Rapid Rectilinear | William Wray

Wray rapid rectilinear 200 mm 8" f/8

200 mm |  f/8 | ~1885

Esta é uma lente inglesa fabricada por William Wray, nascido em 1829, advogado de profissão, mas amante da astronomia. Como em muitos outros casos por essa época, a sua dedicação à observação dos astros o levou a fabricar caseiramente aparelhos como lunetas e telescópios. Aconteceu que o hobby evoluiu para algo muito sério e ele se tornou um respeitável fabricante e projetista desses instrumentos. Boa parte da indústria de lentes fotográficas veio naturalmente da expansão de portfólio de empresas que atuavam na área científica de microscópios e telescópios. Foi o caso da Voigtländer, entre os pioneiros, e da própria Leitz, famosíssima por suas câmeras Leica, mas inicialmente fabricante de microscópios. A Wray entrou para a fotografia quando já era uma conhecida firma de telescópios. Outros vieram de ópticas mais simples, como Derogy (francês), Wallet na geração anterior, e que eram originalmente fabricantes de óculos.

Telescópio astronômico Wray, com objetiva de ~10 cm – 1882

Na década de 1880 William Wray, nos seus cinquenta anos de idade, iniciou a produção de lentes fotográficas e conseguiu de imediato migrar seu prestígio como opticista na astronomia para essa nova área. Não lançou nenhum conceito novo mas recalculou e produziu boas lentes dentro dos desenhos já consagrados de sua época. Fabricou meniscus (lentes côncavas/convexas de um só vidro), Rapid Rectilinears (dois dubletos simétricos) e variações sobre esse tema incluindo Casket Lenses, que são conjuntos de lentes que podem ser combinadas e resultar em diferentes distâncias focais. Produziu lentes para muitos fabricantes de câmeras. Na década de 1890 foi o boom das Detective Cameras, que eram basicamente câmeras para uso sem tripé, câmera na mão para instantâneos, e muitas delas traziam lentes da Wray. O formato mais adotado era o quarto de placa, que na Inglaterra resultava em 4×5″, e a lente Wray que fez sucesso nessa configuração era uma Rapid Rectilinear com f/5.6 de abertura e 4 ½ ” de distância focal (aproximadamente 126 mm).

William Wray morreu no final do século XIX e a empresa perdeu muito de sua vitalidade. Mas em 1908 foi adquirida por Albert Arthur Smith, vindo da Ross, outro fabricante inglês muito importante, e sob nova administração a marca voltou à cena com atuação de destaque. É possível se encontrar muitas ópticas e também câmeras com a marca Wray, entre elas a Lustrar, uma soft-focus (categoria muito em moda no início do século XX) mas depois desdobrada em uma linha muito extensa de lentes para diversas aplicações. Em uma fase bem mais tardia veio a Wrayflex, uma câmera monoreflex 35mm lançada em 1950 e hoje muito cobiçada por colecionadores.

Wray rapid rectilinear 200 mm 8" f/8

Wray London 6½ x 5 nº 490

A seguir uma pista do Lens Collector’s Vademecum, (pag. 329), esta lente deve ser uma Rapid Rectilinear. Sua forma sugere bastante a construção simétrica das RR e a indicação de um quadro 6½ x 5″ (foto acima) somada à sua distância focal medida de 201 mm, vamos dizer 200 mm ou 8 polegadas, correspondem de perto a uma entrada no Vademecum para uma lente  com esse formato fabricada na primeira fase da Wray. O número de série 490, sugere que ela foi fabricada realmente bem no início da produção de lentes fotográficas da Wray.

Regressão linear para se encontrar a distância focal

 

Wray rapid rectilinear 200 mm 8" f/8

Diafragmas tipo Waterhouse

Particular deste tipo de construção é o diafragma na forma de disco giratório. Esse tipo de solução funciona muito bem quando o diâmetro dos vidros não é grande. Fica até bem prático se comparado com os Waterhouse que são peças soltas que são inseridas por uma fenda no corpo de lente e facilmente se perdem. No caso dessa RR da Wray o diâmetro dos vidros é de apenas 25 mm (o comprimento total da lente é de 52 mm). O disco com as aberturas apresenta 5 medidas diferentes.

