Penti II | Pentacon

A primeira lente realmente fotográfica, pensada e calculada para a fotografia foi de um matemático, Joseph Petzval. Os fabricantes de equipamentos fotográficos eram, em sua maioria absoluta, fabricantes de equipamentos científicos. Isso não foi apenas nos primórdios da fotografia. Ernst Leitz era uma respeitada firma de microscópios e sua famosíssima Leica, lançada em 1924, fora desenhada pelo engenheiro Oskar Barnack. Estou lembrando esse fato, essa herança, esse DNA, para ponderar como seria mesmo improvável que câmeras e lentes fossem concebidas a partir de uma motivação ou conceito estético. Dificilmente elas teriam um “estilo” distante do ambiente de laboratório ou das máquinas nas fábricas.

É verdade que logo na virada para o século XX já vieram algumas experimentações, por exemplo, as coloridas Brownie #2 da Kodak. Mas uma emancipação muito mais ousada do “instrumento” em direção ao “objeto”, só veio muito mais tarde. Foi todo um movimento no pós guerra que tomou os setores automobilístico, de mobiliário, de utensílios domésticos, de vestimenta, definidores de tendências do design, e acrescentou uma nova categoria também aos equipamentos fotográficos.

“Os lares elaborados dos anos anteriores à guerra se foram, substituídos por informalidade e adaptabilidade. Também se foi a abordagem convencional ao mobiliário como objetos de status, caros e permanentes. Novos materiais e tecnologias, muitos dos quais foram desenvolvidos durante a guerra, ajudaram a libertar o design da tradição, permitindo uma estética cada vez mais abstrata e escultural, bem como preços mais baixos para objetos produzidos em massa”. Goss, Jared. “Design, 1950–75.” In Heilbrunn Timeline of Art History. New York: The Metropolitan Museum of Art, 2000–.

Foi assim que veio uma avalanche de câmeras em plástico, bakelite e chapas prensadas, com muitas cores e formas que  vão bem com um Cadillac ou uma garrafa de Coca-Cola. Eram destinadas ao mercado amador e não tinham a ambição, como lembra o texto de Jared Goss acima citado, da permanência. Novos modelos eram lançados em profusão e parece que a ideia era que o fotógrafo renovaria sua câmera junto com seu guarda roupas e seguindo a moda.

A imagem que abre este post é de um folheto da Pentacon apresentando a Penti II. A modelo, a menos do sorriso,  poderia ser uma espiã dos filmes do agente 007. Essa era uma câmera para o público feminino, em um mercado que era preponderantemente masculino. A foto ao lado, do mesmo folheto, mostra o que a charmosa personagem levava quando saía de casa. Além dos acessórios: colar, brincos e anel, uma Penti II era o toque final no seu moderno estilo de vida.

Mas a diferença da Penti em relação à maioria das outras câmeras com design diferenciado e surgidas nos anos 50 e 60, é que ela apresenta um completo conjunto de ajustes manuais.

  • velocidades B, 1/30, 1/60, 1/125
  • aberturas f/3,5 – 22
  • anel de foco de um metro até infinito

Além disso, a Penti II possui um fotômetro incorporado e um modo automático com prioridade de velocidade.

A lente é uma Meyer Optik Domiplan multi-coated ou Trioplan de 30mm

As Penti são câmeras de meio quadro, 18 x 24mm,  em filme 35mm. Isso implica que o modo “retrato” é o que se obtém com a câmera na posição horizontal. Há um contador de fotos que precisa ser zerado manualmente quando se carrega o filme. Particular da Penti é o modo de avanço. A haste horizontal que sai à esquerda da câmera deve ser empurrada para dentro. Com esse movimento um engate percorre a abertura logo acima do quadro, visível na foto abaixo, e guia o filme para dentro de um segundo cassete. 

As Penti utilizam um tipo especial de cassetes para o filme 35mm. Trata-se de um sistema idêntico e intercambiável ao introduzido pela Agfa, chamado Rapid, mas ficou restrito a algumas câmeras daquela época e apenas para amadores. Conhecido como SL System, onde SL vem de Schnell Lade em alemão, ou Speed Loading em inglês. Os cassetes não têm um eixo sobre o qual o filme se enrola. Hoje, como não existem mais desses filmes à venda, é preciso cortar uma tira, suficiente para 24 fotos de meio quadro, e empurra-la para dentro de um cassete em escuridão total.

Há uma chapa com mola que mantém o filme plano e nos trilhos e o obriga a entrar no segundo cassete quando este é empurrado pelo dispositivo de avanço da câmera. Quando se fecha a câmera a tampa traseira comprime a mola, que fica dentro dessa espécie de “botão”, e assim se pressiona o filme.

As Penti foram desenhadas por Walter Henning no final dos anos 50 quando trabalhava na VEB Zeiss Ikon, que foi a Zeiss Ikon na Alemanha Oriental do pós guerra. Mas a produção foi para a Welta e o nome original era Welta Orix, produzida em 1958 apenas. Logo depois mudou para Penti e foi fabricada pela Pentacon com o design pronto para receber o fotômetro no modelo Penti II. Cerca de 800.000 câmeras foram produzidas de 1959 a 1977 (fonte: Camera-Wiki)

Como todas as câmeras de visor e controles manuais básicos, a Penti II, nos induz a simplificar o ato de fotografar e nos leva a utilizar a câmera simplesmente para “anotar” o que estamos vendo. Nesse sentido, o seu design tão cheio de charme e nostalgia acaba sendo um complemento muito agradável para um passeio ou evento sem maiores pretensões fotográficas. O meio-quadro limita as ampliações em função do grão. A não ser que este seja também um elemento estético interessante e desejável, é preciso se planejar a utilização de um par filme/revelador adequados para um grão mais fino.

Esta galeria mostra fotos de uma caminhada pelo centro de São Paulo. Essas são impressões de 15 x 20 cm em fibra Ilford. O filme foi o Ilford FP4 revelado em Parodinal caseiro 1:50. Ele ficou tão granulado e minha digitalização parece ter realçado ainda mais essa característica. Preciso tentar outro revelador ou, melhor ainda com esta câmera, seria usar filme colorido – … da próxima vez.

 

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