Robot II | Hans Berning

Robot II | Hans Berning | 1935-1940

Esta câmera foi desenhada em 1930 por Heinz Kilfitt (1898-1980), que a princípio seguia a carreira de eu pai, relojoeiro, mas logo interessou-se por óptica e fotografia. Ele apresentou o projeto da Robot para a Agfa e Kodak, mas nenhuma das duas se interessou. O desenho foi então vendido para Hans Berning que iniciou um novo negócio em 1934, levando o seu próprio nome, para produção da nova câmera. Dois modelos foram lançados no ano seguinte, Robot I e II. A empresa existe até hoje mas a câmera Robot foi descontinuada em 1959.

Muitas particularidades embutidas nessa pequena câmera. A principal, aquela pela qual ela é mais lembrada, é o fato de que o avanço do filme e armação do obturador é feito por um mecanismo de mola e isso permite disparar até 4 fotos por segundo. Em cada foto o botão do obturador precisa ser pressionado. Diz-se que um fotógrafo bem familiarizado com a câmera pode chegar a até 5 fotos por segundo se sincronizar bem seu movimento com o tempo do mecanismo.

Lembrando que o filme 135 em cartuchos pre carregados foi lançado pela Kodak junto com sua câmera Retina, no ano de 1934, os fabricantes a utilizar o filme 35mm, originalmente para cinema, como a Leitz, por exemplo, que introduzira a Leica comercialmente em 1924, precisavam propor seus próprios meios para utilização do filme que era comprado sempre “a granel”. Para a Robot, Kilfitt escolheu fazer quadros 24 x 24 mm. Algo entre o formato do cinema 18 x 24 e da Leica 24 x 36. Isso permitia algo como 50 fotos por carga de filme. Ao utilizar a câmera, o formato quadrado trás sempre o conforto de você poder segurar o aparelho sempre na mesma posição pois não há necessidade de girá-la mais que 45% para se obter qualquer composição possível.

Ela utiliza dois cartuxos para filme chamdos K-cassette.  O filme é carregado no primeiro e, à medida que as fotos são tiradas, vai sendo enrolado no segundo. Há uma razão especial para isso. Devido ao mecanismo de avanço automático os dois cassetes foram concebidos de forma que ao pressionar a tampa traseira para fechar a câmera as aberturas pelas quais passa o filme se abrem e permitem que ele deslize livremente sem oferecer nenhuma resistência mecânica significativa ao movimento.

É muito importante, ao comprar uma Robot I ou II verificar que os cassetes estão lá pois sem eles o uso da câmera fica impossível. Um cartucho normal 135 não entra nessa câmera. O segundo cassete trás ainda a particularidade de não se precisar voltar o filme para o cassete original. A câmera está sempre pronta para ser aberta e o filme retirado, podendo ainda voltar para ser terminado mais tarde. Apenas em 1951, com o sucesso do formato 135, é que a Robot IIa foi lançada para aceitar os cartuxos padrão de filme 35 mm.

O tamanho da câmera é algo que chama a atenção. Ela é muito compacta medindo 106 x 62 x 31 mm (4¼ x 2½  x 1¼ polegadas) mas pesa como uma monoreflex 35mm. Sua construção toda em metal torna-a muito robusta e estável. O formato pequeno permitiu prescindir de um telêmetro sem prejuízo da nitidez das imagens. Uma outra característica interessante é que o o anel de foco tem “cliques” nas distâncias padrão. Com isso é possível no escuro, ou mesmo com ela dentro do bolso de um casaco, pre-ajustar a distância se você memorizar a sequência e contar os cliques.

Alavanca e visor para ângulo de 90º na lateral da câmera.

