Kodak Retina 117 | Kodak AG

Este modelo é o primeiro de uma longa série de Retinas que chegou até uma versão SLR com uma Retina Reflex no final dos anos 1950. A longa linhagem foi inaugurada em 1934 com essa Retina que recebe o nome código 117. Por ser uma 35mm, impossível não a comparar com a Leica que veio ao mercado nove anos mais cedo, em 1925. O paralelo surge pois ambas dirigiam-se ao mesmo público: um fotógrafo amador porém sofisticado mas também em busca de praticidade.

A Retina 117 é uma câmera muito robusta, pequena mas com recursos, como uma escala de velocidades com T, B 1 até 1/300 s em um obturador Compur, aberturas de f/3.5 até f/16 e ópticas excelentes: Schneider Xenar ou Kodak Anastigmat f/3.5. São lentes baseadas no design da Tessar da Zeiss.

É curioso sobre este lançamento que embora seja uma Kodak, da gigante americana de Rochester, todo o seu DNA é germânico. Nos anos 20 e 30 a tendência à miniaturização e transição do filme em chapas para filmes em rolo estava consumada. Enquanto que a Kodak movimentava milhões no segmento de box cameras como as Brownie e suas foldings e pockets, que eram opções de entrada na fotografia amadora, ela via crescer um segmento de câmeras mais sofisticadas, destinadas a um público “amador avançado”. Empresas como a Zeiss Ikon, Voigtlander e sobretudo a Leitz, com a Leica, estavam bem à frente para atender a esta nova demanda, mas a Kodak quis se arriscar também sobre estas águas.

Foi assim que a administração da Kodak na Europa iniciou busca e negociações com empresas alemãs para abrir uma divisão fabril capaz de ampliar sua produção nessa direção. O movimento fazia sentido do ponto de vista financeiro pois a Alemanha na época era muito competitiva na mão de obra (crises do pós-guerra). Baixo custo em combinação com tecnologia de ponta a tornavam uma escolha lógica.

Em 1932 Frank Lovejoy, que era encarregado da subsidiária alemã da Kodak, concluiu a aquisição da Nagel Fabrik für Feinmechanik em Stuttgart. Dr. August Nagel foi um dos fundadores na mega fusão que resultara na gigante Zeiss Ikon em 1926, mas já em 1928 resolveu partir em um voo solo e iniciou uma boutique de precisão na fabricação de câmeras fotográficas. Foi o casamento perfeito. O que lhe faltava era capital e poder de distribuição, duas coisas onde a Kodak era provavelmente o que poderia haver de mais forte no setor.

Pós aquisição, o portfolio da Nagel que contava com as câmeras Recomar, Vollenda, and Pupille, continuou a ser comercializado e passou apenas por uma fase de re-branding para a marca Kodak. Mas o primeiro projeto concebido e realizado para aproveitar todas as sinergias da aquisição foi a Retina 117.

Aquela era ainda uma época em que o departamento de desenho industrial das empresa era geralmente o que dava as cartas e os desenvolvimentos não raro eram mais o fruto de idiossincrasias dos engenheiros do que propostas nascidas a partir de uma visão estratégica considerando o mercado consumidor. As esquisitices altamente elaboradas que fracassaram nos primeiros meses de produção e hoje fazem a alegria dos colecionadores são os frutos deste tipo de abordagem.

Mas a Retina 117 já nasceu de uma visão começando pela outra ponta: concebida a partir de um tipo certo de fotógrafo. Foi um projeto modelado para uma demanda bem específica. Como foi dito acima, a Kodak AG destinava-se a oferecer uma câmera para concorrer com Leica e Contax, porém em uma faixa de preços bem mais acessível. Seu objetivo era capturar uma faixa de amadores mais sofisticados, mais exigentes, mas que não estariam dispostos a pagar cerca de 4 vezes mais por uma Leica ou Contax.

