos como o caminho para trazer bem estar a todos, mas obviamente não foram capazes de cumprir suas promessas e ainda nos trouxeram problemas e ameaças escondidas no meio de gadgets e luxos que agora nos parecem até mesmo inúteis.

Fazer pinhole é então algo de bom desde o princípio. Faz parte de um universo alternativo. Exemplifica que as coisas podem ser novamente simples. Evidencia que não dependemos completamente das grandes corporações para fazer imagens. Utiliza materiais que já eram descartes e são agora resgatados para um fim louvável, facilmente comunitário e cidadão. Demonstra que ter controle de tudo, planejar, calcular, em uma palavra: dominar, não precisa ser o fim último de todas as nossas ações. O acaso, o livre curso dos acontecimentos, a interferência da sorte, ou da divina providência, sempre fez e fará parte de nossas vidas e foi uma grande tolice tentar elimina-los como quis o Iluminismo. Essas são todas afirmações que aderem facilmente à prática do pinhole. Nesse sentido, dá muito mais orgulho, um sentimento de independência, andar com uma câmera feita de sucata, do que ostentar uma full frame.

Mas o mais importante para o fotógrafo e para todos os entusiastas da pinhole é que sem dúvida algumas fotos ficam realmente maravilhosas. Há uma maneira de render a imagem que lhe é única. Qualquer objeto, próximo ou distante, tem o mesmo grau de definição, que não é nem absolutamente nítido e nem perdidamente confuso. Essas qualidades algumas vezes adicionam tal força ao tema, composição e colorido, que o resultado final é de uma beleza muito sedutora. Mas melhor que descrever é mostrar como que isso se manifesta no resultado final. É claro que existem preferências e gostos que mudam de pessoa para pessoa, mas seguem aqui algumas imagens da mostra que achei particularmente felizes.

fotografia pinhole

fotografia pinhole

fotografia pinhole

fotografia pinhole

fotografia pinhole

fotografia pinhole

fotografia pinhole

fotografia pinhole

fotografia pinhole

fotografia pinhole

fotografia pinhole

Nada além do prazer de olhar e percorrer estas imagens precisaria ser a recompensa para quem as fez ou apenas olha para elas. No entanto, para mim, elas levantam ainda uma outra questão interessante. Sem diminuir em nada a certeza que tenho de acha-las belas e o gosto que tenho em contempla-las, me pergunto se não seria o posicionamento, a atitude pinhole, como foi esboçada acima, e cuja força eu sinto igualmente agir sobre mim, que estaria determinando em algum plano de meu inconsciente essa avaliação estética. O que precisaria ser para eu achar ruim? Será que neste caso o que é bom não estaria determinando o que é belo? Em muitos pontos elas vão na contramão de convenções do que seria uma boa fotografia. Será que não aprendemos a encontrar beleza em algo que consideramos correto e verdadeiro pelo simples fato de que seja correto e verdadeiro?

Ao mesmo tempo que isso parece tirar um pouco da graça do ser belo, por lhe conferir uma finalidade, um ar de certa forma utilitário, dependente de uma posição de resto política, uma reação contra a Modernidade, negar a sua ocorrência só pode trazer de volta a ideia já abandonada de que a beleza seria uma propriedade objetiva das coisas. Somente uma característica independente poderia ser atributo tanto do bom como do ruin, do verdadeiro e do falso. Isso parece tão antiquado e difícil de sustentar, algo como uma “substância” beleza a ungir certos objetos de modo independente do contexto da cultura que os abriga e da vida… prefiro ainda ficar com a beleza comprometida com o bom e o verdadeiro. Pinhole é tudo isso, é bom porque é bonito e bonito porque é bom.

Atualmente os integrantes do Pinrolê são: Carlos Ximenes, Daniel Marques, Luciana Castilho, Maurício Virgulino, Nana Santos e Rodrigo Barreto. Você pode acompanhar as atividades do grupo na página do Facebook:  Pinrolê

 

pinhole - entrada pela ilha

Comente com um click:
Este artigo lhe foi útil? [ratings]

1 CommentLeave a comment

  • Sensacional este artigo! Dos melhores que já li sobre a prática da fotografia estenopeica, sobre suas reflexões e sua importância num mundo digitalizado. Parabéns ao autor!

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.