 

Wray rapid rectilinear 200 mm 8" f/8

Bem nessa época estava em discussão a padronização das escalas de abertura. A ideia era que os fotógrafos pudessem ter certeza que lentes diferentes, de fabricantes diferentes, desde que apresentassem o mesmo número f, estariam transmitindo a mesma quantidade de luz. Wray usou uma escala que ainda não era a que ficaria como a hoje conhecida sequência:

2.8, 4. 5.6, 8, 11, 16, 32…

Mas estava a um passo dessa solução. Utiliza uma outra escala que havia sido discutida na Photographic Society of Great Britain, conforme aparece no periódico The Photographic News de 29/Fevereiro/1884. Nessa escala assume-se que uma lente com abertura correspondendo a 1/4 da distância focal terá abertura 1. As aberturas seguintes, mais fechadas, seguem em potências de 2 fazendo a série: 1, 2 ,4, 8, 16, 32… Pode-se ver na foto abaixo um 16 gravado indicando o tamanho médio do furo que aparece no lado oposto. Mas esse não é o “nosso” f/16 de hoje.Wray rapid rectilinear 200 mm 8" f/8

Eu medi a pupila de entrada para os cinco diafragmas (veja o método aqui) e encontrei os seguintes valores:

As marcações no disco estão na primeira coluna. Depois vem a pupila de entrada em milímetros e a abertura real calculada como focal/pupila de entrada. Arredondei esses valores para os número conhecidos que são os que aparecem em fotômetros. A abertura máxima f/8 também corrobora o que diz o Vademecum para a lente RR que faz 6½ x 5″, constituindo assim mais um indício de que é essa mesma a lente. Pode parecer um pouco frustrante não se encontrar os números exatos mas depois de analisar várias lentes eu cheguei à conclusão de que é assim mesmo. No final, como em fotografia as escalas de densidade x percepção são logarítmicas, via de regra, diferenças de 10 ou 20% não são tão graves assim.

Wray rapid rectilinear 200 mm 8" f/8

Há uma certa ironia em se possuir uma lente Wray com disco de aberturas. É que foi justamente William Wray um dos fabricantes que mais atuou na introdução industrial do diafragma tipo iris. Não que o sistema não fosse conhecido. Nicephore Niépce já o havia utilizado em suas pesquisas. Na verdade não se sabe quem foi o “inventor” da iris. Mas foi preciso se inventar uma máquina capaz de fabricar esses dispositivos de modo eficiente para poder equipar os milhares de lentes que eram produzidas todos os anos em várias partes do mundo. Parece que tal tecnologia teve muito da contribuição de William Wray. Pelo menos a julgar pela seguinte passagem do The British Journal of Photography de 14/abril/1893. Ela relata uma visita da redação à fábrica em Highgate nos arredores de Londres :

“Entrando na primeira dessas oficinas, observamos quatro filas de torneamento que se estendem de ponta a ponta. Alguns deles são elaborados com eixos de correr, castelos e pertences similares, normais para tais máquinas. De um lado, observamos um aparelho mecânico complexo que não poderia se atribuir ao departamento de qualquer torno, fresa ou prensa, sendo diferente de tudo que já tínhamos visto anteriormente para utilização em qualquer construção de lentes, telescópios, ou microscópios. Esta, Wray nos informou – demonstrando seu modus operandi – era uma máquina inteiramente nova que eles tinham feito para a produção de diafragmas de íris, sendo usado para cortar e furar as ranhuras e orifícios que formam uma parte do seu mecanismo interno. Esta máquina, uma vez definido um tamanho para qualquer tipo de tubo, faz o seu trabalho com um grau de perfeição impossível de ser alcançado pelo mais cuidadoso e qualificado trabalho manual”.

Quem já observou cuidadosamente uma iris imagina a dificuldade técnica para se colocar rebites em pequenas lâminas de poucos décimos de milímetros de espessura. E, no entanto, o novo sistema tornou-se universal para praticamente todo tipo de aparelho óptico que precise controlar a abertura de suas lentes. Em outra passagem no mesmo periódico lemos que as iris produzidas por Wray tinham até dez lâminas e produziam uma abertura circular muito precisa em toda a escala.

Abaixo um retrato que fiz com esta lente. Usei f/16 e exposição com um obturador de estúdiostudio shutter, por volta de 1 segundo. O filme era Forte 200 ASA no formato 4×5″. A ampliação foi em 24×30 cm em papel Foma MG Classic 340g. É um papel que tem textura e tons quentes. O que eu gosto nessa lente, e em muitas outras de sua época, é que é possível distinguir até os fios de cabelo da retratada mas, ao mesmo tempo, há uma suavidade na imagem que difere muito do padrão das lentes atuais, ainda intensificado com “clarity” ou  “sharpening” do Photoshop e similares. Deve haver algum filtro digital que consiga o mesmo efeito a partir de uma imagem capturada com uma das maravilhosas lente de hoje. Mas é muito mais gratificante, pelo para mim, ver essa imagem nascendo sozinha, pronta e de uma só vez dentro da banheira do revelador.

 

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