Do outro lado do Atlântico

A Retina foi um lançamento duplo: junto com a câmera veio um conceito inteiramente novo que mudaria tudo na história da fotografia em filme 35mm. Até então, todos os fotógrafos querendo aproveitar o formato 24 x 36 mm em uma tira de filme originalmente concebido para cinema, o qual Oscar Barnack tão espertamente aproveitou também na fotografia, precisavam comprar filmes a granel, por metro, cortar e colocar o filme dentro de bobinas metálicas que por fim iam dentro da câmera.

Ao lançar a Retina 117 a Kodak passou a oferecer o filme já acondicionado em bobinas prontas para que fossem inseridas diretamente na câmera. Esse é o padrão que todo mundo conhece. É praticamente sinônimo de “filme”. Acima vemos, com sua caixinha vermelha, uma elegante bobina reutilizável da Zeiss Ikon, desenhada para receber filme comprado por metro e à direita uma bobina de Kodak com o filme que já vem dentro.

Para ser rigoroso com a nomenclatura precisamos dizer que a bobina descartável é o filme 135. Dentro dela vai o filme 35 mm de cinema, perfurado dos dois lados. Ou seja, 135 é um código que representa o filme 35 mm já colocado dentro de uma bobina descartável.

Nem é preciso dizer que o padrão foi adotado no mundo todo e embora alguns lançamentos tenham se arriscado em utilizar bobinas especiais como a Robot ou Agfa Karat, o domínio do filme 135 foi absoluto. Ironicamente, a partir de 2020, com o nítido crescimento da fotografia analógica, agora como nicho e não mais mainstream, nota-se um interesse maior pelo filme rebobinado pois ele apresenta um custo muito menor se comparado ao 135. Existem bobinas reutilizáveis à venda mas sobretudo as antes “descartáveis”, que eram jogadas no lixo aos milhões, agora são recuperadas, abertas com cuidado e reutilizadas várias vezes.

O nome

Onde a Retina com certeza supera a Leica ou Contax é no nome. Pelo menos do ponto de vista da riqueza de seu significado e associações. Leica não é nada mais do que Leitz + Camera, algo muito banal. Contax teve origem em um concurso entre funcionários e embora possa-se argumentar que o Con venha de contato, que remeteria à proximidade do fotógrafo com seu assunto, nada encarna melhor a nova era da fotografia que se abria com as câmera 35mm do que o nome Retina.

A ilustração acima vem do livro Das Retina Buch (Dr. Otto Croy – 1956). E ela demonstra o que a novidade de uma câmera pequena e com visor direto permitia ao fotógrafo. Desde o inicio da fotografia, em 1839, discutiu-se muito a relação entre o fotógrafo e seu assunto. Os homens de ciências envolvidos na descoberta enfatizaram, talvez até demais, que a fotografia seria o pencil of nature, lápis da natureza, como cunhou Henry Fox Talbot. Ele chegou a escrever que sua “casa”, uma antiga abadia em Lacock, na Inglaterra, seria o primeiro imóvel a fazer o seu próprio “desenho”. Era como se as coisas estivessem fazendo selfies e o fotógrafo, que era mais chamado simplesmente de “operador”, praticamente não tivesse muita influência sobre o processo.

Nos anos 1850, quando houve um grande debate sobre a questão da fotografia poder ou não ser uma forma de arte, o argumento dos que não viam essa possibilidade é que tratava-se de algo mecânico e sem participação efetiva do “operador”. Era um processo científico, objetivo, sem abertura para a subjetividade do fotógrafo. É claro que essa é uma visão extremamente redutora e não corresponde à realidade da prática. Mas o fato é que as câmeras e os processos realmente induziam a uma padronização muito grande, a uma supremacia do objeto que como ditava a fotografia. As cenas estáticas e a ortogonalidade das linhas eram como que amarras com as quais o fotógrafo precisava se conformar. Se quisesse usar a fotografia como auto-expressão, essas eram variáveis que estavam praticamente fechadas para ele.

