Uma historinha de imagens

Um dia eu estava caminhando por uma estrada de terra e a um certo ponto me deparei com uma cena que me pareceu bonita para uma foto. Caminhos, estradas e escadas normalmente me atraem. Essa tinha ciprestes bem altos e as nuvens espelhavam um pouco as linhas convergentes da estrada. Era ainda uma dessas paisagens amplas estendendo-se até bem longe no horizonte. Eu estava com uma Super Ikonta IV, câmera muito antiga, da década de 50 e que faz o formato 6×6 cm. Quando se está com uma câmera dessas não se sai clicando sem pensar pois elas carregam apenas 12 fotos. Cada imagem precisa ser estudada para não se desperdiçar precioso filme. Mas eu avaliei e achei que aquele lugar, aquela cena, aquela luz e aquela atmosfera já haviam feito uma marca em mim e mereciam um registro permanente daquele passeio. Fiz a foto. De de volta para casa a ampliei pelo método tradicional sobre papel fotográfico de gelatina de prata.

Essa câmera não é uma dessas que aparecem sem a gente saber de onde. O antigo dono é neto de um apaixonado por fotografia que a comprou nova em 1957. Veio com ela até o recibo da loja especificando exatamente o aparelho do qual eu me sinto hoje um guardião temporário. Quando uma câmera assim chega às minhas mãos eu gosto de retribuir com uma foto feita com ela. Foi assim que eu fiz uma cópia a mais da paisagem e mandei pelo correio para que o Alessandro, neto do primeiro dono da câmera, ficasse pelo menos com uma imagem feita por mim, com a câmera do avô, como lembrança e compensação pela separação.

Meses depois, em conversas de Facebook, ele me manda uma imagem feita a partir da foto que eu lhe dei. O fato é que ele estava fazendo um curso de pintura e precisava de um motivo para um exercício. Tomou a foto como referência. Quando eu olhei para ela, foi como um raio, de repente eu entendi o que é que havia atraído minha atenção para aquela cena. A fatura característica do trabalho manual em giz e pastel seco me remeteu imediatamente à minha infância. Eu gostava muito de desenhar e meu pai me presenteou com vários livros de pintura que ele achou em uma liquidação no centro de São Paulo. Entre eles havia Van Gogh com seus ciprestes e Camile Corot que muitas vezes usou essa composição de árvores em um canto do primeiro plano e uma paisagem se abrindo até um horizonte distante no lado oposto.

Com certeza, no sub-consciente, enquanto eu caminhava pela estradinha, meu cérebro ia executando automaticamente uma varredura, como um motor de busca do Google, em todas as minhas referências passadas. Quando eu cheguei naquele ponto: bingo! Ali ele achou uma reverberação, um reflexo, uma relação de semelhança que de várias formas ia de encontro a boas lembranças de minha infância enquanto folheava aqueles livros. Olhando depois a imagem do Alessandro, lembrei até do delicioso cheiro de gráfica, característico dos livros novos. Cheiro que conheci naqueles de pintura que foram meus primeiro livros.

Lembrei do Gombrich quando ele explica que não vemos com os olhos mas com o cérebro e que o ato de ver busca incessantemente o reconhecimento, o pareamento de experiências presentes e passadas. Há uma ralação de familiaridade entre as imagens, uma genealogia iconográfica que constitui nosso repertório de experiências visuais. A invenção da fotografia foi menos ruptura do que normalmente imaginamos que tenha sido. Havia novidade, sem dúvida, mas foi mais uma vez um enorme repositório de imagens prontas, recebidas, se metamorfoseando em uma nova mídia. Imagens não são coleções aleatórias de elementos, não são coisas “da natureza”, são antes narrativas inteiras e é como narrativas que as guardamos. As pinturas que vi quando criança engendraram a fotografia que voltou para a pintura nas mãos do Alessandro. Com certeza ele também imerso nessa sopa de composicões, cenas, combinações semânticas e gramaticais que formam nossa poética visual e que constituem nossa memória, nosso inconsciente coletivo, nosso senso do que é bonito ou feio, do que fica bem e do que fica mal, do harmonioso e do conflitante.

Eu sempre penso nessas questões quando vejo fotografias que classifico como “bonitas” ou simplemente “boas fotografias”, imagens que eu gosto, que todos nós gostamos, e que estão muito longe de ser algo realmente novo e original. São antes bons exemplos de categorias que já estão em nosso subconsciente. São imagens prontas reeditadas pela n-ésima vez. São aplicações de cânones que já internalizamos. Isso pode às vezes dar a sensação incômoda de que estamos “copiando”, que “alguém já fez isso” ou simplesmente de que “não estamos inovando”. Como se inovar fosse uma obrigação e não inovar uma falha . Por outro lado esse deve ser um dos lados bons da fotografia, isto é, permitir uma obra coletiva que por se transformar muito lentamente acaba servindo como uma sólida fonte de referências. Penso que é esse oceano ordenado, classificado, orgânico, que nos oferece um norte, uma descrição do mundo e nos permite uma certa paz em meio ao que de outra forma seria o caos.

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