Leica IIIf | Ernest Leitz GmbH Wetzlar

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– Leica III f – Ernest Leitz GmbH Wetzlar, Germany – 1951 –

Leica IIIf é um dos últimos modelos, o penúltimo de fato, de uma linha e de uma concepção que começou em 1913, idealizada por Oskar Barnack, e lançada comercialmente em 1924 pela Ernst Leitz Optische Werke, em Wetzlar, Alemanha. Depois da Leica IIIg veio a linha M com lentes tipo baioneta e um redesenho completo. As Leicas utilizavam o filme 135, fabricado originalmente para cinema, e em vez do formato 18 x 24 mm, típico de quando o filme é transportado verticalmente, característica das filmadoras e projetores, Oskar Barnack projetou sua câmera fazendo 18 x 36 mm com o filme sendo transportado horizontalmente.

A ideia básica da fotografia em 135 mm era a de usar o negativo para ampliação. Isso foi em uma época em que a grande parte das impressões eram feitas por contato com negativos em chapas 9 x 12, 13 x 18 cm e maiores. O filme 120 também ganhava popularidade, a princípio com box cameras e depois com  folding cameras , e ficava em um meio termo podendo ser copiado por contato ou ampliado.

A cópia por contato exige menos da lente pois nesse processo o negativo não terá suas deficiências ampliadas. Já no caso das imagens em filme 135 o nível de nitidez exigido para um negativo que será ampliado, facilmente 10 vezes, sobe muito. Isso obrigou a Ernst Leitz a desenhar e lançar lentes especiais para sua nova linha de câmera que almejava posicionar-se no segmento premium. Vieram lentes como Summar, Summarex, Summarit, Elmar, entre outras, que surpreenderam pela qualidade que entregavam na cópia final.

leica_IIIf_08_bressonAs Leicas estão muito ligadas à fotografia de rua, espontânea, à captura do momento decisivo. Fotos famosíssimas como a que aparece na capa do livro ao lado, escrito por Clément Chéroux, sobre Henri Cartier Bresson, encarnam exatamente esse espírito que dificilmente poderia se expressar por uma câmera de grande formato, pela complexidade de operação, e nem por uma box camera, pela falta de qualidade óptica.

Leicas e folding câmeras como as Retinas, da Kodak, ou as de dupla objetiva como as Rolleiflex, foram passos importantes nessa direção da câmera como uma extensão de um olhar irrequieto, um olhar que já estava em um zapping crescente, deixando de ser contemplativo como foram as primeiras gerações da fotografia. Pode-se dizer que no início olhava-se para fotografar e com a introdução de câmeras mais compactas, mais rápidas e de melhor qualidade foi possível se inverter a fórmula e a partir de então começamos a fotografar para olhar. A foto de Cartier Bresson ao lado é uma exemplo perfeito dessa inversão.

leica_IIIf_09_weegeeAs Leicas foram decisivas em fornecer meios e padrões para que essa nova concepção de se fazer imagens se estabelecesse. Temos que admirar fotógrafos como Weegee, nascido na Ucrânia, imigrado para os Estados Unidos onde trabalhou como fotojornalista nos anos 30 e 40  (foto ao lado, fonte Wikipedia). Temos que admira-lo não só por sua produção em si, por seus tantos instantâneos, tão crus, sobre a vida nas ruas de Manhatan, mas também por sua capacidade em usar uma Speed Graphic 4×5″ como se fosse uma point and shoot. Temos que colocar isso no crédito da perseverança e capacidade de adaptação dos seres humanos.

Mas mesmo com o conceito 35 mm rangefinder, levado à perfeição pelas Leicas, quando chegamos ao final da década de 1950 e início dos anos 1960, este iria ceder o lugar a uma ideia antiga que foi atualizada, miniaturizada, também usando também filmes 135 em quadros 24 x 36 mm, e que tomou a frente no gesto e maneira de capturar o instante. Foi o boom das mono reflex, primeiro européias e a seguir das Japonesas. A imagem vista pela própria lente que toma a foto, o tamanho reduzido das câmeras e exposição automática com fotômetros mais potentes fez com que câmeras como as Nikon F se tornassem o equipamento standard do fotojornalismo e marcas como Canon, Olympus, Pentax, Minolta conquistaram também os amadores mais dedicados.