Com a introdução de lentes mais rápidas e das placas secas por volta de 1880, usando gelatina como base, novas câmeras usando esses recursos foram abrindo novos graus de liberdade. Surgiram as detective cameras, com visor e 12 chapas, ou a Kodak No. 1 com filme em rolo e miniaturas como a Block-Notes. Todas essas inovações davam ao fotógrafo mais escolhas, mais possibilidade de enquadramento, de temas que ele podia escolher e formas de intervir no resultado final da imagem.

Nesse sentido, a Leica, o grande ícone da nova fotografia, não foi uma ruptura. Foi um marco em um longo percurso evolutivo em direção à flexibilidade no fotografar. Mas coube à Kodak com sua Retina o mérito de carregar em seu nome todo esse espírito por tanto tempo perseguido. Retina é uma palavra que definitivamente afirmou de forma categórica que a fotografia não está no assunto, não está na câmera, está no olhar do fotógrafo, na sua retina.

No uso

É uma câmera que trata a fotografia pelo seu essencial, onde mesmo as mais sofisticadas também tem que chegar a termos: velocidade, abertura e foco. O foco é feito manualmente em uma escala em metros. Isso assusta muita gente mas não deveria. Com um pouco de treino chega-se a resultados muito bons. O ideal é se concentrar em retratos de no máximo meio corpo, grupos e paisagens. É ótima para street-photography.

Fechada ela fica muito pequena. Pelo seu tamanho as suas 445g surpreendem um pouco, parece pesada, pois estamos acostumados com plástico e ela é toda de metal. Ao mesmo tempo isso lhe dá solidez e ajuda bem a manter a câmera sem tremer, seu discretíssimo obturador Compur também ajuda muito na estabilidade: não há impacto.

O avanço do filme não arma o obturador e isso exige certa atenção. Ao avançar o filme há uma trava que precisa ser desbloqueada para avançar para a próxima foto. Há um contador de poses. É muito simples mas solidamente construída. Sem mal tratos é uma câmera que dura para sempre.

Descendências

Dr. August Nagel continuou aperfeiçoando e novos modelos foram lançados com funcionalidades e comandos mais ergonômicos, como o disparador no topo da câmera a partir do modelo Kodak Retina 141 de 1937. O quadro acima é um identificador dos modelos até a II Grande Guerra.

Embora nesse período vários detalhes tenham mudado, a concepção de base foi a mesma. Um desenho totalmente novo surgiu em 1951 com as Retinas II, Type 016 e Type 015. Essas já eram câmeras com avanço do filme por alavanca e até com telêmetro (caso da Retina IIa 016). Em 1954 nova reengenharia com novo bloco chassis e mais tarde a SLR Retina Reflex.

Legado

Comparada com as vendas da Kodak em outros segmentos mais populares e mesmo com as concorrentes no mesmo segmento as Retinas não foram um enorme sucesso. Em toda a série foram vendidas 2,5 milhões de câmeras em algo como 25 anos. Embora de qualidade inquestionável e design muito simpático, parece que o conceito folding com leaf-shutter, dobradura com o obturador central na lente, já estava defasado desde os anos 1930.

É verdade que uma foto tirada com uma Leica do mesmo período com uma Elmar 50 mm comparada com uma foto feita na Retina com a Xenar 50 mm, nas mesmas condições, não deixará esta última em desvantagem para um padrão normal de exigências. Mas o caso é que a Leica podia trocar lentes, podia ter telêmetro acoplado ao ajuste do foco, armava o obturador ao avançar o filme e mais uma série de vantagens operacionais que somadas faziam uma enorme diferença na construção da imagem mesmo para aquele fotógrafo que usava apenas a Elmar 50mm f/3.5.

A Kodak tinha capacidade financeira e poder de distribuição enormes, mas era a marca dos “apertadores de botão”, das box camera que eram às vezes vendidas como brinquedos de criança. Outras marcas como Leitz, Zeiss, Voigtlander ou mais tarde a Exakta, carregavam um histórico diferente com tradição no mercado premium. Isso também deve ter pesado nas preferências dos amadores avançados aos quais as Retinas se destinavam.

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