Essas características todas somadas fizeram dela uma câmera muito apreciada pelo exército alemão. Ela é ainda associada à ideia de espionagem e trás também um visor 90º. Basta girar a pequena alavanca no topo da câmera e um espelho joga a imagem que entra pelo visor frontal para uma segunda  ocular posicionada na lateral da câmera. O fato de poder ser disparada várias vezes apenas atuando no disparador, eventualmente com um cabo, fazia dela a câmera ideal para ser escondida em uma valise ou outro objeto insuspeito de tirar fotografias. Existiu também um modelo desenvolvido especialmente para a força aérea alemã, a Robot Luftwaffen Eigentum, que possuia uma mola extra permitindo um número maior de fotografias sem precisar dar corda novamente. Finalmente, a fábrica dava a opção de fazer uma adaptação para minimizar o ruído do avanço filme e permitir fotos indiscretas mesmo em locais fechados.

Muitas lentes, produzidas por Zeiss e Schneider, equiparam as Robots. Para a Robot II a lente normal era 40 mm mas também grande angulares de 26 e 30mm fizeram parte da linha. No foco longo utilizava-se basicamente a focal 75 mm. Entre as normais, a padrão era a Zeiss Tessar 40 mm f/2.8. Uma outra, mais rara, a Biotar 40 mm f/2.

No uso atual, para quem está acostumado com o padrão das lentes com tratamento anti-reflexo, o contraste destas lentes pode deixar a desejar e elas terão uma assinatura mais datada, típica do período anterior à Segunda Guerra. Não obstante essa característica que tende a produzir uma escala de cinzas mais comprimida, a qualidade óptica da imagem quanto à definição é excelente para todas as ópticas empregadas na Robot.

A Biotar que equipa este exemplar foi desenhada por Merté da Zeiss no início dos anos 30. É uma derivada do tipo Double Gauss, conceito utilizado na famosa Planar desenhada por Paul Rudolph no final do século XIX. Boa parte das lentes modernas com aberturas  f/2 ou mais, pertencem a essa linhagem das Double Gauss, com a diferença que normalmente são assimétricas enquanto que a Double Gauss foi inicialmente desenhada como um par de dubletos simétricos em torno do diafragma.  A Biotar chegou à façanha de oferecer uma abertura de f/1.4 em uma de suas versões destinada ao cinema.

Acima o desenho esquemático da Biotar criada por Merté (fonte Vademecum). É fácil entender o quanto um desenho desses iria mais tarde se beneficiar do tratamento anti-reflexo. São 8 passagens ar/vidro ou vidro/ar e mais duas vidro/vidro. Em todas elas há sempre um pouco de luz que se espalha e eventualmente chega até o filme de modo descontrolado criando um efeito de véu e reduzindo o contraste. É muito importante se usar um parasol em casos como esse. Porém, o visor fica tão próximo da lente que é quase certo que o parasol irá esconder parte da cena para composição.

As velocidades são ajustadas em um botão na frente da câmera, tem B e vai de ½ a 1/500 s. Sincroniza flash em todas as velocidades através de um conector um pouco acima e ao lado do ajuste de velocidades. O obturador aproveita o quadro pequeno, 24×24 mm e é do tipo rotativo, um mecanismo simples e eficiente. Há um contador de poses progressivo no topo da câmera que precisa ser ajustado cada vez que dois novos cartuchos são instalados.

Algumas fotos feitas com essa Robot. Filme T-MAX 100 revelado em Parodinal. Este são scans fieis de ampliações realizadas em papel Ilford fibra brilhante.

Esta foto apresenta uns problemas de vazamento de luz devido a manuseio descuidado dos cartuxos. Como eles tem a mola que permite abri-los quando dentro da câmera, precisam ser manipulados com cuidado para que isso não aconteça fora dela. Por sorte, acho que o resultado final ainda ficou interessante.

Acima e abaixo uma típica escala de cinzas mais comprimida que oferece este tipo de lente quando o assunto está iluminado difusamente por um céu nublado, por exemplo.

Nos casos de cena muito contrastada, a redução de contraste na lente, acaba tendo um efeito contrário benéfico equilibrando mais a escala de cinzas e rendendo melhor as texturas.

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