A nova geração de Leicas, as tipo M, fieis ao conceito do visor com telemetria, seguiram em uma posição de honra na fotografia mas o conceito SLR (single lens reflex) provou ser o melhor adaptado ao novo ambiente da fotografia a partir dos anos 1970.

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Os pontos fortes que a propaganda da Leica evidenciava eram a facilidade de uso, a capacidade de fazer 36 fotos sem recarregar, a qualidade das lentes e além disso tudo criou-se uma aura a respeito de “sentir” a câmera em suas mãos. Realmente ela fica muito bem, firme e aconchegada, quase escondida, entre duas mãos. Na publicidade acima lemos “Uma vez que você ‘sente’ uma Leica, fica realmente mais fácil fotografar com ela do que com uma simples câmera tipo caixa. É mais fácil focar…mais fácil avançar o filme. Pequena, leve e compacta, é mais fácil de levar com você… mais fácil para se chegar às cândidas e efêmeras imagens”.

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Quanto à facilidade para se carregar, a tampa por baixo, é algo que a meu ver deixa a desejar comparada com as tampas traseiras das Kodak Retina, por exemplo. Mas dizem os especialistas que os engenheiros da Ernst Leitz Optische Werke, tinham muita preocupação em manter o filme na posição exata, crítica para o foco correto, e defendiam que uma traseira fixa tinha uma configuração melhor para garantir essa condição.

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Acima um anúncio de uma loja em Paris. Evidencia novamente a facilidade de uso e a diversidade de situações em que a Leica mostrava sua superioridade: “Assim, podemos certamente dizer que ela reúne todos os aparelhos em um só: um aparelho de amador,; um aparelho de reportagem ultra rápido, um aparelho para retratos artísticos, um aparelho de documentação científica, um aparelho para a indústria, um aparelho empregando teleobjetivas; um aparelho de reprodução, um aparelho de aviação, um aparelho estereoscópio, um aparelho de macro fotografia, etc”. Salienta por fim que é possível ampliar seus negativos até 50 x 60 cm.

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A versatilidade do sistema Leica, mencionado na propaganda francesa, é respaldada por uma extensa gama de acessórios, mais de 200 itens que se acoplam à câmera e suas lentes. Até um simples parasol (acima), precisava ser alguma coisa mais desenhada e com alguma gracinha a mais para poder levar o logotipo Leitz-Wetzlar. Abaixo um parasol regulável de acordo com a focal da objetiva.

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Muito da merecida fama das Leicas vem de um cuidado especial com qualidade. Você já comprou alguma máquina fotográfica que veio com um cartão de controle de qualidade, com o número de série da sua câmera e a assinatura de próprio punho de quatro engenheiros da fábrica?

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Abaixo a Leica IIIf com uma objetiva Elmar 90 mm f4. Nessa situação ela precisa de um visor extra para corresponder à nova distância focal. Se o objeto fotografado estiver próximo, é preciso ainda ajustar a distância nesse visor pois se não haverá erro de paralaxe. Acredito que o sistema SLR, que envia sempre ao visor o que quer que qualquer objetiva esteja “vendo”, tem um apelo muito grande e foi o responsável pelo quase abandono das câmeras de visor e telêmetro. A liberdade de variar a objetiva pareceu muito óbvia como uma vantagem imbatível. Até que ponto essa versatilidade é de fato usada e faz mesmo diferença se o critério for apenas se fazer boas fotos, isso é muito questionável. Muitos fotógrafos adoram a ideia de que estarão prontos para qualquer situação e compram tudo que aparece para buscar essa condição que nunca chega. Mas resultados surpreendentes aparecem quando o esforço vai no sentido de fazer o melhor possível apenas com o que se tem.

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Algumas fotos realizadas com a Leica IIIf mostrada neste post.

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