Orthoskop | Voigtlander, a segunda Petzval

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– Orthoskop | Voigtlander | 1857/58 –

Esta é a lente mais antiga da coleção. Veio de um antiquário em Santos – São Paulo, em uma caixa de sapatos, embrulhada em jornal, junto com uma Dagor 240mm, uma Tessar 300mm e mais alguns itens sem importância. Infelizmente faltam dois elementos na parte traseira. Além disso, parece que alguém achou que faria bem em introduzir um diafragma do tipo Waterhouse e fez um corte e alguns adendos na parte interna para acomodar as lâminas. Quando a examinei, achei estranho o local onde esse corte está e, além disso, parece um pouco torto como se vê na foto abaixo. Nada compatível com o padrão de qualidade habitualmente encontrado nessas lentes. Depois, encontrei na internet uma foto de uma outra lente igual, em melhor estado, e vi que realmente o corte não existe na original.

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Sobre informações na própria lente, está gravado o seguinte:

Nº 7261
Voigtlander & Sohn in Wien und Brauschenweig

Mas pesquisando e comparando, foi possível identifica-la e, de fato, é uma lente interessante de se ter mesmo nessa condição deplorável. Trata-se de um desenho de Joseph Max Petzval (1807-1891) e segue o mesmo princípio de sua famosa lente para retratos.

voigtlander_orthosckop_chevalier_paysage

Com a invenção da fotografia, a necessidade de lentes mais luminosas tornou-se crítica pois o processo de Daguerre demandava muita luz. Exposições andavam na casa dos 10 minutos para um retrato, podendo chegar a 30. Acima vemos uma lente utilizada nas primeiras câmeras para daguerreotipos e seu esquema ao lado mostrando um dubleto acromático e o diafragma à frente da lente. O vidro fica dentro e por isso não o vemos. A foto eu fiz no Museu Francês da Fotografia, em Bièvres, e o esquema é do livro A history of the photographic lens, de Rudolph Kingslake.

O Daguerreotipo foi comprado e tornado público pelo governo francês em 1839. A Sociedade de Desenvolvimento para a Indústria Nacional, em Paris, em 1840, ofereceu um prêmio para quem apresentasse um novo desenho para uma lente mais rápida. O professor de física A.F. von Ettingshausen, da universidade de Viena, tratou de convencer Petzval, que tinha então 32 anos, e que nunca havia desenhado lentes, a trabalhar em uma proposta para concorrer. Petzval era professor de matemática e aceitou o desafio e, diferente dos opticistas de seu tempo, desenvolveu sua lente primeiro no papel, usando métodos puramente matemáticos, antes de partir para a construção de um protótipo. As lentes de Petzval foram então as primeiras calculadas e inauguraram um novo campo que seria a óptica geométrica. O jovem foi ajudado nos cálculos por uma equipe de 8 militares de artilharia, canhoneiros, que lhe foram úteis por seus conhecimentos em matemática utilizada em balística. Fizeram manualmente o que seria bem o trabalho de um computador. Petzval chegou a uma conclusão em apenas 6 meses e produziu não um, mas dois desenhos. Um deles concebido para retratos com abertura f 3.6 e o outro para paisagens com ângulo de visão maior e abertura menor em f 8.7. A lente para retratos só consegue a abertura maior com sacrifício de seu círculo de imagem, ou correspondente ângulo de visão. A lente para paisagens, inversamente, abre um ângulo maior mas, para não perder demais em qualidade de imagem, precisa limitar-se a uma abertura pequena.

A maratona para calcular o trajeto de raios de luz enquanto se variava a configuração dos vidros foi em 1840. No ano seguinte um primeiro exemplo foi testado e apresentado para a Sociedade de Desenvolvimento, mas acabou perdendo para um outro desenho de um opticista francês chamado Charles Louis Chevalier, membro de uma família tradicional no ramo de instrumentos ópticos, já com uma história de quase 100 anos no métier. As lentes que equiparam as primeira câmeras de Daguerre (exemplar reproduzido mais acima) eram de Louis Chevalier.

O esquema vencedor do prêmio adicionou um segundo dubleto como mostra o diagrama abaixo e foi apresentado sob o nome objectif à Verres combinés (objetiva a vidros combinados). A comissão julgadora preferiu a lente de Chevalier, formada então por dois dubletos, pois esta podia ser usada completa para retratos ou apenas um dubleto para paisagens, apesar de que em cada caso, fosse mais lenta e menos corrigida que a proposta por Petzval. Mas resolveram valorizar sua flexibilidade. Consta que a disputa assumiu também um caráter de sistema francês contra sistema alemão. Porém, apesar da derrota no concurso, a história premiaria Petzval.

Notar que novamente o diafragma fica à frente da lente, está do lado direito no desenho abaixo.

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Chevalier ainda acusou Petzval de que a proposta deste seria uma cópia de seu projeto, pois como veremos mais abaixo, Petzval também utilizou uma lente acromática para paisagens com o acréscimo de duas outras mais atrás. Mesmo que isso tivesse um fundo de verdade quanto ao conceito, com certeza não era verdadeiro quanto ao método, que no caso de Petzval foi mesmo inaugural. Ninguém também iria iniciar algo totalmente novo e as lentes acromáticas seriam provavelmente o ponto de partida óbvio para qualquer aperfeiçoamento.

Mas Petzval não desistiu e apresentou seus dois desenhos para seu então amigo Peter Wilhelm Friedrich von Voigtlander, também construtor de instrumentos ópticos. Voigtlander, imediatamente viu o valor do novo conceito e comprou de Petzval o direito de fabricar os seus dois modelos. Mas não se fez contrato, patente e nem se estipulou quantidade ou validade. Em princípio, o modelo para paisagens foi deixado de lado e apenas a objetiva para retratos foi fabricada e comercializada aos milhares. Incentivados pela falta de patente, outros fabricantes começaram também a copiar ou introduzir leves modificações tirando de qualquer forma vantagem do conceito básico desenvolvido por Petzval. Muitas lentes desse tipo, sem marca, foram fabricadas e podem ser encontradas até hoje. Também os principais fabricantes não hesitaram em colocar seus nomes em lentes tipo Petzval. Entre eles temos  Ross e Dallmeyer na Inglaterra, Hermagis, Auzoux, Gasc & Charconnet, Derogy, Lerebours & Secrétan, Jamin & Darlot, na França, Voigtlander, Steinheil, Busch, na Alemanha, Suter, na Suiça, Harrison, Holmes Booth and Haydens nos Estados Unidos (fonte Kingslake). Não tardou para que Petzval brigasse com Voigtlander, inclusive na justiça, ao ver o quanto de dinheiro que este ganhava com seu invento. A resposta que Voigtlander deu foi abrir uma outra fábrica na Alemanha, em Brauschweig, fora da jurisdição austríaca. Mais tarde, fechou definitivamente sua empresa em Viena.

A ideia de propriedade intelectual para invenções, obras artísticas, processos industriais, entre outros, já existia conceitualmente mas os mecanismos para ações corretivas, indenizatórias ou restritivas ainda não funcionavam muito bem – especialmente a nível internacional. O assunto era novo pois novo era o próprio liberalismo. A proteção oferecida por guildas e associações de classe durante a Idade Média, focadas no “quem é que pode atuar em tal mercado”, ainda precisava ser substituída por algo focado no “como que se pode atuar em tal mercado”. Pois no liberalismo qualquer um pode, em princípio, fazer o que quiser, abraçar a profissão que quiser, empreender na área que quiser. Nesse contexto, propriedade intelectual pública, como o daguerreotipo, era facilmente reconhecida como tal, livremente copiada, utilizada, editada, mas a propriedade intelectual privada carecia muito de proteção institucional.

Voltando às lentes, esse tempo todo o desenho desenvolvido por Petzval para paisagens ficou parado pois ao que parece contentavam-se com o uso de meniscos ou dubletos acromáticos conhecidos genericamente como “lente francesa para paisagens”. Mas a fotografia evoluía e logo sentiu-se a necessidade de uma lente com melhor performance em fotos externas. Desta vez Petzval, que estava brigado com Voigtlander,  acertou com um outro opticista vienense, Dietzler, em 1854, para fabricar o seu desenho. Uma nova lente foi lançada em 1856 com o nome Dialyte e fez sucesso rapidamente. Voigtlander reconheceu o desenho que havia comprado em 1840 e, achando-se no direito, lançou a sua própria lente com o nome Orthoskop, que remete à sua baixa distorção. A lente, agora comercializada por uma casa poderosa, ficou ainda mais popular e então foi a vez de Petzval e Dietzler tratarem de tirar proveito do nome da Voigtlander. Abandonaram Dialyte e adotaram também Orthoskop. Voigtlander obviamente se opôs, mas, como no caso anterior, não havia muito que pudesse de fato fazer contra ou para impedir o outro.

Bem, a lente deste post é exatamente uma Orthoskop, a lente para paisagens desenhada por Petzval e fabricada pela Voigtlander. Ela foi produzida em oito tamanhos diferentes sendo um para câmeras estéreo. Na época praticamente não se falava em distância focal e sim em formatos da chapa e tipo de uso da lente, para paisagens ou retratos, e isso dizia respeito ao ângulo de visão e luminosidade. As Orthoskop iam de 7 x 10 cm até 37 x 48 cm, sendo que estas últimas chegavam a pesar 15 kg. Este exemplar deve ser para 15 x 20 cm, mas é impossível saber ao certo a não ser que se encontre uma igual porém completa.

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Segundo o Lens Collector’s Vademecum, a versão produzida por Voightlander era construída de tal forma a permitir também o uso do menisco frontal sozinho, como uma lente para paisagens. De fato é muito simples desenroscar a parte traseira e ela tem até umas ranhuras para facilitar essa tarefa, desprendendo-se do corpo da lente como uma peça à parte. Isso é para mim muito boa notícia pois o que esse exemplar tem é exatamente e apenas o elemento frontal. De modo que embora não seja a lente completa já é uma lente utilizável. Preciso, no entanto, encontrar uma flange para ela.

voigtlander_orthosckop_other_sampleQuanto à data de fabricação, não encontrei uma informação segura baseada nos números de série desse período. Mas algumas pistas ajudam a localizar. Por exemplo, sabe-se que em 22/fev/1861, houve uma celebração pela 10.000ª lente fabricada, esta é a nº 7261, certamente anterior a isso. A produção naquela época girava em torno de 454 lentes por ano (Vade mecum). A produção em Braunschweig começou em 1852/53 e estavam produzindo as lentes no milhar 4.ooo. A Dyalite que precedeu a Orthoskop foi lançada em 1856 e sabe-se que a Orthoskop veio logo em seguida. Por fim, vi uma lente em um leilão na Alemanha (imagem ao lado), também uma Orthoskop com número de série 7723, e ela estava datada com 1858. Suponho que lá eles tenham mais acesso a essas informações. Pesando todos esses dados eu acredito que seja razoável datar a minha como 1857/58.

Quanto ao seu desenho, ele aparece em no livro Ausführliches Handbuch der Photographie (manual completo de fotografia) de Josef Maria Eder, Alemanha, de 1893, citado em um artigo sobre uma versão da Orthoskop fabricada por Harrison nos Estados Unidos, que se encontra no site Antique & Classic Cameras. Infelizmente não encontrei uma versão online do livro alemão. Mas penso em pesquisar em alguma biblioteca. A figura citada é esta:

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O desenho confirma completamente a identidade da lente. Aparentemente, no livro deve haver uma legenda com os raios de curvatura, isso seria uma ótima fonte para se descobrir qual o formato ao qual ela originalmente se destinava. O esquema de um acromático colado na frente e um acromático separado atrás, é o plano básico dos desenhos de Petzval de 1840. Em outra lente da coleção pode ser visto um exemplar de lente tipo Petzval para retratos. O mesmo padrão pode ser observado. Trata-se da Cone Centralizateur fabricada pela Darlot, francesa, não muito depois dessa Orthoskop.

Um último comentário sobre esta lente é que apesar de não haver ainda o conceito de teleobjetiva em 1840, tecnicamente falando, ela é uma teleobjetiva. Isso se torna ainda mais estranho quando pensamos que era dedicada a paisagens e portanto cobrindo um ângulo de visão mais amplo. Mas o ponto é que quando Petzval adicionou um dubleto negativo na parte traseira, aumentando a imagem da primeira lente, o centro óptico da lente foi parar à frente dela. O conceito de teleobjetiva é justamente o de uma lente que tem o seu centro óptico à frente de seu elemento frontal. Isso é muito útil quando se fabricam lentes de foco longo em relação ao quadro, para que elas possam ser mais curtas que sua distância focal efetiva. Muito conveniente para fotografia feita sem tripé e para tornar o equipamento menor de um modo geral. Bem, apenas como curiosidade, a Orthoskop foi a primeira teleobjetiva fotográfica.

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O diâmetro da rosca da flange é 73,4 mm. O diâmetro da lente é 54 mm. O comprimento total é 62 mm.

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